De máscaras a medição de temperatura, relembre como ações contra Covid mudaram em 3 anos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi em 31 de dezembro de 2019. Naquela data, a OMS (Organização Mundial da Saúde) foi notificada de vários casos de pneumonia em Wuhan, na China, de causa desconhecida. Demorou uma semana, em 7 de janeiro, para que os chineses confirmassem que haviam identificado um novo tipo de coronavírus, posteriormente nomeado como Sars-CoV-2.

Desde então, a humanidade enfrenta o patógeno que já matou mais de 6,6 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo registros oficiais. Nesse período, foram muitas idas e vindas sobre o que fazer ou não para evitar uma infecção pelo vírus.

Quem se lembra das primeiras recomendações para a população em geral não usar máscaras a fim de evitar uma falta de estoques? Ou ainda as roupas antivirais que, em teoria, ajudariam a evitar a transmissão do vírus?

Raquel Stucchi, infectologista e professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), afirma que é normal as medidas de prevenção mudarem no decorrer do tempo, em especial quando se trata de uma doença nova.

"A medicina sempre se move, não só com a Covid, atualizando suas recomendações conforme o conhecimento também avança", diz.

A Folha elencou as principais ações que fizeram parte do cotidiano nesses últimos três anos. As alterações foram muitas, mas, para Stucchi, são compreensíveis.

"Quando estamos diante de uma doença nova, todos os excessos são justificados. Se começasse hoje de novo, iríamos fazer tudo igual, até que tivéssemos o tempo e o conhecimento avançasse."

Máscaras De início, as máscaras não eram recomendadas para a população em geral, em especial por um medo de desabastecimento do item essencial a profissionais de saúde e pessoas com suspeita da doença. Mas depois a indicação mudou devido a sua importância para barrar a transmissão do vírus.

"Em três anos, ela passou a ser uma medida que é retomada com sua obrigatoriedade sempre que se tem um descontrole em relação ao número de casos de Covid", constata Stucchi.

Depois que passaram a ser mais recomendadas, muitas pessoas passaram a utilizar as máscaras de pano, até por serem mais acessíveis. Com o tempo, no entanto, deu-se prioridade às cirúrgicas ou, em especial, às de modelo N95 ou PFF2.

Limpeza de superfícies e das mãos Durante meses, pessoas higienizaram constantemente compras ou qualquer outro objeto que chegasse de fora das suas casas. A ação era baseada na ideia de que o Sars-CoV-2 poderia ser facilmente transmitido por superfícies.

Com novos estudos, essa indicação mudou. "Para Covid, essa obsessão, fora do que é rotina para limpeza de superfícies e de compras, não se justifica, porque não tem papel importante na transmissão do Sars-CoV-2", explica Stucchi.

Isso porque as vias de transmissão importantes do vírus são pelo ar e por gotículas, quando se está próximo de alguém infectado. Outra forma relevante são as mãos, já que é comum levá-las à boca ou aos olhos, possibilitando a infecção pelo vírus.

Por isso, embora a limpeza de superfícies não seja mais essencial, a assepsia das mãos com álcool em gel ou sabão e água continuam.

Para Stucchi, essas medidas deveriam ser melhor adotadas nos dias atuais. "Quando há um aumento do número de casos, a discussão fica restrita com voltar ou não a máscara, e ninguém mais falar do álcool em gel."

Face shield Uma estrutura acoplada na cabeça de tal forma que uma tela de plástico fique na frente do rosto da pessoa, como se o protegesse. Essa é a imagem mais comum da face shield, um equipamento adotado no meio da pandemia para evitar infecções pelo coronavírus.

Na prática, a ideia caiu em desuso por não ser recomendada em todas as situações, já que não ocorre filtragem do ar. Segundo Stucchi, o instrumento deve ser basicamente restrito para ambientes de UTI com pacientes confirmados para Covid-19, e associado a máscaras.

Outra situação em que ele pode ser útil é na coleta de exames de pessoas suspeitas de infecção pelo patógeno.

Luvas No início da pandemia, uma ideia adotada por algumas pessoas foi o uso de luvas cirúrgicas. "A gente falava tanto de higienização das mãos e álcool em gel que as pessoas passaram a achar que a luva também seria importante", lembra Stucchi.

Mas na prática não é bem assim. O principal dilema é que quem usa luva não vai higienizar suas mãos constantemente, explica a infectologista. Ou seja, o equipamento pode dificultar a adoção da limpeza das mãos --essa sim, uma ação essencial.

Tapetes e desinfecção Na entrada de alguns estabelecimentos, tapetes para limpeza dos sapatos eram postos a fim de barrar a proliferação do Sars-CoV-2. Em outros locais, como estações de metrô, túneis que lançavam substâncias para, em teoria, desinfectar os transeuntes eram montados como estratégia contra o vírus.

Ambas as medidas, no entanto, não foram significativas. "Isso não se mostrou eficaz e nem importante", resume Stucchi.

No caso da desinfecção direcionada a pessoas, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) até divulgou uma nota técnica esclarecendo quanto a esses produtos. No documento, a agência é bem categórica: não existia nenhum produto aprovado para esse fim.

Roupas antivirais A adaptação da indústria diante o novo coronavírus também foi adotada com o passar dos meses de 2020. Íons de prata, por exemplo, foram testados em tecidos com a finalidade de reter o vírus.

Na prática, contudo, a ideia não é das mais proveitosas. "As roupas não são um veículo importante de transmissão", conclui Stucchi.

Outra medida parecida foi desenvolver máscaras com esses tecidos. No entanto, a médica explica que os modelos hospitalares, como a N95, ainda são mais eficazes. Por isso, elas devem ser as mais adotadas pela população.

Medição de temperatura A tática de medir a temperatura de pessoas que acessavam estabelecimentos se espalhou aos montes com a Covid-19. A ideia era identificar se a pessoa estava com um quadro febril e, se fosse visto, impedir a entrada do indivíduo. "Isso ficou por bastante tempo", recorda a infectologista.

Para ela, no entanto, é uma medida "absolutamente inútil".

Uma das razões é que o número de pessoas assintomáticas com Covid-19 é muito alto. Outro motivo para questionar a medida é que mesmo alguém com febre pode contornar o sintoma sem muitas dificuldades. Por exemplo, antitérmicos poderiam ser utilizados por alguém para, na hora de ter a temperatura ser medida, não apresentar o quadro febril.

Isolamento social Barrar a cadeia de transmissão do Sars-CoV-2 passou por diminuir o contato físico com outras pessoas fora do domicílio. Estabelecimentos fecharam, serviços de delivery cresceram e as janelas de apartamentos tinham mais pessoas que as ruas.

O isolamento social e a suspensão de aglomerações foram medidas recomendadas logo no início da pandemia de Covid-19, e o nome "lockdown" se popularizou. Atualmente, elas continuam sendo eficazes, embora bem menos adotadas.

Stucchi explica que, embora com internações e fatalidades mais baixas, prestar atenção em ações como isolamento social é necessário em especial entre aqueles com maior risco para casos graves por Covid-19, como imunossuprimidos e idosos.