Máscaras de proteção: sobrevivência para uns, exclusão para outros

Por María Paz SALAS y Luján SCARPINELLI
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Uma funcionária da empresa Trajes Típicos Jimy, que fabrica e distribui vestimentas tradicionais, posa de máscara, em Guadalajara, México, em 6 de maio de 2020
Uma funcionária da empresa Trajes Típicos Jimy, que fabrica e distribui vestimentas tradicionais, posa de máscara, em Guadalajara, México, em 6 de maio de 2020

As ruas começam a recuperar seu vigor com transeuntes mascarados. Por obrigação, ou por escolha, o uso de máscaras de proteção se disseminou nas cidades latino-americanas, transformando-se em esperança para alguns, e em exclusão, para outros.

Artesãos de trajes mexicanos estampam seus desenhos no novo acessório.

Uma fábrica de meias argentina adapta sua produção para sobreviver.

Na Bolívia, um grupo feminista imprime suas mensagens sobre as máscaras, para que o tecido não amordace suas vozes.

E, enquanto inventores chilenos democratizam a tecnologia para criar máscaras, pessoas hipoacúsicas e surdas propõe máscaras com transparências para evitar barreiras de comunicação.

A AFP selecionou algumas histórias sobre máscaras, pandemia, sobrevivência e adaptação.

- Tradição e atualidade -

A pandemia colocou em uma encruzilhada a fábrica e distribuidora mexicana Trajes Típicos Jimy, nascida em Guadalajara, nos anos 1950.

Miguel Castillo, responsável pela empresa familiar, conta que hesitou "100 vezes" antes de incorporar as máscaras, por medo de não alcançar os padrões cirúrgicos.

Mas, quando o estado de Jalisco começou o confinamento, 140 famílias que integram a cadeia produtiva da empresa entraram em pânico.

"A crise nos atingiu, as vendas caíram, as pessoas começaram a ficar sem trabalho, tivemos que fechar lojas", relata Castillo.

Foi quando ele aceitou a proposta de uma costureira de Puebla que havia fabricado máscaras com partes de um vestido. Esse exemplar mantinha a marca tradicional dos produtos que a Trajes Jimy vende para os Estados Unidos e para outros países.

A empresa começou, então, a fazer máscaras de manta de algodão e fibra natural reutilizáveis, mantendo os desenhos com iconografias astecas, flores e bonecas.

"Temos milhares de pedidos em espera. Há 15 dias, estas famílias não tinham o que comer e, agora, geram dinheiro", celebra Castillo.

- Dos pés à cabeça -

Apesar da recessão, a produção da fábrica de meias Sox, de Pigüé, província de Buenos Aires, alcançava 160.000 pares por mês e sustentava 70 famílias. O empreendimento já passou por várias crises em seus 25 anos de existência.

"A diferença é que sempre encontramos uma forma de enfrentá-las com o produto que fabricamos", conta Santiago Álvarez, responsável pela produção.

Agora, a emergência os obrigou a se renovar, mais uma vez.

Em 20 de março, quando foi instalada a quarentena obrigatória na Argentina, as máquinas pararam. E a extensão do confinamento em abril frustrou a esperança de reativação.

Dias depois de ter enviado os funcionários para casa, eles voltaram ao trabalho e transformaram sua matéria-prima em máscaras ergonômicas de dupla camada de tecido e reutilizáveis.

Inovação, mais subsídios e crédito permitiram superar abril, celebra Álvarez.

- O grito feminista -

Em 8 de março, milhares de mulheres marcharam na Bolívia, um dos países com mais alto índice de feminicídios da região. No dia 22, começou o confinamento.

O movimento feminista Mujeres Creando reagiu à dupla emergência com a oferta de máscaras e álcool em gel violetas.

Nas máscaras, que custam 10 bolivianos (ou US$ 1,5 dólar), imprimiram mensagens como "Ficar em casa não é a mesma coisa que se calar em casa" - um pedido para que as mulheres não fiquem caladas diante da violência de gênero, diz María Galindo, que integra o movimento.

Ela também denunciou a explosão da violência doméstica, com quatro feminicídios cometidos durante a quarentena.

"Para as mulheres, a tomada das ruas é um mecanismo de emancipação e uma válvula para distensionar conflitos de violência machista", afirma María.

- Modelos com impressão 3D -

A ideia surgiu muito antes do coronavírus. Em um mestrado de Inovação, três chilenos criaram objetos antibióticos para lutar contra as infecções.

A Copper 3D, empresa chileno-americana que desenvolve tecnologia de impressão 3D com materiais antimicrobianos e antivirais com partículas de cobre, surgiu em 2018, sem imaginar o que viria tempos depois.

Enquanto o mundo alertava para a escassez de equipamento médico diante da pandemia, a empresa começou a imprimir máscaras antivirais, reutilizáveis e de baixo custo.

"Dissemos para nós mesmos que poderíamos desenhar uma máscara com material ativo que se possa fabricar em qualquer parte", afirmou o diretor de Inovação da Copper 3D, Daniel Martínez.

Sua contribuição ultrapassou fronteiras, quando a empresa decidiu liberar os moldes de seu invento, o NanoHack, "convocando à ação" quem tivesse impressoras 3D.

A convocação surgiu efeito: sete milhões de downloads na primeira semana, e uma estimativa de mais de 15 milhões atualmente.

- Máscaras inclusivas -

"Eu me sinto discriminado", diz Daniel Ouanono, que se refere às máscaras como uma "barreira comunicacional" para quem é hipoacúsicos - como ele - e para as pessoas surdas, ao impedir a leitura labial.

Este advogado argentino apresentou à Associação Civil Fordes uma petição que adverte sobre a "deterioração na qualidade de vida" das pessoas com estas dificuldades. No texto, solicita uma adequação das normas, já que as máscaras se tornaram obrigatórias em Buenos Aires e nos espaços fechados em várias regiões do país.

Na Argentina, cerca de um milhão de pessoas têm deficiência auditiva permanente.

Para muitos, a solução são as máscaras com transparência.

É o caso da estudante de libras Mariel Cingolani, de 22 anos, que aprendeu a usar a máquina de costura por meio de tutoriais do YouTube. À venda on-line, suas máscaras chegaram ao Departamento de Fonoaudiologia de um hospital público portenho, conta ela orgulhosa.