'Mãe, achei que tinha morrido': brasileiro baleado nos EUA volta a falar após um mês internado

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RIO - Um mês após ser baleado na cabeça em Chicago, nos Estados Unidos, as primeiras palavras do estudante de robótica João Pedro Marchezani, de 23 anos, são de quem despertou de um pesadelo. Na última segunda-feira, o brasileiro voltou a falar desde que foi internado em estado crítico na madrugada de 5 de setembro. Na ocasião, ele foi atingido por um tiro enquanto saía com amigos para um bar da cidade americana, onde mora há quatro anos.

— Mãe, achei que tinha morrido — disse João Pedro em seu primeiro diálogo com Mônica Marchezani, que respondeu:

— Você é um milagre, meu filho.

Sem conversar e enxergar desde o crime, além de ter o lado esquerdo paralisado, João Pedro começou aos poucos a recobrar a fala e a visão. Aos seus olhos, as imagens ainda são bem turvas, difíceis de identificar. Para se comunicar, já pronuncia devagar as palavras, apesar do cansaço. Até então, dependia que sua família e os profissionais do hospital fizessem leitura labial.

— Nessa primeira conversa, ele apertou a minha mão e disse: 'Mãe, me dá um abraço?' — conta Mônica, emocionada. — Eu dei o abraço nele, e ele falou: 'Mãe, eu te amo'. Eu disse que também o amava, que ele estava ali com a gente. E o João respondeu: 'Agora eu sei'. Depois de um mês, ouvir a voz do meu filho foi um grande presente.

O diálogo entre mãe e filho ocorreu após um procedimento feito na traqueia por João Pedro. Se continuar respirando bem sem ajuda dos aparelhos, ele será submetido a uma nova cirurgia para retirada do tubo. O estudante passa por reabilitação com auxílio de uma fisioterapeuta. Entre os exercícios, está reaprendendo a beber água. Ele ainda depende de uma esponja molhada para se manter hidratado. Mas já pede refrigerante.

Quem também pôde ouvir a voz do filho foi o engenheiro mecânico Flávio Marchezani — mesmo à distância, visitando João Pedro periodicamente. Em áudio enviado ao pai, ao qual o GLOBO teve acesso, o estudante relata que sente saudades e que não o vê há muito tempo. Os dois estiveram juntos na semana anterior, mas o jovem não se lembra.

— Tô com saudades. Tô com saudades. Muita. Eu não vejo ele há muito tempo — diz João Pedro no áudio. Ainda confuso, ele diz que "estava trabalhando" em uma empresa por indicação do pai. O estudante trabalharia com ele após terminar o ensino superior.

Apesar dos lapsos de memória, João Pedro se recorda de que foi alvejado na cabeça. Escapam detalhes sobre a noite do crime, como a presença da namorada ao seu lado. Também sobre o apartamento recém-alugado, para o qual o casal fazia compras horas antes dos disparos.

— Ele sabe que levou um tiro na cabeça, mas não se lembra de absolutamente nada do dia — disse Mônica. — Ele fala uma palavra, descansa. Ele não consegue falar a frase inteira. Faz bastante esforço para falar, fica com falta de ar, (a fala) é picada. Mas já posso escutar a voz dele.

Há um mês, no dia 4 de setembro, João Pedro e a namorada foram às compras para o apartamento que acabaram de alugar em Chicago. Um casal de amigos, que também se mudara recentemente, os acompanhou. Após passarem a tarde juntos, resolveram sair à noite para celebrar. Primeiro, se reuniram na casa do casal e de lá partiram no mesmo carro, em um grupo de cinco pessoas.

A caminho de um bar, o rapaz que dirigia percebeu que uma moto os seguia. Viu também que o condutor estava armado. A reação foi desviar para despistá-lo. Ali começava uma fuga pelo bairro, até que se depararam com uma dupla em outra moto. Durante a perseguição, o carona disparou oito vezes contra o veículo. Um dos tiros atingiu João Pedro, que imediatamente caiu no colo de sua namorada.

O estudante chegou ao hospital acordado e ciente do que havia acontecido, mas não sentia o lado esquerdo. Ele foi então intubado e levado para a UTI com uma proteção no pescoço. A família foi comunicada na sequência sobre o ocorrido e correu para a unidade.

Os pais de João Pedro autorizaram a implantação de um dreno no cérebro, que não foi suficiente. O estudante precisou ser submetido a uma cirurgia na qual os médicos cortaram parte do osso de sua cabeça para evitar a compressão. Um monitor cerebral e um medidor de pressão arterial foram instalados. E o jovem, colocado em coma induzido.

O brasileiro ainda desenvolveu uma pneumonia durante a internação. Precisou colocar um cateter que espalhasse a medicação de forma mais rápida. Fora da UTI desde a última semana, João Pedro começa a dar pequenos sinais de evolução, embora os médicos preguem cautela. Ainda não se sabe se ele terá sequelas.

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