Mãe adotiva na vida real e na ficção, Regina Casé resume: 'É como botar um plugue no sagrado'

Marcelle Carvalho
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Regina Casé entre o filho Roauqe (à esq) e o neto Brás: amor sagrado

Astrid Fontenelle é apresentadora, assim como Regina Casé, que também dá expediente como atriz. Já Agnes Luciana é fisioterapeuta, enquanto Liliane Mangelli trabalha no funcionalismo público. Apesar de as duas primeiras serem famosas e as outras, anônimas, o ponto de interseção entre elas está no fato de terem gestado seus filhos no coração. Assim como Vitória, personagem de Taís Araujo, que adota Tiago (Pedro Guilherme Rodrigues), em “Amor de mãe”, essas quatro mulheres vivem a experiência da maternidade de uma forma sublime.

 

Quando Regina adotou Roque, então com 5 meses, ela estava com 59 anos e, há 24, já tinha a filha biológica, Benedita (fruto de seu primeiro casamento com o artista plástico Luiz Zerbini). Mesmo assim, a atriz, casada com o diretor Estevão Ciavatta, decidiu começar tudo de novo e, com propriedade, garante que a adoção flerta com o divino.

— Uma mãe por adoção tem um contato direto com o mistério. É como botar um plugue no sagrado, porque num dia eu não conhecia aquela pessoa, no dia seguinte, Roque era igual a Benedita, meu amor era o mesmo. Eu achava que ia ser uma construção, mas amor de mãe é um troço estranho que vem de um lugar maluco — afirma a atriz, de 65 anos, que, ao lado de Tais Araujo e Adriana Esteves, protagoniza a nova trama na pele de Lurdes, mãe adotiva de uma menina.

 

Já Astrid conta que a adoção sempre esteve em seus planos. Então, aos 47, recebeu Gabriel quando o menino tinha apenas 40 dias de vida.

— Costumo dizer que nunca invejei a barriga de ninguém. Mas sonhava com a adoção e pensei algumas vezes, ao longo dos anos, “agora chegou a hora...”. Um dia, a hora explodiu no meu coração e eu fui com tudo — diz Astrid, que, no dia do encontro com o filho, sentiu muitas mudanças, inclusive físicas: — Mudou uma chave em mim, como falar mais baixo e pausadamente, sabendo que eu estava educando e criando uma criança e que ela seria muito do que eu sou. Quando olho agora para Gabriel com 11 anos, percebo que me tornei uma pessoa bem mais educada, centrada e mais reflexiva. A gente conversa muito, a nossa relação é de muita sinceridade e parceria. O meu amor por ele é muito certeiro, intenso, incondicional e crescente.

 

Esse sentimento puro era o que Agnes queria viver. Como não conseguiu engravidar, mesmo com tratamento, a fisioterapeuta e o então marido partiram para a adoção. A princípio, ela queria um bebê, mas foi só quando abriu seu leque para crianças maiores é que surgiram os irmãos Patrick, de 12 anos, e Bernardo, de 6, em sua vida.

— Pela foto, nós nos encantamos com Patrick, na época com 6 anos, quando soubemos que ele tinha um irmão de 1. Fomos, então, buscar os dois em Natal. Eles me fazem mais forte, me dão mais vontade de viver. É o melhor que já aconteceu na minha vida — conta Agnes, de 41 anos.

Se Agnes adotou dois, Liliane tem uma família com três. Felipe, de 15 anos, Walter, de 6, e Emilly, de 3, chegaram para ela e o marido, Fábio, após quatro anos na fila da adoção. E a história...

— Eram seis irmãos no abrigo em Minas Gerais. O juiz separou em dois grupos: o mais velho com os caçulas e os do meio. Quando vimos a foto de Felipe, na época com 13 anos, nos apaixonamos e fomos buscá-lo com Walter, de 4, e Emilly, de 1. Outra moça, Patrícia, adotou os demais. Mas nunca separamos os seis. Como moramos na mesma cidade, vivemos o que chamam de adoção compartilhada.

 Liliane ainda ajudou os cinco primos dos seus filhos, que estavam no mesmo abrigo, a serem adotados.

— O abrigo me ligou perguntando se eu me opunha de os meninos terem contato com os primos biológicos. Disse que não e eles me pediram ajuda para conseguir uma família para eles. E aconteceu: três foram para um lar em São Gonçalo e dois para outro no Engenho Novo. E ainda teve o fato de uma mãe se interessar pela nossa história e adotar uma adolescente do mesmo abrigo, amiguinha deles. Então, em um ano,12 crianças conseguiram suas famílias. E todos, sempre, continuam juntos. É maravilhoso isso, meus filhos são a melhor parte da minha história — declara Liliane.