Mãe de criança autista tem pedido de prioridade ignorado em atração de shopping de luxo na Barra

A bióloga Érika Pacheco de Figueiredo, de 43 anos, esperava ter apenas uma tarde de diversão terapêutica ao lado do filho Gabriel, de 4 anos, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível de suporte 1; da filha Jéssica, de 20 anos, e da terapeuta do menino. Na quarta-feira, os três foram até o Museu Mais Doce do Mundo, instalado no shopping Village Mall, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, como parte de uma atividade externa da terapia ocupacional frequentada menino. A experiência, no entanto, terminou de forma um tanto amarga para a família conforme noticiou Ancelmo Gois, colunista do GLOBO.

— Compramos ingresso antecipado, entramos na fila e ficamos esperando. Um dos motivos do tratamento, inclusive, é fazer com que ele entenda que é preciso aguardar. Não esperamos tanto, mas como estavam entrando grupos pequenos, o Gabriel começou a ficar chateado, deitou no chão começou a reclamar muito. Nesse momento passou uma pessoa do evento e eu comecei a explicar que ele tem autismo, mas ela sequer permitiu que eu terminasse de falar, virou as costas e me deixou falando sozinha — conta Érika.

De acordo com a mãe de Gabriel, uma outra funcionária da atração, que se identificou como coordenadora do evento, passou pouco depois pelo local perguntando se estavam todos “felizes e animados”.

— Respondi que não, expliquei a condição do meu filho e pedi que fosse respeitada a prioridade para ele, que é prevista em Lei. Mais uma vez fui ignorada — lembra a mãe de Gabriel.

A legislação à qual Érika se refere combina o que diz a Lei 12.764/2012 que estabelece que a “pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais” com os preceitos da Lei 10.048/2000 que garante que “as pessoas com deficiência, os idosos com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, as gestantes, as lactantes, as pessoas com crianças de colo e os obesos terão atendimento prioritário”.

Em nota, os organizadores do Museu Mais Doce do Mundo disseram que “a criança citada, quando identificada pela família, recebeu toda prioridade e assistência”.

— Isso não é verdade. As pessoas que estavam na fila até se ofereceram para deixar que a gente passasse na frente, mas isso nada teve a ver com a organização — disse Érika.

Após esperarem por cerca de meia hora, Érika e Gabriel entraram no evento e conseguiram ter os momentos de distração que buscavam. Ao fim da visita ao “museu”, Érika resolveu procurar novamente a pessoa que se apresentou como coordenadora da atração.

— Fui lá e pedi para conversar. Queria explicar o motivo de às vezes a gente ter que pedir prioridade. Procuro fazer isso para conscientizar mesmo, mas ela começou a se justificar, dizendo que eu estava arrumando problema. A partir daí houve um bate-boca. E o pior foi quando ela disse que não podia passar seu filho na frente porque isso causaria um constrangimento, pois as pessoas iriam saber o que ele tem... Ela tocou num ponto muito sensível, porque constrangimento é quando a pessoa tem vergonha de algo. Não tenho vergonha do meu filho, as pessoas precisam entender de uma vez por todas que não é vergonha nenhuma ter uma deficiência ou um transtorno — desabafou Érika.

Leia abaixo a íntegra da nota divulgada pelos organizadores do Museu Mais Doce do Mundo:

“A organização do Museu Mais Doce do Mundo lamenta o fato narrado pela cliente e esclarece que desde a abertura o Museu está devidamente preparado e vem recebendo adequadamente pessoas com qualquer tipo de necessidade especial, inclusive o público com transtorno do espectro autista. Toda a equipe está treinada e capacitada para atender com excelência seus visitantes para que a experiência seja vivida da melhor forma por todos.

Sobre o ocorrido, o Museu esclarece que a criança citada, quando identificada pela família, recebeu toda prioridade e assistência.”