Mãe denuncia caso de transfobia contra filha adolescente no Samba do Trabalhador

A mãe de uma adolescente trans denunciou nas redes sociais um caso de transfobia sofrido durante o Samba do Trabalhador, realizado na última segunda-feira à noite no Renascença Clube, no Andaraí, na Zona Norte do Rio. Segundo o relato, a família, que é da Baixada Fluminense e atualmente vive em Florianópolis, em Santa Catarina, esteve na primeira edição do evento no ano, quando um grupo próximo começou a fazer "gestos obscenos e 'arminhas' com as mãos", além de falar xingamentos e ofensas transfóbicas. Em uma mensagem endereçada à diretoria do clube e aos organizadores, a mulher relata as agressões sofridas. O Renascença publicou uma nota de repúdio no fim da noite de quarta-feira e o músico e compositor Moacyr Luz, à frente da roda de samba, disse lamentar profundamente o ocorrido e destaca que o samba é um lugar de acolhimento.

No texto em que relata o ocorrido, a mãe da jovem conta que um dos homens registrou imagens da adolescente e que foram feitos "diversos comentários vulgares e de forte cunho sexual".

"Tivemos o desprazer de passar por um momento super constrangedor. Estávamos em família em clima de comemoração quando um grupo de pessoas à nossa frente começou a fazer gestos obscenos e 'arminhas' com as mãos. Não bastassem os palavrões, a atitude agressiva e desrespeitosa, um dos homens desse grupo registrou imagens de nossa filha ao fundo. Eles fizeram diversos comentários vulgares e de forte cunho sexual, o que nos gerou grande constrangimento. Nossa filha é uma adolescente trans que estava com sua família em um ambiente de lazer que deveria ser um espaço seguro", escreveu a mãe da jovem em publicação nas redes sociais.

O relato continua, e a mulher conta que a família frequenta o clube há anos e que nunca passou por situação semelhante. Ela conta que a maior preocupação diante da situação foi tirar a adolescente em segurança do local. Ela pediu um posicionamento do clube e dos organizadores do evento sobre o caso, e destacou que é possível discordar, uma vez que haja respeito às demais pessoas.

"Frequentamos esse espaço há anos e nunca vivemos algo parecido. Nossa prioridade foi tirar minha filha do ambiente o mais rápido possível e em segurança, já que as pessoas que proferiram as ofensas transfóbicas estavam visivelmente embriagadas e com postura agressiva. Sou mãe de uma jovem mulher negra trans. Proteger a vida da minha filha é minha prioridade. Venho por meio deste texto pedir que a diretoria do Renascença Clube e os responsáveis pela roda de samba se pronunciem com muito rigor contra a violência que sofremos. Ninguém deveria passar por este tipo de constrangimento. Entendo que o espaço é aberto ao público e que as pessoas têm o direito de divergir, mas lembramos que o exercício da liberdade requer responsabilidade. Por isso exigimos respeito que é o mínimo que seres humanos devem ter pelo outro", concluiu.

O músico e compositor Moacyr Luz, à frente do Samba do Trabalhador, disse ter tomado conhecimento do caso no fim da manhã desta quinta-feira. Ele se apresentava com a roda de samba no evento, como é feito toda semana, e disse não ter notado nenhum tumulto nem desentendimento em meio ao público. Além de também repudiar o ocorrido, ele destacou que o local é um espaço de combate a preconceitos:

— É óbvio que lamento profundamente pelo o que aconteceu. Não é de hoje que o Samba do Trabalhador luta contra preconceito, homofobia e bolsonarismo. Estamos passando por uma fase de fim de ano onde a casa cresceu muito de público, pessoas que foram pela primeira vez. Não tem como identificar uma pessoa dessas. Não sei se a família deixou para falar depois, como foi — diz Moacyr.

O músico destaca que o ambiente durante o evento é sempre de acolhimento e de agregar, postura contrária à adotada de como agia o grupo denunciado pela mãe da jovem na publicação. Ele vê determinadas atitudes como reflexo de um momento político pelo qual o país passou.

— Dia 2 foi um dia de um novo ano, de uma nova esperança, e ainda tem muita pedra para tirar do caminho. A gente está tomando todo tipo de cuidado. O lugar fica cheio, as pessoas te abraçam, cedem espaço, não há nenhuma segregação. Eu tenho fé que tenha sido uma coisa isolada, e que com o alerta que tenha sido dado, fique mais claro o nosso posicionamento e essas pessoas não fiquem — disse Moacyr Luz, na expectativa de ter sido um caso isolado. — Eu espero que não se repita nunca em samba nenhum, em teatro nenhum, em cinema nenhum. Quero que seja algo que deixe de existir no mundo.

Por meio de nota, o Renascença Clube disse, no fim da noite de quarta-feira, não ser possível identificar os responsáveis envolvidos no caso e destacou repudiar "quaisquer formas de discriminação", salientando ser necessário combater os diversos tipos de preconceito.

"O Renascença Clube manifesta repúdio a quaisquer formas de discriminação que levaram e levam ao exercício de poder sobre as pessoas por conta da cor da sua pele, religião, orientação sexual, dentre outras. Como parte da sociedade somos diferentes e nessa característica reside a nossa força, beleza e possibilidades de criação e recriação! É fundamental que se desmistifique noções preconceituosas como a transfobia, o sexismo, o racismo e qualquer tipo de opressão. Acreditamos que é, ainda, dever ético de todos reconhecer a diversidade do gênero humano. Infelizmente, não temos como detectar àqueles que, em sua ignorância, praticaram atos indefensáveis", diz trecho do comunicado.

O clube ainda lembra que transfobia é crime e se enquadram na Lei 7.716/89, a Lei do Racismo, desde junho de 2019. A pena prevista é a mesma de ofensa por questões de raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: reclusão de um a três anos e multa.

"Eles não sabem que, em decisão do STF, a transfobia foi reconhecida como uma forma de racismo, devendo ser observada nos moldes da Lei 7.716/89, que pune atos de discriminação e preconceito motivados pela inferiorização de uma determinada parcela da população em relação à outra. Desde 2018, pessoas trans tiveram suas identidades de gênero reconhecidas como uma expressão de sua humanidade, devendo ser respeitadas em sua integralidade sendo-lhes garantidos todos os direitos destinados a qualquer cidadão comum sem nenhum tipo de discriminação conforme Constituição Federal, que rege o Estado Democrático de Direito".

"Uma vez mais nos solidarizamos com àqueles que são ofendidos, afirmando que é inadmissível que espaços, como o nosso, de atuação cultural, sejam palco de violências contra as identidades de gênero. Lutamos para que possamos viver em uma sociedade livre de preconceitos e discriminações", segue a nota.