Mãe diz que PM relutou em socorrer menina baleada em Niterói porque não queria sujar a farda

Ana Carolina Torres e Carolina Heringer
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RIO — Atingida por dois tiros de fuzil na terça-feira, Ana Clara Machado, de 5 anos, foi enterrada ontem em Niterói, poucas horas após um cabo da PM ser preso sob a suspeita de ter atirado na menina. Revoltada, a mãe, Cristiane Gomes, disse que o policial relutou em prestar socorro à criança:

— Ela morreu no meu colo, dentro de uma viatura da polícia. Quando chegou ao hospital, seu coração não batia mais. Isso porque o policial ficou pensando se ia pegá-la ou não. Ana Clara caída, baleada no chão e eu gritando “pega minha filha, salva minha filha”, enquanto ele não sabia o que fazer. Até que teve uma hora que o PM a pegou e saiu com ela pendurada para não encostar na farda. Era para não sujar o uniforme de sangue.

Apesar do ritmo acelerado da investigação do caso, cobranças por justiça deram o tom do enterro de Ana Clara, já que parentes e amigos temem um desfecho com a marca da impunidade.

— Vou voltar para casa sem a minha filha e, alguma hora, esse policial vai para a dele. Encontrará os filhos e, depois, verá os netos. Eu perdi esse direito — disse, revoltada, Cristiane Gomes, enquanto segurava uma boneca de Ana Clara. — Estava com ela (na hora em que foi baleada), é o sangue da Ana Clara (no brinquedo). Minha filha tinha acabado de acordar. Acordou, foi até a porta, viu a luz do dia e tomou um tiro. Agora, voltou a dormir, mas eternamente.

Durante o enterro, parentes e amigos exibiram faixas e cartazes. “Nossas crianças não são bandidos” e “Quando uma mãe chora, todas choramos” eram alguns dos dizeres. Lençóis manchados de tinta vermelha, numa alusão a sangue, também foram levados à cerimônia. Depois do sepultamento, houve, pelo segundo dia consecutivo, um protesto no Largo da Batalha contra a violência policial.

A morte de Ana Clara é apurada pela Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo. O cabo da PM foi preso logo após prestar depoimento: de acordo com a Polícia Civil, ele caiu em contradição ao falar sobre uma incursão à comunidade do Monan Pequeno, em Pendotiba, onde a menina morava. Sem divulgar o nome do acusado ou dar outros detalhes sobre a investigação, agentes informaram que uma perícia no local da tragédia e declarações de testemunhas evidenciaram incoerências no relato do policial.

O cabo foi levado para o o Batalhão Especial Prisional (BEP), também em Niterói, e sua arma está apreendida para a realização de um exame de balística. Ele disse que atirou para reagir a um ataque de traficantes, porém a mãe de Ana Clara afirmou que não houve confronto. Além disso, ela garantiu ter um ouvido um PM ter dito para o colega “você fez besteira”, em referência à morte de Ana Clara.