Mãe de técnica de enfermagem morta com suspeita de Covid-19 diz que hospital virou as costas à filha

Marcos Nunes
Maria Beatriz (E), mãe de Daniele, usou uma máscara de proteção com a imagem da filha

MESQUITA — A técnica de enfermagem Daniele Costa, de 41 anos, que uma semana antes de morrer com sintomas de coronavírus fez uma transmissão ao vivo com um apelo pelo isolamento social, foi enterrada nesta quarta-feira, no Cemitério Jardim da Saudade, em Edson Passos, no município de Mesquita, na Baixada Fluminense. Acompanhada presencialmente por um pequeno grupo de parentes e amigos, a cerimônia foi transmitida por uma rede social, para que todos pudessem se despedir virtualmente da funcionária da área da saúde.

Durante o sepultamento, Maria Beatriz Costa, mãe de Daniele, se emocionou e lembrou que a filha não teve o tratamento adequado para Covid-19 quando buscou socorro no Hospital Geral de Nova Iguaçu. A própria técnica de enfermagem chegou a postar um vídeo, uma semana antes de morrer, onde reclamava do atendimento de um médico que, segundo ela, mandou que ela voltasse para casa sem receitar nenhum medicamento.

— Filha, tanta gente você ajudou. E na hora que você precisou de ajuda, o hospital da sua cidade virou as costas. Pai, abraça minha filha e nos conforte — disse chorando, num trecho do vídeo.

Uma das colegas de Daniele, que compareceu ao enterro, disse que a técnica de enfermagem não recebeu a assistência que costumava dar para os pacientes que atendia.

— No último momento da vida dela, ela não teve o que sempre deu. Que foi amor, carinho e a melhor assistência — disse a amiga.

Daniela foi sepultada sob aplausos e ao som de uma sirene. Ela trabalhava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Austin, em Nova Iguaçu. A técnica de enfermagem começou a sentir os sintomas da doença no dia 14 de abril último. Dois dias depois, procurou o Hospital Geral de Nova Iguaçu.

Máscaras em homenagem

Em um vídeo postado nas redes sociais, ela diz que o primeiro médico que a recebeu estava há pelo menos 12 horas sozinho no plantão e sem se alimentar. Em seguida, ela fala que após realizar uma tomografia computadoriza, foi atendida por um outro médico, que segundo ela, nem a olhou nos olhos e em seguida a liberou.

Em homenagem à profissional, familiares e amigos utilizaram máscaras de proteção que tinham o rosto de Daniele, além de camisetas com uma imagem da técnica de enfermagem.

Morte em Volta Redonda

Daniele morreu nesta segunda-feira, no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda, onde foi internada no Centro de Tratamento Intensivo. Procurada pelo EXTRA, a Prefeitura de Nova Iguaçu, que administra o Hospital Geral de Nova Iguaçu, disse que Daniela foi atendida no local e que, no momento em que os exames foram feitos, não havia necessidade de internação. Abaixo, a íntegra da nota enviada pela assessoria do município.

"A paciente Daniele Costa, de 41 anos, foi atendida no Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI) em 16 de abril, com sintomas de síndrome gripal. Foi acolhida pela equipe médica e de enfermagem e fez todos os procedimentos recomendados: mensuração à oximetria, com 98% de saturação do oxigênio no sangue, e tomografia sugestiva à Covid-19. Esses resultados mostraram que, naquele momento, não havia necessidade de internação. Equipes do hospital orientaram Daniela a manter o isolamento domiciliar, conforme diretriz do Ministério da Saúde.

Vale ressaltar que o HGNI é um hospital de trauma e adequou seus leitos para receber paciente com a suspeita ou confirmação da Covid-19, enquanto os hospitais de campanha e modular, de responsabilidade do Estado, estão sendo construídos. Na manhã desta quarta-feira (29), a unidade contava com 68 pessoas internados, sendo 30% de pacientes de outros municípios. Além disso, o Hospital da Posse mantém a rotina de atendimento de urgência e emergência, recebendo pessoas baleadas, esfaqueadas, acidentadas e casos clínicos graves".