Mães fazem apelo e usam brinquedos para lembrar de três crianças desaparecidas na Baixada Fluminense

Marcos Nunes
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Foto: Marcos Nunes/Agência O Globo

É na hora de dormir que a dor é mais forte nos corações de três mães da Baixada Fluminense. Camila Paes da Silva, de 29 anos, a irmã Rana Jéssica da Silva e Tatiana da Conceição, ambas de 31 anos, não conseguem mais olhar as camas vazias onde os filhos Lucas Manhães Silva, de 8, Alexandre da Silva, de 10, e Fernando Henrique Soares, de 11, costumavam dormir. Os três meninos estão desaparecidos desde 27 de dezembro, após sair de uma quadra de um condomínio do Morro do Castelar, em Belford Roxo.

Nesta terça-feira, as três mulheres e a dona de casa Silvia Regina,de 58, avó de dois dos três desaparecidos, se juntaram para fazer um apelo dramático. Segurando os brinquedos que os três meninos mais gostavam de passar o tempo, uma pipa com um rolo de linha e uma bola, elas pediram notícias das crianças e esperam que a polícia descubra o que aconteceu com os meninos.

—Está sendo muito difícil. A hora de dormir é a pior . O Lucas dormia com uma irmã de 7 no quarto, e todo o dia, às 6h, ele acordava para ir deitar ao meu lado, no outro quarto. Agora, quando acordo não vejo mais meu filho lá. A irmã, de 4, não para de perguntar por ele. Só queremos uma notícia. Não queremos que o caso seja esquecido — disse Camila Silva, mãe de Lucas, acrescentando que tem esperanças de reencontrar o filho com vida.

Nesta quarta-feira, quando se completa um mês do triplo desaparecimento, o Rio de Paz vai colocar três placas com fotos dos meninos e informações sobre o caso , na instalação permanente da Ong, na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio. Elas estarão ao lado de placas com nomes de crianças mortas por balas perdidas no Rio de Janeiro .

—Três meninos pobres desaparecidos. Por que o Rio de Janeiro inteiro não os está procurando? Viveremos numa cidade cujas relações humanas sejam tão belas quanto a sua geografia no dia em que a vida dessas crianças for levada a sério pela sociedade e poder público — disse Antonio Carlos Costa, presidente do Rio de Paz.

O desaparecimento das três crianças é investigado pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense(DHBF). Na última sexta-feira, as mães das crianças cederam material genético para o laboratório da Polícia Civil , a fim de que um exame de DNA fosse feito em roupas sujas de sangue, encontradas numa casa no Morro do Castelar. O objetivo da análise , que ainda não foi concluída, é o de esclarecer se o sangue é ou não de algum dos meninos sumidos.

O secretário de Polícia Civil, delegado Allan Turnowski já havia adiantado que a DHBF tem como principal linha de investigação a participação do tráfico do Morro do Castelar no triplo desaparecimento. Durante as investigações, um homem chegou a ser capturado por traficantes, na madrugada do dia 12 de janeiro , e foi entregue à 54ª(Belford Roxo) por moradores.

Ele estava com um celular, onde estavam armazenadas imagens de duas crianças em cenas pornográficas. Na ocasião, houve um um protesto e um grupo de pessoas ateou fogo em um ônibus, a menos de 200 metros da DHBF. A especializada investigou o caso e já descartou que ele tenha participado do desaparecimento dos três meninos.

Tatiana da Conceição, Rana Jéssica Silva e Camila Paes Silva, fizeram questão de deixar preservado o ambiente em que os meninos costumavam dormir e as roupas que eles usavam antes de desaparecer. Para Tatiana, a angústia de não saber o que aconteceu com o filho é o maior problema.

—Meu filho dormia comigo no quarto. Tudo dele está guardado, roupa,sapato e o colchão usado por ele. Olhar isso tudo me dá uma tristeza danada. Não ter uma notícia me dá muita angústia.Até agora não sei se meu filho está vivo ou morto. Isso é cruel. Ele não ia sumir sem mais nem menos—- disse Tatiana.

Rana Jéssica também fez questão de guardar tudo o que o filho usava. Ela conta que Alexandre já tinha até escolhido a roupa que iria usar no ano novo.

—-Ele já tinha escolhido a roupa. Era um short que eu havia comprado para ele usar. As roupas dele estão guardadas. Está tudo lá em casa . Não gosto nem de olhar porque dá vontade de chorar — disse.

Avó de Alexandre e de Lucas, Silvia Regina afastou a hipótese de que as crianças tenham sumido por vontade própria.

—Queremos saber dos meninos. Eles nunca haviam dormido fora de casa. Somos muito família. Com certeza, eles não sumiram por vontade própria— concluiu.