Mães tentam driblar a saudade com a certeza de que o sacrifício da quarentena é necessário

Mariana Teixeira
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Leila Falcone está em casa, no Humaitá, sozinha desde o dia 17 de março

RIO — Isolamento social não combina com Dia das Mães. Devido à quarentena, amanhã os abraços serão substituídos por videochamadas e telefonemas, o almoço será menos farto e grande parte das reuniões em família terá que esperar. Mas é também no isolamento que o ditado “Mãe é mãe” se explica, pelas atitudes: elas sabem que o sacrifício é necessário e representa uma demonstração de amor e cuidado.

Leila Falcone, de 71 anos, tem duas filhas e três netos. Ela mora sozinha no Humaitá, mas estava sempre com eles nos fins de semana, pois tinham o costume de almoçar juntos e sair para passear. Desde o dia 17 de março, Leila está em isolamento social e não encontrou mais ninguém. Sobraram as fotos para matar a saudade.

— Está sendo muito difícil me privar do convívio, especialmente da minha neta mais nova, dos abraços e do carinho. Costumávamos conversar muito, ela me conta tudo e eu sinto muita falta disso. Nós nos falamos duas vezes por dia no telefone e, assim, consigo perceber se ela está bem — conta.

Mesmo acostumada a estar sozinha, emocionada, Leila diz que a neta Carolina, de 7 anos, faz a situação ficar mais leve para ela. Por isso, acredita que este domingo possa ser especial.

— Quando a gente ama uma pessoa, ela nunca está longe, eu me sinto sempre acompanhada. Vou falar com a minha família, vou vê-los pelo vídeo e quero me sentir bem ao saber que estão todos bem e que eu cumpri minha missão — explica.

Para ela, de toda esta experiência, o legado maior será o da compreensão e da solidariedade.

Assim como Leila, Maria José de Campos, de 66 anos, passará o Dia das Mães de forma diferente. Acostumada a se reunir com as três filhas, a tia, a irmã e sobrinhos para um tradicional almoço, desta vez ela estará apenas com a filha mais nova, que mora com ela. A mais velha, que vive em Viena há um ano, já está acostumada às videochamadas. Por isso, a maior ausência deste ano será a da filha Viviane, que mora no Flamengo e não se encontra com os pais desde o início de março — elas tinham o hábito de se reunirem nos fins de semana para almoçar, assistir a filmes e conversar. Diferentemente de Leila, Maria José acha que o Dia das Mães será de poucas alegrias.

—Este será o segundo Dia das Mães sem minha filha mais velha. E se ano passado eu fiquei triste, eu era feliz e não sabia, porque agora eu vou ficar também sem a Viviane, sem a minha irmã, sem meus sobrinhos. Vai ser muito difícil para mim, mas vou procurar não me lamentar, pois ano que vem vai ser muito melhor — espera.

Para Grace Falcão, psicóloga especialista em orientação familiar, o caminho para fugir do sentimento de solidão é a positividade. Ela também passará o domngo longe de seus dois filhos.

— Nosso cérebro sempre tende a pensar o pior das situações. E esse pensamento negativo vira uma onda de sensações ruins no nosso corpo e na nossa mente, que leva a um sentimento de desesperança e ansiedade diante o futuro. Sim, estamos sozinhas e longe dos nossos filhos, mas tem felicidade maior para uma mãe do que saber que seus filhos estão seguros e com saúde? Temos que pensar que esta não é uma situação eterna e que vai passar— explica.

Outra dica de Grace é ocupar a mente e o corpo com atividades que façam bem, que façam a pessoa se sentir produtiva e feliz.

— Gosta de costurar, ler ou cozinhar? Então faça mais isso nesta quarentena! Crie um grupo de amigos para encurtar a distância física— aconselha.

Isolamento como forma de proteção: profissionais da saúde optam por ficar longe da família

Dentro dos hospitais, o combate ao novo coronavírus é um esforço diário que ultrapassa o limite daquele ambiente e muda o cotidiano de todos os profissionais de saúde e funcionários. Neste cenário, muitas mães optaram por se isolar das famílias.

Roberta Martins é médica da emergência do hospital Copa D’Or, em Copacabana, e tem uma filha de 1 ano e meio, Luiza. Ela conta que decidiu se isolar em casa e mandar o marido e a filha para o apartamento de seus pais. Há 25 dias sozinha, Roberta teve a doença, se recuperou, mas não se sente completamente confortável para estar em contato com eles — ainda não está comprovado se é possível contrair a doença mais de uma vez.

A solução é ligar todos os dias e recorrer ao vídeo para ver a filha brincar.

— Eu sinto muita falta de pequenos gestos, de botá-la para dormir, por exemplo. É muito difícil perder este dia a dia. Eu acho que esta situação veio para provar que nós, mulheres médicas, temos decisões difíceis tanto no trabalho quanto em casa. Precisamos ser um suporte e pensar no próximo. A decisão de ficar longe me deixou mais segura — explica.

Assim como Roberta, Alessandra Thompson concorda que escolher manter distância foi fundamental para a concentração no trabalho e na nova rotina tensa. Alessandra é mãe de Mila, de 5 anos, e médica da unidade ventilatória do Copa D’Or.

— A minha unidade foi a primeira a tratar casos de Covid-19, bem no início, e a partir dali eu mandei minha filha para a casa da minha irmã. Ela passou três semanas lá. O que me motivou foi o medo de contrair a doença e passar para ela e para o meu marido, porque o vírus atinge todo mundo. O mais difícil foi ela se acostumar a dormir longe de mim. Para amenizar a situação, eu mandava um vídeo de manhã, depois um do hospital, já paramentada com o Equipamento de Proteção Individual (EPI), e ligava à noite — conta.

Para Alessandra, esta é a hora de se aproximar, mesmo estando longe. A médica brinca dizendo que a filha aproveitou que elas estavam se falando por meio da tecnologia para pedir de presente um tablet.

— Disse para ela que não, agora é que a gente vai brincar junto. O tablet vai ficar para depois, precisamos estreitar laços— diz.

Neste Dia das Mães, a situação será diferente para ela também como filha. A mãe de Alessandra está totalmente isolada, e elas não têm previsão de quando poderão se ver.

— Vai ser um domingo bem pesado para mim, vou estar passando visita e vai ser difícil para a minha mãe — comenta.

A situação de Ana Paula Vieira, enfermeira supervisora da unidade ventilatória do Copa D’Or, é um pouco diferente, visto que ela é mãe de Arthur, de 10 anos, e de Carlos Henrique, de 17. Por serem mais velhos, os dois entendem melhor o que está acontecendo, mas nem sempre isso é suficiente para compensar a saudade. Ana Paula já está há 40 dias longe dos filhos.

— Eles ficam com minha mãe, e eu só passo na janela e dou um tchau. Eu vejo os olhos do Arthur se encherem de lágrimas, quase implorando um abraço. Você negar um abraço para o seu filho é de cortar o coração. O que me dá força é que eu vejo que isso é temporário, e é um sacrifício que a minha condição exige. É meu papel de mãe. No domingo eu vou estar de folga e pretendo fazer uma videochamada com eles para não me sentir tão longe — explica Ana Paula.

Amanda Oliveira, técnica de enfermagem do Hospital São Lucas, em Copacabana, precisou sair de casa e está hospedada em um hotel para se manter isolada. Amanda tem um filho, Kaike Rafael, de 7 anos, e eles estão sem contato físico desde 12 de março.

— Ficar longe dele dói demais. Às vezes chega o momento de exaustão, quando as lágrimas são difíceis de controlar, mas sei que cada dia longe é um dia a mais em que o protejo. Este momento mostrará que um “eu te amo” precisa ser dito, que é preciso demonstrar cuidado e carinho com o próximo — afirma ela.

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