Média móvel de novas internações por Covid em SP sobe 74% em 3 semanas

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 01.02.2022 - Área de atendimento para pacientes com sintomas de Covid-19 no Hospital Infantil Sabará, em SP. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 01.02.2022 - Área de atendimento para pacientes com sintomas de Covid-19 no Hospital Infantil Sabará, em SP. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dados da plataforma SP Covid-19 Info Tracker, criada por pesquisadores da USP e da Unesp com apoio da Fapesp para acompanhar a evolução da pandemia, mostram que a média móvel de novas internações (UTI e enfermaria) aumentou 74% no estado de São Paulo em três semanas. Foram comparados os dias 6 e 27 de maio, quando as médias alcançaram 176 e 306, respectivamente.

O índice é o reflexo do aumento de casos registrados nos últimos dias. Nas semanas anteriores -dias 13 e 20 do mesmo mês-, as médias móveis registradas foram de 191 e 238, respectivamente.

Em relação ao percentual de ocupação de leitos de UTI e enfermaria observado no mesmo período, o incremento também foi de 74%.

No dia 27 de maio, 2.276 pacientes estavam hospitalizados com suspeita ou confirmação de Covid-19 no estado, contra 1.307 no dia 6. Em 20 de maio, as internações somaram 1.713 e, sete dias antes, 1.466.

"Os dados indicam a formação de uma nova onda de Covid, menos letal mas ainda muito agressiva com relação à velocidade dos novos contágios. Nas últimas semanas, houve incremento de 74% nas internações por Covid no estado, além da extrapolação do teto da taxa de transmissão no mesmo período, levando a um aumento desenfreado de novos infectados pela doença", afirma Wallace Casaca, coordenador da plataforma.

"Como agentes geradores deste avanço, figuram o abandono de medidas sanitárias básicas, como uso de máscaras, a perda da imunidade natural e vacinal ao longo dos últimos quatro meses, estagnação da aplicação das doses de reforço e o avanço de novas sublinhagens da ômicron, mais transmissíveis e propensas a escape. É necessário redobrar os cuidados, inclusive aqueles que adquiriram a doença no início do ano".

Na capital paulista, a média móvel de novas internações (considerando UTI e enfermaria) subiu de 72, no dia 6 de maio, para 122 -um salto de 69% em 21 dias. Nas comparações entre 27 de maio com sete e 14 dias anteriores, os aumentos foram da ordem de 37% e 58%, respectivamente.

A alta também se manteve no número de internados. Em 27 de maio, 959 pacientes ocupavam leitos de UTI ou enfermaria na cidade. Três semanas antes, esse número era 57% menor -610.

De acordo com o boletim da Secretaria Estadual da Saúde, entre os dias 6 e 27 de maio, o estado registrou 75.412 novos casos de Covid e 853 mortes. Na cidade de São Paulo, foram 27.424 infectados e 189 óbitos.

No dia 27 de maio, a taxa de transmissão (Rt) de Covid-19 no estado de São Paulo estava em 1,33, ou seja, 100 contaminados podiam disseminar a doença para outras novas 133 pessoas saúdáveis, aumentando a cadeia de transmissão de forma progressiva. Na mesma data, a capital paulista estava com Rt (ritmo de contágio) de 1,28.

No início do mês, em 6 de maio, o Rt estava em 0,96 no estado e 0,86 na cidade de São Paulo. Este índice deve permanecer abaixo de 1 para que o número de casos retroceda.

Para Marcia Castro, cientista, professora de demografia da Faculdade de Saúde Pública de Harvard, membro do Observatório Covid-19 BR e colunista da Folha, é difícil dizer se será uma nova onda, mas o cenário preocupa.

"Com as temperaturas mais frias, as pessoas passando mais tempo em ambientes fechados, com um sentimento de que a pandemia já passou, sem uma campanha em massa conscientizando a população e com a estagnação da cobertura vacinal, esse aumento preocupa", diz a cientista.

"Dados de outros países mostram que pessoas que já tiveram Covid-19 podem ser reinfectadas, mesmo que vacinadas. Ainda que os sintomas possam ser brandos, há o risco de infectar outras pessoas, e há o risco da Covid longa [permanência de sintomas após a infecção]. Portanto, o cuidado com uso de máscaras de boa qualidade em ambientes fechados deveria ser a norma e não a exceção", completa.

Nova onda? Na avaliação de Julio Croda, infectologista, pesquisador da Fiocruz e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, houve um aumento substancial de casos nos últimos dias e já é possível avistar o início de uma nova onda não só em São Paulo, mas em todo o país.

"A questão é: qual será a magnitude dessa onda? Estamos entrando nesse cenário porque é um momento de vírus respiratórios. Não é só coronavírus, mas temos uma distribuição elevada de outros vírus. O sincicial respiratório em crianças abaixo de quatro anos está estourado. Em adultos o rinovírus, influenza, o metapneumovírus", aponta o pesquisador.

"Se você fizer uma pesquisa ao seu redor, verá que tem pelo menos uma pessoa que positivou Covid ou está com sintomas gripais", afirma.

"Em relação à hospitalização, houve um aumento, mas é preciso observar mais algumas semanas. No Brasil o impacto não é tão grande em termos de hospitalização e leitos de UTI e de enfermaria. Talvez, o impacto dessa onda seja bem menor em termos de hospitalização e óbitos, porque a ômicron já teve uma onda importante e o que está circulando agora é a [subvariante] BA.2", diz Croda.

De acordo com o especialista, uma alta cobertura vacinal --principalmente a terceira dose até 50 anos, que está baixa-- e a aplicação quarta dose aos idosos, que patina, são importantes para garantir um menor impacto em termos de internações e mortes.

O especialista recomenda o uso de máscara e distanciamento físico a quem precisar ir a eventos com aglomeração, principalmente pessoas que pertencem a grupos de risco.

"É esperado que cada vez mais a Covid-19 permaneça como doença endêmica, em períodos sazonais, mas com gravidade e letalidade cada vez menor", diz Croda.

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