Médica, advogada, estilista... Conheça a história de cinco indígenas que são destaque em especial da Globo

Isabella Cardoso
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Antes de os portugueses chegarem aqui, e a história do Brasil que estudamos na escola começar, os indígenas já povoavam nossa terra. De lá para cá, os habitantes nativos do país continuam na luta por seus direitos e pela preservação de suas nações e culturas. Na próxima segunda-feira, dia 19 de abril, data celebrada nacionalmente como Dia do Índio, a TV Globo exibe o especial “Falas da terra”, após o “Big Brother Brasil 21”. O programa mostrará depoimentos de 21 pessoas, suas histórias de vida e de luta, e as várias formas de ser indígena.

Entre as nações existentes no Brasil, há mais de 300 povos, que falam aproximadamente 200 línguas, com milhares de pessoas com suas particularidades. O especial pretende dar voz a algumas delas e mostrar que ser indígena pode ser uma realidade bem distante daquele estereótipo difundido erroneamente até hoje. Seja morando perto da natureza ou nos centros urbanos, eles também são educadores, advogados, estilistas, biólogos, médicos, entre outras profissões.

O doutor em Educação Daniel Munduruku, a mestre em Direito Fernanda Kaingang, a estilista Dayana Molina, a bióloga Emerson Uyrá e a médica Myrian Krexu, que participam do programa, contam aqui como resistência e luta são pontos em comum em suas vidas. Eles acreditam na educação como ferramenta de transformação e criticam a forma como a data é tratada.

— Não representa um dia para se receber parabéns. Muito menos deve ser chamado como “Dia do Índio”, como se fôssemos um único povo, sem respeitar a diversidade. Não é dia de fantasiar crianças com cocares nas escolas. Não temos motivos para comemorações enquanto o sangue indígena é derramado e territórios seguem sem demarcação — resume Myrian.

Doutor e vencedor do Jabuti

Vencedor do prêmio Jabuti e do Prêmio de Literatura pela Unesco, Daniel Munduruku, de 57 anos, é doutor em Educação e acredita que a divulgação da cultura indígena deve começar pelos professores. Para o escritor, o primeiro passo é aceitar que a ancestralidade brasileira é indígena.

“Trata-se de reeducar a nossa gente para que sinta orgulho de sua identidade e assuma sua diversidade cultural”, diz Daniel, que critica a palavra “índio”: “Costumam nos chamar de preguiçosos, selvagens, atrasados, inúteis. Todos esses adjetivos estão dentro da palavra ‘índio’. É necessário criar consciência do que os indígenas são de verdade. Só é possível se abandonarmos o uso dessa palavra”.

Pioneira em Direito no Sul

Mestre em Direito Público, Fernanda Kaingang, de 42 anos, é a primeira advogada indígena do Sul do Brasil e do povo Kaingang. Ela e sua irmã decidiram seguir a profissão após um conselho da mãe, que afirmou ser importante ter profissionais da área naquele povo. Mas Fernanda ouviu comentários preconceituosos em sua trajetória.

“Fui a primeira indígena que passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e virei piada: ‘Temos que ser aprovados porque até a índia passou’”, lembra ela, que decidiu ser a melhor aluna da turma: “Precisava colocar quem se achava melhor porque tem origem europeia em seu lugar. O indígena pode ser quem ele quiser, sem deixar de ser Kaingang”.

Dayana Molina, referência na moda

Dona da marca de moda Nalimo, Dayana, de 32 anos, é estilista e, em seu trabalho, defende as bandeiras da preservação do meio ambiente e da sustentabilidade aliadas a uma estética minimalista.

“Não dá para fazer moda no Brasil e ser eurocêntrico, pautar beleza baseada num padrão que não é representativo para a maior parte das pessoas. Meu trabalho é uma ferramenta na quebra de preconceitos e estereótipos. Descolonizo a moda quando entendo que precisamos criar novas referências estéticas”, explica ela, que não considera o dia 19 de abril uma data especial: “Não se pode falar de homenagem em uma data e massacrar a vida de pessoas indígenas nos outros dias do ano. Precisamos de respeito e garantia dos direitos humanos”.

Bióloga é uma árvore que anda

Bióloga e artista, Emerson Uyrá se apresenta como “árvore que anda”. Uyrá compartilha seu conhecimento em aulas de artes e biologia, performances, maquiagens, textos e instalações.

“Pela ciência, as árvores são criaturas paradas, mas não é assim o mundo vivo. O pensamento colonial formou a mentalidade do Brasil como se indígenas e árvores estivessem estagnados, isolados num canto”, diz a artista de 30 anos, que afirma que a intolerância contra a população LGBT também é resultado do processo colonial: “São muitos os registros de que, na pré-invasão por portugueses, pessoas LGBT recebiam mais respeito e acolhimento da maioria dos povos, como atribuição de papéis sagrados e de grande importância na vida em aldeia” .

Primeira cirurgiã cardiovascular

Aos 4 anos, Myrian Krexu, agora com 32, quebrou o braço e precisou ir ao hospital. Ao conhecer o trabalho do médico que a atendeu, a pequena, da nação Guarani Mbyá, escolheu sua profissão. Formada em 2013, ela é a primeira cirurgiã cardiovascular indígena do Brasil.

“Cuidar é uma habilidade ancestral, e muitas curas que a ciência desenvolveu procedem da observação da natureza feita por indígenas”, explica Myrian. A médica defende a desmistificação dos indígenas por meio da educação: “Ainda somos vistos como seres místicos e folclóricos ou com uma única maneira de ser e parecer. Os indígenas devem ter a oportunidade de escrever sua história, pois os livros sempre foram escritos por não-indígenas e na visão colonizadora”.