Médica de bonecas mostra que há vida além do lixo para os brinquedos

Geraldo Ribeiro
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Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo

Suelen

Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo

Suelen, de 62 anos, que na certidão de nascimento ostenta o nome Sueli da Silva, é uma médica diferente. Não cursou medicina e muito menos tem diploma. Mas também não precisa. Bastam os títulos pelos quais é conhecida a moradora do bairro de Baldeador, em Niterói. Médica de bonecas e doutora de brinquedos são alguns deles. Ela passou a ser chamada assim, principalmente pelas crianças, por conta de uma habilidade especial, que desenvolveu sozinha e na pandemia virou sua principal fonte de renda: a restauração de bonecas, com a qual mostra que há vida além do lixo para os brinquedos.

Mesmo aqueles que foram bem maltratados pelas crianças e chegam às suas mãos bastante deteriorados têm cura, ou melhor, solução. Recuperadas pela restauradora, as bonecas retornam renovadas e prontas para mais uma jornada de brincadeiras. Quando dão entrada no seu "hospital", passam primeiro por um banho completo, que inclui remoção de manchas e rabiscos. Algumas precisam ser submetidas a procedimentos mais complexos, como o implante de cabelos, muitas vezes, fio a fio. Outras, que perderam braços ou pernas, recebem novos membros, iguais aos originais. Por fim, ganham roupas novas, também feitas por Suelen.

— No meu hospitalzinho sinto como se estivesse brincando de casinha, com as bonecas que não tive na infância. Ninguém me ensinou (a arte da restauração). Foi uma coisa de instinto de mãe que queria dar o brinquedo para suas filhas. Acabei conseguindo fazer a primeira e nunca mais parei. Mesmo estando empregada eu continuava fazendo esse trabalho mesmo que fosse apenas por terapia ou hobby — contou.

O serviço é tão perfeito que algumas pessoas duvidam estarem levando para casa a mesma boneca que deixaram para restaurar. Autodidata, Suelen descobriu essa habilidade por pura necessidade e instinto materno. A médica de bonecas passou a infância inteira sem ter tido uma para chamar de sua. Nascida numa família pobre, os pais não tinham condições de comprar brinquedos. Para que essa história não se repetisse com as três filhas, já que também não podia presenteá-las, recorria a bonecas que teriam o lixo como destino. Após ter feito companhia a outras crianças, o brinquedo passava por uma minuciosa restauração e ia fazer a alegria de suas filhas.

Suelen, que já chegou a restaurar bonecas para um projeto que atendia crianças carentes em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, só aceitava encomendas de familiares e amigos. Mas aí veio a pandemia do novo coronavírus e, em abril, ela foi demitida do trabalho como faxineira em um prédio de Icaraí. Com dificuldade de encontrar um novo emprego, achou que era hora de transformar o antigo hobby em negócio.

Com a ajuda da filha Lydiane Cristina, de 35, para quem reformou a primeira boneca, criou uma página no Facebook (Suelen Art's Renovada) e as encomendas não param de chegar. Somente no último mês foram mais de 40 bonecas, entre pequenos consertos até restauração completa. O preço do serviço parte de R$ 20 e pode variar conforme o estado do brinquedo.

'Hospital' improvisado em casa

Os brinquedos que chegam para o conserto ocupam uma parte da casa de Suelen, adaptada para se transformar no hospital de bonecas. Elas dão entrada numa espécia de enfermaria e recebem um prontuário, com os cuidados que vão receber durante o período de "internação", que dura em média uma semana. Ela leva tão a sério o título de médica de bonecas que não abre mão do jaleco branco e do estetoscópio pendurado no pescoço enquanto faz o seu trabalho.

— As que chegam muito ruins vão para o soro ou oxigênio — brinca a doutora de brinquedos.

Ao descobrir que não existia no mercado um produto capaz de retirar rabiscos de caneta das bonecas, Suelem recorreu à sua porção alquimista e desenvolveu uma fórmula própria, que é guardada debaixo de sete chaves. Ela garante que remove inclusive riscos feitos com marcador de CD, que deveriam ser definitivos.

— Muita gente quer comprar, mas fiz para o meu próprio uso. Fui misturando os produtos até chegar à uma fórmula, que não posso contar qual é. Afinal, é o meu diferencial — justifica, acrescentando que agora pesquisando uma nova fórmula para tirar mofo das bonecas.

As habilidades de Suelen não se restringe à restauração de bonecas. Nas mãos dela, carrinhos de bebês que também iriam para o lixo ganham vida nova ao serem adaptados para transportar as bonecas. Suelen também faz bercinhos e acessórios para casa como porta papel higiênico, usando bonecas restauradas como suporte.

Suelen faz parte de um grupo chamado "Empreendedores locais", que organiza feiras e exposições em locais como Campo de São Bento e Praça Arariboia, em Niterói, eventos que estão momentaneamente suspensos, por conta da pandemia. Seu grande sonho é trocar o espaço improvisado em sua casa, por um hospital de bonecas de verdade, que pensa construir ao lado de sua residência em Niterói e, se tudo der certo, outro em Pedra de Guaratiba, no Rio, onde se divide.

"Ela devolveu um pedaço da minha adolescência", diz cliente

A médica de bonecas atende desde moradores de comunidades pobres aos dos bairros mais nobres de Niterói, sendo que após aderir às redes sociais, ela ampliou o seu universo e está recebendo encomendas também de cidades vizinhas, como o Rio. Sua clientela é formada por crianças que têm um apego especial por um determinado brinquedo ou mulheres adultas, que desenvolveram uma ligação afetiva com uma boneca que as acompanha há muito tempo. Ou então pertenceu à mãe ou à avó.

Silvânia Maria dos Santos Petrúcio, de 54 anos, tinha uma boneca que ganhou no começo da adolescência e, após passar pelas mãos de uma sobrinha e uma neta, precisava de uma reforma completa. O brinquedo deteriorado pelo longo tempo de uso foi restaurado por Suelen e voltou para a dona novinho em folha. Agora enfeita o quatro da moradora de Niterói, de onde não sai por nada.

— É uma boneca que já fez a alegria de três gerações da família. Tem um significado importante para mim, porque traz boas recordações. Foi a primeira que ganhei num dia de Cosme e Damião, quando tinha entre 12 e 13 anos. Estava bastante detonada e ficou novinha em folha. Hoje enfeita o meu quarto e não empresto a mais ninguém. Ela (Suelen) devolveu uma pedaço da minha adolescência — agradeceu a dona de casa.

Lydiane, a Any, filha mais velha de Suelen, sente orgulho de ter sido a responsável por, involuntariamente, ter ajudado a mãe descobrir a habilidade de médica de bonecas, embora guarde poucas lembranças dessa época. Ela destaca ainda o lado solidário da doutora de brinquedos.

— Ela sempre buscou ajudar quem tem menos que a gente, pegando bonecas que as pessoas jogam fora, restaurando e doando para crianças carentes — disse.