Médica brasileira cria aplicativo que ajuda atendimento em UTIs

·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Imagine aquela cena de filme ou da sua série médica favorita: chega um paciente após um acidente, em estado grave, e vai para a cirurgia ou atendimento clínico. Depois, segue para internação em uma unidade de terapia intensiva (UTI) ou para um centro de terapia intensiva (CTI), onde vai ficar por alguns dias até a recuperação --ou não. Nesse intervalo, que podem ser horas ou até dias e semanas, diversos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais de saúde irão passar na unidade para uma visita --a chamada "round", do termo em inglês, mas também falado de maneira popular entre as equipes médicas aqui no Brasil. No meio do caminho, plantonistas ou médicos intensivistas trocam de plantão, e a informação do estado do paciente ou suas necessidades de medicação precisa ser repassada diversas vezes, e sem que haja falha no processo de comunicação entre as equipes. Foi pensando nisso que a médica intensivista Clarice Costa criou o aplicativo Roundover. Com seus mais de 20 anos de experiência na área de medicina intensiva, Costa tinha um sonho de criar algo que facilitasse esse trabalho, por vezes muito estressante e que demanda muito tanto física quanto psicologicamente dos profissionais envolvidos. A ideia já vinha germinando lá em 2019, antes da pandemia que já assolou mais de 242 mil vidas no Brasil, mas o momento foi perfeito, afinal, com o início de 2021 já marcado por mais de 80% de taxa de ocupação nos leitos de UTI em oito das 27 capitais do país, uma ferramenta que auxiliasse esse atendimento mostrou-se fundamental. O nome Roundover denota como é o trabalho nessas unidades: uma visita que se perpetua, não se esgota ali com o trabalho de um único profissional. "As equipes dos CTIs atendem muitos pacientes graves e por isso têm um volume de informação muito grande todos os dias. Algumas unidades têm maior rotatividade, então a rotina de comunicação precisa ser estratégica para que essas informações não se percam por conta do volume de dados ao longo do dia", explica. Funciona assim: cada equipe de unidade de terapia intensiva tem um espaço próprio onde pode se comunicar através do chat, subir exames de imagem e laboratoriais do paciente, marcar ou desmarcar tópicos dentro de uma lista -- por exemplo sedação, medicação em curso, ou como estão os exames de sangue-- e ainda registrar indicadores de gravidade --os escores utilizados para avaliar como está a evolução do paciente, por exemplo. Para proteger os dados tanto do paciente quanto do hospital, os usuários podem usar números ou símbolos para cada paciente, e somente eles terão acessos aos laudos médicos e exames, evitando assim vazamento de informações e fraudes médicas, como foi observado em alguns hospitais que tiveram seus dados médicos vazados em 2020. O aplicativo, além de inovador, é o primeiro a concentrar em uma única plataforma informações que podem ser acessadas por toda a equipe médica em todos os níveis de função. Se, por exemplo, o responsável da equipe quiser saber como está a evolução do pulmão de um paciente que está com ventilação mecânica, ele consegue acessar rapidamente uma imagem de raio-X do órgão no tópico sobre ventilação --ferramenta muito útil para o atendimento dos pacientes internados com a Covid-19. Por funcionar por meio de senhas seletivas, o chefe da UTI tem acesso a todo o conteúdo, enquanto os médicos de rotina, plantonistas ou outros profissionais têm acesso restrito a suas áreas de atuação. "O Roundover facilita essa comunicação, uma vez que o chefe da UTI pode saber em tempo real como está um paciente, mesmo se ele não estiver no hospital naquele momento", diz a médica. Uma outra vantagem é um chat interno do aplicativo, permitindo que a equipe tenha uma conversa em tempo real em uma ferramenta profissional, separando assim as conversas mais informais e pessoais para outros aplicativos. Além das equipes, os administradores de hospital podem também acessar com a função "gestor" --nesse caso, têm acesso às informações do paciente, mas não aos chats de conversa, para manter um ambiente em que as equipes possam conversar livremente. Até o momento, já foram feitos mais de mil downloads do aplicativo, e há o cadastro de 35 unidades de CTI ou UTI na plataforma, ou cerca de 420 equipes, distribuídas nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste. A expectativa agora é de ampliação do uso. "Meu objetivo maior com esse aplicativo é auxiliar a equipe médica, do médico plantonista até o chefe de UTI, porque sei como o volume de comunicação pode ser difícil de lidar. Por isso, costumo dizer que é o slogan do app é 'A sua UTI na palma da mão', e é isso que desejo mesmo, uma ferramenta que possa ser usada a beira-leito ou de qualquer lugar", finaliza Costa.