Médica contradiz Anvisa e Mandetta na CPI da Covid e relata reuniões da gestão Bolsonaro por tratamento precoce

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BRASÍLIA, DF, 01.06.2021: NISE-YAMAGUCHI - A médica Nise Yamaguchi presta depoimento à CPI da Covid, no Senado, sobre a sua atuação junto ao governo federal em defesa da cloroquina e da hidroxicloroquina, em Brasília, nesta terça. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
BRASÍLIA, DF, 01.06.2021: NISE-YAMAGUCHI - A médica Nise Yamaguchi presta depoimento à CPI da Covid, no Senado, sobre a sua atuação junto ao governo federal em defesa da cloroquina e da hidroxicloroquina, em Brasília, nesta terça. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A médica Nise Yamaguchi contrariou versões dadas por autoridades que prestaram depoimentos anteriormente à CPI da Covid ao negar nesta terça-feira (1º) que integra um gabinete paralelo e ao afirmar que não partiu dela iniciativa para alterar a bula da hidroxicloroquina por decreto presidencial.

Apesar de afirmar que não dava aconselhamentos paralelos, a médica relatou reuniões com integrantes do governo do presidente Jair Bolsonaro nas quais foi discutido o tratamento precoce contra a Covid-19.

Oncologista e imunologista, Nise é defensora do uso da hidroxicloroquina e da cloroquina, remédios sem comprovação de eficácia no tratamento contra a Covid, e se tornou conhecida pela proximidade com o governo Bolsonaro.

A médica prestou depoimento à comissão em uma sessão tumultuada. O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), chegou a pedir que os telespectadores que acompanhavam a sessão “desconsiderassem” o que a médica dizia e sugeriu uma acareação com depoentes anteriores, por causa das divergências.

Apontada como uma das principais conselheiras de Bolsonaro, a médica disse que não manteve encontros a sós com o chefe do Executivo. Apenas disse ter lembrado da participação dele em algumas reuniões e eventos.

Em uma delas, afirmou que Bolsonaro só quis saber a respeito de dados científicos sobre a hidroxicloroquina. Em resposta, segundo seu relato à CPI, disse ao presidente que os médicos estavam “divididos” e que havia discussão em relação à parte científica do medicamento.

Nise inclusive usou sua fala inicial para tentar se desvincular do governo. Disse que não estava lá para “defender um governo”. “Eu não tenho nenhum partido político e estou aqui sem conflitos de interesse, realmente querendo contribuir. Não existem ganhos pessoais."

O depoimento da médica era aguardado pelos membros da CPI, pois as investigações e depoimentos até aqui a apontam como um dos principais nomes do gabinete paralelo, grupo de aconselhamento ao presidente para temas relacionados à pandemia fora da estrutura do Ministério da Saúde.

Nise negou integrar tal gabinete e chegou mesmo a questionar sua existência.

“Eu desconheço um gabinete paralelo e muito menos que eu integre qualquer gabinete paralelo. Sou uma colaboradora eventual e participo, junto com os ministros de Saúde."

"Deixei bem claro que participo como médica, cientista chamada para opinar em comissões técnicas, em reuniões governamentais, reuniões específicas com setores do Ministério da Saúde”, afirmou.

Por outro lado, a médica reconheceu que participou de reuniões e eventos no Palácio do Planalto nos quais foi discutido o uso da hidroxicloroquina.

A médica afirmou ter conhecido o ex-assessor da Presidência Arthur Weintraub e o empresário Carlos Wizard, apontados como membro do ministério paralelo, mas negou ter atuado com eles no delineamento de estratégias durante a pandemia.

Disse que, com Wizard e outros atores, integrava um "conselho independente" para assuntos relacionados à pandemia.

“Ele [Weintraub] esteve comigo também nessa reunião da Presidência da República. Ele participou de diversas colocações com relação a esse momento. E ele esteve também discutindo, naquele dia, a possibilidade de que os médicos prescrevessem os medicamentos. Nessa cerimônia, foi bastante bem colocado”, afirmou.

Ela negou, porém, ter sido responsável por minuta de decreto que alterava a bula da cloroquina para recomendá-la para o tratamento da Covid. Segundo o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, o documento foi apresentado em reunião no Planalto em 2020.

À CPI Nise disse que "de forma alguma" escreveu a minuta do decreto. A médica também afirmou que o texto não tratava de alteração de bula do remédio.

“Eu não fiz nenhuma minuta. Inclusive, eu não conhecia esse papel. Essa é a reunião, a sala estava bastante cheia e eu não conheço as pessoas que estavam lá. E eu descobri, ao final da reunião, onde nós discutimos uma série de itens, eles me pediram para conversar sobre a questão da hidroxicloroquina.”

“Inclusive, depois da reunião, eu descobri que eles estavam se referindo a uma minuta, e essa minuta jamais falava de bula, ela falava sobre a possibilidade de haver uma disponibilização de medicamento”, afirmou a médica.

Após essa declaração, Aziz afirmou que fará uma acareação entre Barra Torres e Nise.

Procurado, Barra Torres afirmou, via assessoria de imprensa da Anvisa, que não iria comentar. Mandetta, por sua vez, reafirmou as declarações que deu à comissão que apontam a tentativa de alterar a bula da hidroxicloroquina.

Ao ser questionado pelo jornal Folha de S.Paulo se a médica estava mentindo, Mandetta disse que cabe à CPI investigar. “O Barra Torres confirmou a mesma coisa e eu já escrevi isso até no livro. Isso não é novidade nenhuma [mudança da bula], ela deve ter tido alguma amnésia e cabe ao Senado investigar.”

Nise apresentou à CPI um documento registrado em cartório, que conteria a proposta discutida naquela reunião, para tentar comprovar que não se tratava de uma proposta para alterar a bula da hidroxicloroquina.

O documento contém a proposta e também uma troca de mensagens com o médico Luciano Azevedo, que Nise afirmou estar trabalhando nessa minuta. Senadores consideram que a médica, dessa forma, buscou tirar a responsabilidade de si e atribuir a uma terceira pessoa.

Após receber o documento por um aplicativo de mensagens, a médica afirma que a proposta "exporia muito o presidente".

"Oi, Luciano. Este decreto não pode ser feito assim, porque não é assim que regulamenta a pesquisa clínica. Tem normas próprias. Exporia muito o Presidente", escreveu na mensagem.

A minuta apresentada pela médica não sugere alterar a bula da hidroxicloroquina, mas por sua vez prevê o envio de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 para toda a rede de saúde e garante ao médico, sua equipe e ao paciente "decidirem pela adesão ao uso experimental das medicações descritas na doença Covid-19 no intuito de tratar e iniciar protocolos de pesquisas clínicas".

A minuta cita os medicamentos difosfato de cloroquina, sulfato de hidroxicloroquina e azitromicina. A adesão, segundo prevê a minuta, seria feita através da assinatura de um termo de consentimento.

Apesar de ser uma ação para tentar mostrar que não houve iniciativa para alterar a bula da hidroxicloroquina, senadores consideram que ela acaba corroborando a existência do gabinete paralelo e mesmo a vontade do governo de incorporar o medicamento como estratégia contra a Covid-19.

"No documento que a doutora Nise entregou aqui, que é exatamente o documento do decreto que, dito pela Dra. Nise, não é alteração da bula da hidroxicloroquina, mas é um decreto de receituário de medicamento. A senhora fez um registro em cartório para garantir a veracidade do documento, enfim, das mensagens que foram trocadas", afirmou o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) foi além e apontou que o documento trazido pela médica era ainda mais grave, pois ignorava as decisões da agência sanitária.

"O documento que a senhora trouxe à CPI é um documento cujo objetivo era colher a assinatura do presidente da República. O que esse documento pretendia fazer era garantir a dispensação de medicamentos fora daquilo que era originalmente previsto no seu registro. Esse é o fato. A senhora trouxe um documento nesse sentido", afirmou Vieira.

"Então, esse jogo de palavras para dizer que 'não, não era para alterar a bula', era para ter um documento oficial do presidente que passasse por cima da Anvisa, passasse por cima do ministério, passasse por cima de todos e disponibilizasse um caminhão de cloroquina ou hidroxicloroquina para as pessoas, quando não existia, já naquele momento, nenhuma evidência que desce lastro a isso", completou.

Em alguns momentos da sessão, os senadores questionaram o conhecimento e a base científica para a defesa da médica da hidroxicloroquina.

O próprio Vieira perguntou qual revista científica de renome havia publicado estudos, o que a depoente não soube responder. O senador também apontou que um estudo mostrado por Nise, para justificar sua defesa, havia sido encerrado por falta de evidências.

"A senhora está entregando uma pilha de papel, que significa muito pouco para a CPI, porque efetivamente não corresponde àquilo que os seus colegas cientistas, médicos especialistas, referendam como conhecimento de alta qualidade", afirmou.

O embate mais aberto aconteceu com o senador Otto Alencar (PSD-BA), que colocou um questionário para a depoente sobre temas de infectologia, sem obter respostas.

"Pode pegar os livros aí, porque a senhora não tem na cabeça, certamente não leu, não estudou. E, doutora, de médico audiovisual, este plenário está cansado; de alguém que ouviu, e viu, e não leu, e não se aprofundou, e não tem estudado", afirmou o médico.

"A senhora não conhece, não estava preparada para participar do gabinete paralelo como outros que participaram sobretudo curiosos advogados, o empresário Wizard, em uma arca de Noé tratando da ciência no Brasil, só que não tinha Noé para conduzir a arca", disse Alencar.

O senador ainda fez outros questionamentos a respeito da área de infectologia para os quais Nise também não apresentou respostas corretas, segundo ele. Ele fez as questões com o intuito de provar que ela não estaria apta a fazer aconselhamentos sobre área que não domina.

Durante intervalo da sessão, a assessora de Nise, Jane Silva, pediu ao presidente da CPI mais respeito, e Aziz respondeu que ela "mentiu descaradamente".

Em resposta, a assessora levantou-se e falou em voz alta que estava assustada, como mulher, com a "grosseria dos senadores", afirmou que era um "absurdo" e que eles não deixavam ela falar.

Aziz, então, disse que ela ficaria "assustada" do lado de fora da sala e a expulsou da sessão.

Após deixar o plenário, Jane afirmou estar "chocada" com o tratamento reservado a ela e à médica.

Após o depoimento, o presidente da CPI afirmou que a oitiva tinha sido um "engodo" e que a fala de Nise encerra a fase "cloroquina" da comissão. "Esse assunto já acabou, cloroquina, a CPI não tem mais que tratar disso."

Aziz afirmou que Nise não conseguiu trazer dados consistentes em defesa do medicamento. Por isso está claro que o governo apostou em uma estratégia sem base científica.

"Hoje encerramos um ciclo de investigação. Sabemos que o governo nunca quis comprar vacina, isso está provado. Não tem mais o que discutir essa questão. E está provado também que havia um assessoramento, não de profissionais nomeados no Ministério da Saúde", disse.

"E aí foi se formatando, sem nenhum dado científico, um protocolo, que aí vem o tratamento precoce e a imunização de rebanho. Coisa que não deu certo no Brasil e ceifou a vida de muitas pessoas", completou.

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