Médica contradiz Anvisa e Mandetta na CPI e relata reuniões da gestão Bolsonaro por tratamento precoce

·3 minuto de leitura
BRASÍLIA, DF, 01.06.2021: NISE-YAMAGUCHI - A médica Nise Yamaguchi presta depoimento à CPI da Covid, no Senado, sobre a sua atuação junto ao governo federal em defesa da cloroquina e da hidroxicloroquina, em Brasília, nesta terça. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
BRASÍLIA, DF, 01.06.2021: NISE-YAMAGUCHI - A médica Nise Yamaguchi presta depoimento à CPI da Covid, no Senado, sobre a sua atuação junto ao governo federal em defesa da cloroquina e da hidroxicloroquina, em Brasília, nesta terça. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A médica Nise Yamaguchi contrariou versões dadas por autoridades que prestaram depoimentos anteriormente à CPI da Covid, ao negar nesta terça-feira (1º) que integra um "gabinete paralelo" e ao afirmar que não partiu dela iniciativa para alterar a bula da hidroxicloroquina por decreto presidencial.

Apesar de afirmar que não dava aconselhamentos paralelos, a médica relatou reuniões com integrantes do governo do presidente Jair Bolsonaro nas quais foi discutido o tratamento precoce, com medicamentos como hidroxicloroquina -que ela ainda defende.

Nise Yamaguchi prestou depoimento à comissão em uma sessão bastante tumultuada. O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), chegou a pedir que os telespectadores "desconsiderassem" o que a médica dizia e sugeriu uma acareação com depoentes anteriores, por causa das divergências.

Apontada como uma das principais conselheiras do presidente Bolsonaro, a médica disse que não manteve encontros a sós com o chefe do Executivo. Apenas disse ter lembrado da participação em algumas reuniões e eventos.

Em uma delas, afirmou que Bolsonaro só quis saber a respeito de dados científicos sobre a hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada para o tratamento da Covid. Em resposta, disse ao presidente que os médicos estavam "divididos" e que havia discussão em relação à parte científica do medicamento.

A médica inclusive usou sua fala inicial para tentar se desvincular do atual governo. Disse que não estava lá para "defender um governo"

"Eu não tenho nenhum partido político e estou aqui sem conflitos de interesse, realmente querendo contribuir. Não existem ganhos pessoais", afirmou.

O depoimento da médica era aguardado pelos membros da CPI, pois as investigações e depoimentos até aqui apontam como um dos principais nomes do gabinete paralelo, grupo de aconselhamento ao presidente para temas relacionados à pandemia fora da estrutura do Ministério da Saúde.

Nise Yamaguchi negou integrar tal gabinete e chegou mesmo a questionar a sua existência.

"Eu desconheço um gabinete paralelo e muito menos que eu integre qualquer gabinete paralelo. Sou uma colaboradora eventual e participo, junto com os ministros de Saúde. Deixei bem claro que participo como médica, cientista chamada para opinar em comissões técnicas, em reuniões governamentais, reuniões específicas com setores do Ministério da Saúde", afirmou.

Por outro lado, a médica reconheceu que participou de reuniões e eventos no Palácio do Planalto, em que foi discutido o uso da hidroxicloroquina. Afirmou ter conhecido o ex-assessor da Presidência Arthur Weintraub e o empresário bilionário Carlos Wizard, apontados como membro do ministério paralelo, mas negou ter atuado com eles no delineamento de estratégias durante a pandemia.

"Ele [Weintraub] esteve comigo também nessa reunião da Presidência da República. Ele participou de diversas colocações com relação a esse momento. E ele esteve também discutindo, naquele dia, a possibilidade de que os médicos prescrevessem os medicamentos. Nessa cerimônia, foi bastante bem colocado", afirmou.

Ela negou, porém, ter sido responsável por minuta de decreto que alterava a bula da cloroquina para recomendá-la para o tratamento da Covid-19. Segundo o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, o documento foi apresentado em reunião no Palácio do Planalto no ano passado.

À CPI, Nise disse que "de forma alguma" escreveu a minuta do decreto. A médica também afirmou que o texto não tratava de alteração de bula do remédio.

"Eu não fiz nenhuma minuta. Inclusive, eu não conhecia esse papel. Essa é a reunião, a sala estava bastante cheia e eu não conheço as pessoas que estavam lá. E eu descobri, ao final da reunião, onde nós discutimos uma série de itens, eles me pediram para conversar sobre a questão da hidroxicloroquina", afirmou.

"Inclusive, depois da reunião, eu descobri que eles estavam se referindo a uma minuta, e essa minuta jamais falava de bula, ela falava sobre a possibilidade de haver uma disponibilização de medicamento", afirmou a médica.

Após a declaração, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), disse que fará uma acareação; entre Barra Torres e Nise.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos