Médica que foi espancada por reclamar de 'festa do corona' está internada com Covid-19: 'Estou em negação'

Gabriela Goulart
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Foto: Reprodução
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"Eu estou em negação… Minha vida não tá fácil nos últimos tempos". O desabafo é da anestesista Ticyana D’Azambujja, que, como antecipou Ancelmo Gois em seu blog, foi diagnosticada pela segunda vez com Covid-19. Mais que isso. A médica está internada e, com 50% dos pulmões comprometidos por uma pneumonia bacteriana, recebe tratamento com antibiótico e corticoide. Como a vida ficou difícil nos últimos tempos? A história é recente no calendário, longa em enredo e dramática nos seus componentes. Ticy, como é chamada pelos amigos, ganhou as páginas dos jornais depois do fatídico dia 30 de maio deste ano, quando foi brutalmente agredida por frequentadores de uma festa clandestina que acontecia ao lado de sua casa, no Grajaú, tirando a paz dos moradores. Nome do evento: festa do corona.esta do corona.

As cenas em que ela aparece sendo socada, chutada e carregada, quase desacordada, nas costas de um de seus algozes chocaram uma população já fragilizada pelo peso da pandemia. Mais que isso. Ticyana resolveu descer para reclamar da festa porque tentava, em vão, descansar de mais um plantão num CTI voltado exclusivamente para pacientes com Covid-19. Como anestesista, ela atuava na linha de frente do atendimento a vítimas graves da doença, principalmente no processo de intubação.

Um mês antes da agressão, quando já trabalhava no Hospital de Campanha do Riocentro e no CTI Covid do Pedro Ernesto, Ticyana sentiu dor no corpo. Depois veio a febre, a anosmia (ausência do olfato) e a diarreia. Fez um exame de sorologia, teve o IGM reagente para o coronavírus. O PCR, segundo ela, deu negativo. Diante desse quadro, ficou afastada por 13 dias do trabalho e dos familiares, como manda o protocolo de isolamento.

— Não é possível afirmar que se trata de um caso de reinfecção. Para isso, teríamos que ter a cepa do vírus da primeira vez que tive os sintomas para comparar com a de agora — explica a médica.

Na semana passada, Ticyana teve febre e diarreia. Cinco dias se passaram desde o início dos sintomas. Aconselhada por um médico amigo, fez um PCR, cujo resultado foi positivo. Ela não acreditou. E testou novamente, em outro laboratório. Contraprova positiva. Com o fechamento dos hospitais de campanha, a médica estava trabalhando na emergência do Hospital Adão Pereira Nunes, em Saracuruna.

— Não lido mais diretamente com pacientes Covid, mas é uma emergência aberta e recebemos os mais diversos casos — ela conta.

A tosse começou no último domingo e logo veio a falta de ar. Que foi ficando maior, enquanto o número registrado no oxímetro (aparelho que mede o nível de oxigênio no sangue) caía. Esse foi o alerta que a levou até o hospital, onde ficou internada. Ticyana responde bem aos medicamentos e ao oxigênio extra que está recebendo. O prognóstico é positivo: alta ainda nos próximos dias.

Em maio, em consequência das agressões, a médica ficou afastada do trabalho por três meses. Além de escoriações por todo o corpo, ela teve fratura no fêmur e rompimento dos ligamentos de um dos joelhos, que precisou ser operado. Sequência de fotos mostra agressões sofridas por médica no Grajaú, na Zona Norte

Segundo Maira Fernandes, advogada da médica, seis pessoas — entre elas um sargento da Polícia Militar — foram denunciadas pelo Ministério Público do Rio pelos crimes de lesão corporal grave e realização de evento durante a pandemia, o que era proibido na ocasião. O documento do MP enumera, como uma lista, a extensão da violência praticada contra a vítima: “asfixia mecânica, socos, chutes, tapas, pisoteio, empurrões, puxões de cabelo e arremesso ao solo”. No próximo dia 23, está marcada uma audiência do processo.