Médico bolsonarista cotado para Ministério da Saúde culpou mulheres por crise na democracia

Guilherme Caetano

SÃO PAULO — A ala ideológica do governo de Jair Bolsonaro pode ganhar um membro de peso. Um dos cotados para substituir Nelson Teich, que se demitiu na última sexta-feira do Ministério da Saúde, é o médico carioca Ítalo Marsili. Admirador do escritor Olavo de Carvalho, ele associou, em vídeo veiculado em seu canal do YouTube no início do mês, o direito de voto das mulheres à crise na democracia e afirmou que basta "seduzir uma mulher para convencê-la a votar".

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O médico chegou a Brasília na tarde desta segunda-feira e se encontraria com Bolsonaro, apesar de a reunião não constar na agenda oficial do presidente. Nos últimos dias, bolsonaristas e deputados como Caroline de Toni (PSL-SC) e Filipe Barros (PSL-PR) se engajaram em uma campanha nas redes sociais para cacifar o nome de Marsili. Ele é bem visto pelos filhos do presidente.

As declarações machistas do médico formado pela UFRJ são de uma transmissão virtual com fundadores do estúdio revisionista Brasil Paralelo, da qual ele foi o entrevistado. Marsili compartilhou o vídeo em 2 de maio nas suas próprias redes.

"Quando Platão falava sobre democracia... Mulheres que estão aqui com a gente. Ofendam-se, porque é isso que vocês são. Na única democracia no mundo que funcionou, que foi a democracia grega, não estava previsto o voto feminino, ok? O fato observável é que quando o voto passa a ser pleno, ou seja, as mulheres e todo mundo podem votar, a gente vê que tem uma crise na regência do Estado. Porque é óbvio, é muito fácil você convencer uma mulher de votar. É só você seduzi-la", declarou ele na ocasião.

Marsili acrescenta que o ex-primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, "obviamente não seria eleito" nos dias de hoje por não ser sedutor ao eleitorado feminino. Para ele, Fernando Collor foi eleito em 1989 por ser "bonitão".

A admiração por Olavo de Carvalho é tanta que sua experiência com o escritor foi parar em seu currículo Lattes, plataforma de currículos acadêmicos virtual. Enquanto pesquisadores reservam o espaço para descrever seus trabalhos científicos e projetos acadêmicos, Marsili incluiu a informação de que "morou com Olavo de Carvalho" entre 2007 e 2008 no estado americano da Virgínia. Diz ainda ter feito "diversos cursos e participou de vários encontros acadêmicos".

Marsili passou o fim de semana numa campanha por sua nomeação para substituir Nelson Teich. Em seu Instagram, pediu aos seguidores para ajudá-lo a ser nomeado "enchendo a caixa (de e-mail) dos parlamentares" e respondeu a dezenas de perguntas de seguidores. Comparou Bolsonaro a Jesus Cristo, evitou falar do uso da hidroxicloroquina e fez promessas caso assumisse a pasta.

Ele reservou comentários pouco amistosos à imprensa. Disse que "não vai ter carinho com a mídia" e que montaria "um dossiê de cada jornalista, com o nome dos puteiros que frequentam, das amantes, das clínicas de aborto que assassinam seus bebês, dos fornecedores de cocaína e maconha, de cada um deles, seria lindo".

Carlos Bolsonaro publicou em seu canal de YouTube, em 30 de abril, uma transmissão entre seu irmão Eduardo e Ítalo Marsili. No bate-papo, eles criticaram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente Alexandre de Moraes, em razão de sua decisão de suspender a nomeação de Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal. Na tarde desta segunda-feira, Eduardo também endossou uma publicação de Marsili em que o médico enaltece suas credenciais para assumir o Ministério da Saúde.

Apesar de o cargo estar vago, no entanto, o general Eduardo Pazuello pode ficar como ministro interino por tempo indeterminado, segundo o colunista do GLOBO Lauro Jardim. O objetivo seria não repetir o que aconteceu com Nelson Teich, quando Bolsonaro definiu com rapidez seu nome para o lugar de Henrique Mandetta, mas o presidente não conseguiu se afinar com ele.

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