Médico defende que emoções negativas podem afetar saúde do coração

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RIO — Consta que foram os gregos Platão e Aristóteles os primeiros a relacionar o coração e as emoções humanas. Séculos depois, a ciência tem dado contornos objetivos a essa antiga associação. Uma das principais referências nesse campo pioneiro é o cardiologista paulista Alvaro Avezum, diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP). Lá, ele ajudou a fundar o Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (DEMCA), que atua em rede para compilar estudos — e conduzir novos — que apontam como a nossa visão de mundo pode influenciar a saúde. Para o bem ou para o mal.

O ramo de pesquisa reúne dados cada vez mais consistentes do quanto emoções negativas como o ódio e o ressentimento podem alterar marcadores biológicos e desencadear doenças. E, por outro lado, em que medida atitudes de solidariedade e empatia são capazes de manter a saúde.

— Não estou investigando esse assunto por brincadeira ou lazer. Novos modelos propõem novos tratamentos. Se não duvidarmos dos modelos, não avançamos no conhecimento— , diz o médico, que tem o mais alto índice H (que mede a citação em pesquisas) em sua especialidade no país.

A seguir, Avezum conta o que a ciência já tem a ensinar sobre como enfrentar problemas para viver mais e melhor.

Como você começou a investigar esse assunto não muito comum na medicina?

Há dez anos, comecei a ver quantidade de publicações científicas com temas de espiritualidade e religiosidade e propus à Sociedade Brasileira de Cardiologia incluir o assunto em um congresso médico. A sala lotou, existia uma demanda da classe, não só como conhecimento científico, mas também para aprimorar a prática clínica. A partir daí criamos um grupo, que virou um departamento, o primeiro desse gênero em uma sociedade cardiológica no mundo. Hoje são mil associados.

Como espiritualidade e religião são diferenciados na prática médica?

Muita gente confunde. A religião é um sistema organizado de crenças, práticas e símbolos que facilitam a aproximação com o transcendente. A nossa definição de espiritualidade — há muitas — envolve um conjunto de valores morais, mentais e emocionais que norteiam nossos pensamentos e atitudes. E acrescentamos: que sejam passíveis de observação e mensuração. A novidade é o braço da ciência que mede e avalia a espiritualidade e sua associação com saúde e doença cardiovascular.

Mas os dois conceitos nunca se confundem?

Existe essa sobreposição algumas vezes. Há religiões que pregam tolerância e perdão, por exemplo. Mas o que analisamos é a mensuração desse tipo de sentimento. O crivo da ciência é o método. A religião não usa método, não quer ser científica. Nossa finalidade é entender melhor os fatores capazes de gerar mais saúde e menos doença.

O sr. cita em seus trabalhos que enfrentar mal as situações adversas prejudica a saúde. O que seria isso exatamente?

Entre os modelos que explicam o adoecimento na sociedade, o mais aceito é o da má adaptação à vida atual. O indivíduo fica mais sedentário, fuma mais, altera a alimentação, vive sob forte carga estressora, depressão, e há um enfrentamento negativo das situações adversas. Isso leva a alterações no metabolismo, gerando obesidade, colesterol elevado, pressão alta e diabetes. É o enfrentamento negativo.

Os sentimentos ruins podem afetar diretamente a saúde?

Existem muitos estudos que relacionam sentimentos como intolerância, ingratidão e ressentimento com o adoecimento. A raiva faz mal para a saúde. Emoções negativas alteram o sistema imune, o grau de inflamação, a coagulação, os níveis de hormônios como a adrenalina. O indivíduo que vive assim terá mais propensão a taquicardia, arritmia e pressão alta, por exemplo.

O quanto a visão de mundo impacta a longevidade?

Segundo pesquisas recentes, ter um propósito de vida reduz em 17% o risco de morrer, e indivíduos satisfeitos reduzem 12% seu risco de morte. A solidão e o isolamento social, por sua vez, aumentam em 29% essa taxa. A ciência cada vez mais olha a maneira de viver do ponto de vista de atitude moral e mental associados à doença. As primeiras pesquisas observaram marcadores como inflamação, coagulação e descarga de hormônios. Depois, vieram os estudos observacionais. Já existem muitos que relacionam, por exemplo, a disposição ao perdão ao menor risco a doença coronária e o sentimento de raiva ao maior risco de diabetes. Estamos na fase de intervenção, que são os estudos randomizados, ainda preliminares, mas informativos.

Pode citar um exemplo?

Houve um estudo de pessoas com doença coronária, que foram distribuídas em dois grupos. Apenas um deles passou por um período de 12 semanas de treinamento para aprender a perdoar. O que passou pela terapia do perdão mostrou menor quantidade de isquemia miocárdica, a falta de sangue no músculo cardíaco. A abundância de informações é crescente, o que nos leva a pensar que nosso modelo de adoecimento pode ser outro.

Como é possível quantificar fatores tão subjetivos?

Os estudos usam questionários, graduados do “concordo inteiramente” ao “discordo totalmente”. Com eles conseguimos mensurar desde estresse e ansiedade a características como bem-estar espiritual, gratidão e altruísmo.

A prática clínica também pode trazer informações assim?

Todos os médicos têm histórias de determinados adoecimentos ou evoluções de doenças que não seguiram a via tradicional. Alguém saudável que depois de uma ocorrência pessoal infartou. Ou o oposto: teve uma doença grave mas alcançou sobrevida superior ao que diz a literatura médica.

Esses conhecimentos têm resistência dentro da medicina?

A ciência que não investiga a espiritualidade não é ciência. Ela não pode ser dogmática, precisa analisar tudo o que for novo. No mínimo é desatualização de quem não consegue aplicar o método científico à espiritualidade. No início não entendiam e achavam que se tratava de religião. Mas quando veem a quantidade de coisa publicada passam a endossar.

Como falar de emoções quando a medicina atual muitas vezes é criticada pelo atendimento rápido e impessoal?

A medicina, quando surgiu, seguia a lógica da física mecanicista de Newton. Você pega o todo, separa em partes e analisa cada uma. Por isso temos especialidades médicas separadas para fígado, cérebro e coração. Desde então, surgiu a teoria da relatividade, a física quântica, a teoria das cordas, mas medicina ainda obedece à mesma lógica. Hoje, temos uma exuberância de exames em detrimento de uma boa anamnese. O paciente chega ao consultório cheio de sintomas, o médico olha os resultados laboratoriais e fala: “o senhor não tem nada”. Os exames podem não ter dado nada, mas quem falou que ele não tem nada? Temos que dar um salto qualitativo para entender saúde por inteiro.

O ensino de medicina está preparado para isso?

Ainda não. Quase 90% das escolas médicas americanas ensinam saúde e espiritualidade. No Brasil temos em umas cinco faculdades de medicina.

A pandemia é considerada um dos maiores marcos na nossa saúde mental?

Ela é um acelerador, tanto do ponto de vista individual como na sociedade. Em relação à saúde mental, ela não pôs nada novo dentro de ninguém, mas revelou coisas que temos dentro de nós. As pessoas que estavam estressadas e ansiosas ficaram mais, quem tinha um bom relacionamento e uma casa harmoniosa ganhou mais tempo para desfrutar disso. No consultório, percebi que as pessoas começaram a se questionar sobre o significado e o propósito das suas vidas, o quanto trabalhar ou procurar um escape. Claro que ninguém precisava da pandemia para isso, mas aconteceu.

Por outro lado, o isolamento fez com que muitas pessoas não procurassem atendimento médico. Em países como Espanha, Inglaterra, Itália, EUA e aqui no Brasil aumentaram os números de mortes cardiovasculares antes da chegada do paciente ao hospital.

O sr. tem alguma crença ?

Sou espírita. Mas esse dado independe da minha avaliação como cientista. Porém, assim não convém a um médico não fumar para enfrentar tabagismo, é importante para mim buscar um enfrentamento positivo da vida.

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