Médico Eder Gatti assume Departamento de Imunização após servidora ter nome barrado

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O médico Eder Gatti será o diretor do Departamento de Imunização e Doenças Imunopreveníveis do Ministério da Saúde.

O nome foi escolhido após ter sido revista a indicação da servidora Ana Goretti, que já ocupou o cargo de coordenadora substituta do PNI (Programa Nacional de Imunizações), em razão de publicações antigas nas redes sociais em que ela elogiava a Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro (SP), eleito senador pela União Brasil. O caso foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A ministra da Saúde, Nísia Trindade, chegou a anunciar a nomeação de Ana Goretti no dia da sua posse, em 2 de janeiro.

"Esses nomes estou revendo, mas no caso do PNI eu já vou antecipar que é a Ana Goretti que trabalha há muitos anos no programa", disse durante entrevista coletiva.

Segundo a Folha de S.Paulo apurou, depois do anúncio da ministra, foi feita uma avaliação do histórico da servidora por integrantes do Ministério da Saúde e pesou contra a sua nomeação o fato de ela ter se manifestado no passado a favor da Lava Jato, operação que levou à prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A indicação do nome de Goretti nem sequer chegou à Casa Civil do Planalto e foi revista ainda no Ministério da Saúde.

Aliados de Nísia lembram a orientação de Lula para que haja consulta a partidos e movimentos sociais a respeito dos nomes que sejam cogitados para ocupar cargos sensíveis, como é o caso do PNI, programa que seria chefiado por Goretti.

Para integrantes da pasta, a ministra se precipitou ao anunciar a servidora sem prévia análise do perfil. Apoiadores de Goretti ventilaram a versão de que seu nome havia sido rechaçado pela Casa Civil, o que foi considerado por integrantes do governo como uma pressão a seu favor.

Para assessores palacianos, essa estratégia pode se tornar um tiro no pé de Goretti, porque dificultaria sua nomeação a cargos com menor visibilidade.

No lugar de Goretti, foi escolhido Eder Gatti, que atualmente trabalha no Hospital Emílio Ribas, no Centro de Vigilância Epidemiológica Professor Alexandre Vranjac e no Instituto Butantan. Ele tem especialização em Infectologia pelo Instituto Emílio Ribas, com mestrado em saúde coletiva e doutorado em medicina preventiva. Gatti é considerado dentro do ministério como um técnico qualificado para ocupar o posto.

O nome ainda não foi publicado no Diário Oficial da União. O cronograma do governo prevê que diretores sejam nomeados na próxima semana.

Na noite de quarta-feira (11), em meio aos rumores de exclusão do nome, o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), consultou o secretário da SRI (Secretaria de Relações Institucionais), Alexandre Padilha, sobre o caso. Padilha negou que tenha sido rechaçado por motivação política.

A SRI tem atuado em conjunto com a Casa Civil na análise de indicações para compor o governo.

Um assessor palaciano explica que, cada vez que um indicado é exposto, o governo recebe uma enxurrada de informações alimentadas por apoiadores de outros candidatos ao cargo, sem que isso passe, obrigatoriamente, por um crivo formal dentro do governo.

Antes de Nísia anunciar Goretti outros nomes também tinham sido sondados. Houve o convite para Carla Domingues, ex-coordenadora do PNI de 2011 a 2019, assumir o departamento. Entretanto, ela não aceitou o convite.

O departamento terá grande importância nesta gestão. Nísia assume em um momento em que o SUS enfrenta grande queda na cobertura vacinal.

A ministra da Saúde disse em entrevista coletiva no Palácio do Planalto nesta semana que a campanha de vacinação deve ter início em fevereiro.

"Temos a grande tarefa de recuperar as altas cobertura vacinais no Brasil, o foco de vacina da infância é muito importante também. Estamos falando de Covid e também das altas coberturas vacinas", disse.

Assim como ocorreu com Goretti, também foi revista a indicação do nome de Fábio Mesquita, que chefiaria o Departamento de Vigilância de IST/Aids e Hepatites Virais.

Mesquita, que é pioneiro no combate ao HIV no Brasil e referência internacional no tema, chegou a ser convidado para o cargo e participou de reuniões de diretores da Secretaria de Vigilância em Saúde da pasta.

A indicação foi reexaminada na semana passada, porém, após a oposição de movimentos, sobretudo o do presidente do Foaesp (Fórum das ONGs/Aids do Estado de São Paulo), Rodrigo Pinheiro, como mostrou a Folha de S.Paulo, que criticou passagem anterior de Mesquita pela pasta.

No lugar dele, foi escolhido para chefiar o departamento o médico Draurio Barreira, atualmente gerente de Tuberculose da Unitaid, agência global ligada à OMS (Organização Mundial da Saúde).

A revisão do nome de Mesquita gerou ainda reação de outros movimentos sociais, que o apoiavam.

O governo tem feito análises a respeito de currículo e também de posicionamentos políticos de indicados para ocupar cargos-chave na gestão Lula.

Em outra frente, ainda em dezembro, outro nome foi barrado por causa de declarações defendendo a Operação Lava Jato.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, decidiu cancelar a nomeação do policial rodoviário Edmar Camata para o comando da PRF (Polícia Rodoviária Federal).

Dino divulgou o cancelamento aos jornalistas 24 horas após ter anunciado a nomeação.

"Tivemos uma polêmica nas últimas horas e o entendimento dele e da nossa equipe é que seria mais adequado proceder a essa substituição", disse Dino.

Como mostrou a coluna da Mônica Bergamo, o servidor foi no passado um entusiasta da Lava Jato e da atuação de Moro (União Brasil-PR). Camata também usou as redes sociais para manifestar, na época, apoio à prisão do petista.