Médico que fez procedimento em diarista morta após hidrolipo prestou serviços na rede pública do Rio

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RIo— O médico colombiano que fez um procedimento estético na diarista Maria Jandimar Rodrigues, de 39 anos, pouco antes dela ser encontrada morta no estacionamento de um Centro Comercial, em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio, alegou em depoimento, nesta segunda-feira, na 27ªDP (Vicente de Carvalho), já ter trabalhado como emergencialista na rede pública do Rio.

Ouvido na presença de um advogado pelo delegado Renato Carvalho, o colombiano Brad Alberto Castrillon SanMiguel alegou, entre outras coisas, ter revalidado seu diploma no Brasil e ainda ter prestado serviços em Unidades de Pronto Atendimento(UPAs) estaduais, além de dois hospitais. Num deles, fez pelo menos 200 cirurgias.

Brad Alberto contou ter se formado em medicina, em 2007, na Colômbia. Em 2016, revalidou seu diploma no Brasil, atestado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2018, disse ter feito especialização em cirurgia geral pela UniRio. Ele também alegou no depoimento ter concluído, em fevereiro de 2021, pós-graduação de cirurgia plástica pela Universidade Federal Fluminense.

Embora não tenha detalhado datas, o médico disse que trabalhou nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA) estaduais, de Marechal Hermes, Realengo, Bangu, Penha e Ricardo de Albuquerque, tendo inclusive colaborado como chefe de plantão por ter especialização em cirurgia geral. Na esfera estadual, o colombiano alega ainda que atuou também no Hospital Getúlio Vargas. Dados do Cadastro nacional de Estabelecimentos de Saúde mostram que o nome de Brad aparece como prestador de serviços, em novembro último nas Upas de Realengo e Ricardo de Albuquerque. Já em outubro, o nome do colombiano constava na UPA de Bangu.

O médico também disse ter trabalhado no Hospital municipal Ronaldo Gazolla como cirurgião residente, tendo feito cerca de 200 cirurgias na unidade. No fim de seu depoimento, Brad Alberto teve seu passaporte recolhido pelo delegado Renato Carvalho.

Procurada, a Secretaria estadual de Saúde, responsável pelo Getúlio Vargas e pelas UPAS citadas, ainda não se posicionou sobre o assunto. Já a Secretaria municipal de Saúde, que responde pelo Ronaldo Gazolla, disse que a direção da unidade informou que o médico não trabalhou no hospital em qualquer plantão de 2021. E que o nome do profissional não consta no estabelecimento de saúde, de 2018 para cá. Os registros anteriores ao período não foram localizados para serem examinados.

Além de ser investigado pela morte da diarista, encontrada sem vida na última sexta-feira, pouco depois de sair de sua clínical, o médico também foi apontado por outras duas mulheres, na 27ªDP, como autor de procedimentos estéticos que causaram sequelas nas vítimas. As duas foram ouvidas nesta segunda feira.

Uma delas, uma paciente, de 27 anos, que pediu para não ser identificada, disse ter ficado com três marcas grandes de queimaduras e com pontos necrosados no corpo, após uma hidrolipo no abdômen. Todas as cicatrizes aparecem três dias após o procedimento, feito pelo médico em duas etapas, nos dias 6 e 8 deste mês.

A mulher contou que esteve na clínica horas antes de Maria Jandimar passar pelo tratamento com SanMiguel, na sexta-feira (17). Neste dia, a diarista passou mal após a consulta e morreu no estacionamento do centro comercial onde o consultório funcionava.

Com sequelas pelo corpo e dificuldades para andar, a promoter Daiana França também prestou depoimento, nesta segunda-feira, e contou ter tido infecção generalizada após se submeter um procedimento com o médico. Ela revelou ter passado 23 dias em um hospital, sendo 16 deles internada numa unidade de Centro de Tratamento Intensivo.

Nesta terça-feira, três funcionários da clínica de Brad Alberto foram ouvidos pela polícia. No dia anterior, também prestaram depoimento o viúvo e a filha de Maria Jandimar. Os parentes da vítima contaram uma versão diferente da apresentada pelo médico na delegacia, que disse prestado socorro à diarista por exatos 32 minutos.

Na última sexta-feira, a filha da diarista, Brenda Rodrigues, de 21 anos, chegou a gravar o socorro à Maria sem saber que a paciente era sua mãe. Às 13h de sexta-feira, dia 17, Brenda a aguardava na recepção de um prédio comercial, por volta das 13h. Maria foi a uma clínica de estética realizar a segunda sessão, de três, de hidrolipo. Enquanto esperava no térreo do prédio a autorização do estabelecimento para subir à sala onde era feito o procedimento, a recepcionista que a atendia percebeu que uma mulher estava caída na entrada no centro comercial: a vítima era loira e estava de roupão. Por estar longe, Brenda não conseguiu reconhecer que na verdade ali estava sua mãe.

Brenda narra que após o óbito ocorrer, uma recepcionista da clínica desceu e pediu para a acompanhar. Mas, em vez de subir para a sala onde, em tese Maria estava, ela foi levada para os fundos do prédio e informada que o médico a encontraria. A jovem ainda conta que o médico e o anestesista estavam carregando uma espécie de mala.

— Já tinha um táxi ali parado para ele ir embora — desabafa a filha.

Por meio de nota, o advogado Hugo Novais, da defesa de SanMiguel, afirma sobre a morte de Maria Jandimar que o médico "adotou corretamente todos os previstos na literatura médica, e quando se deparou com a intercorrência, buscou imediato socorro em uma emergência próxima, o que não foi possível em virtude do falecimento da paciente. Importante ressaltar que não existiu omissão de socorro, muito menos tentativa de fuga". O comunicado ainda afirma que ele está à disposição das autoridades e que se solidariza com a família da paciente morta.

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