Médico que orientará novos protocolos do Ministério da Saúde para Covid-19 é crítico do uso da cloroquina

Daniel Gullino
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BRASÍLIA — O médico indicado pelo novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para coordenar um núcleo que definirá protocolos de tratamento à Covid-19 é um crítico do uso de medicamentos sem eficácia no combate à doença, como a cloroquina, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro. O pneumologista Carlos Carvalho, professor da Universidade de São Paulo (USP), também defende o isolamento social e o uso de máscaras.

Na quarta-feira, Queiroga anunciou uma secretaria dentro do ministério para tratar exclusivamente do combate à Covid-19. Dentro dessa secretária, haverá um "núcleo técnico", comandado por Carlos Carvalho, para definir "protocolos assistenciais". Esse grupo vai dar orientações, por exemplo, sobre o momento em que pacientes devem ser internados e quando devem receber reposição de oxigênio.

— Nós estamos agora, com o firme propósito, e essa é uma providência do momento, de instituir uma secretaria especial para o combate à pandemia da Covid-19. Essa secretaria vai cuidar somente da pandemia — disse Queiroga, em entrevista coletiva. — Nós constituímos, dentro da secretaria especial de combate à pandemia, um núcleo técnico, que vai ser coordenado pelo professor Carlos Carvalho, professor titular da Universidade de São Paulo, que vai coordenar os protocolos assistenciais.

O ministro falou sobre o núcleo justamente ao ser questionado sobre se o ministério iria rever a sua posição sobre a cloroquina. Queiroga respondeu que "não existe nenhum protocolo clínico e diretriz terapêutica no ministério ratificando uso de medicação". No ano passado, a pasta divulgou protocolo autorizando o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes em todos os estágios da doença.

Carlos Carvalho atuou como coordenador do Centro de Contingência contra a Covid-19 do estado de São Paulo. Ano passado, em entrevista ao GLOBO, Carvalho afirmou que não existe "tratamento milagroso" para a Covid-19 e nem um remédio que previna a doença. A única forma de prevenção, segundo o médico, é o isolamento e o uso de máscaras — duas práticas criticadas diversas vezes por Bolsonaro.

— É importante dizer que não tem tratamento milagroso. A medicina não tem um tratamento que mude o curso da doença. Não há remédio que previna. A certeza que temos é o isolamento, o afastamento das pessoas e a barreira mecânica criada com o uso da máscara. É isso que realmente previne. Nos casos mais graves, aprendemos que alguns tratamentos podem ser úteis — disse Carvalho, em julho do ano passado.

Carvalho ajudou no tratamento do cardiologista Roberto Kalil Filho, quando ele contraiu o coronavírus, no ano passado. Na época, disse que Kalil tomou cloroquina contra a sua orientação e que não era possível saber se foi o medicamento que ajudou na recuperação do colega.

— Não há como dizer que foi a cloroquina que ajudou o Kalil. Ele tomou outros remédios além dela. Eu mesmo tive coronavírus, tomei Novalgina e outros remédios e estou curado. Vou dizer que a Novalgina cura coronavírus? — afirmou o pneumologista, em abril, ao jornal "Folha de S.Paulo".

Em entrevista publicada na terça-feira pela "BBC News", antes do anúncio de Queiroga, Carvalho afirmou que "informações desconexas sobre medicação sem eficácia contribuíram para a letalidade maior na nossa população".