Médico se inspira em modelo espanhol e faz SC ser líder em doação de órgãos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A adoção de práticas humanitárias reduziu a rejeição de doação de órgãos em hospitais públicos de Santa Catarina. Em 2007, a cada dez entrevistas realizadas com parentes de pacientes que tiveram morte encefálica diagnosticada, sete se recusavam a autorizar o procedimento. Esse número caiu para três em 2021, ou seja, a recusa que era de 70% desabou para 31%.

A realidade se transformou após o médico intensivista Joel de Andrade, coordenador da Central Estadual de Transplantes de Santa Catarina inspirar-se em modelo da Espanha, que inclui cursos para ensinar os profissionais a abordar os familiares e auditorias. O país europeu se manteve na liderança por quase 30 anos -até perder a dianteira para os Estados Unidos na pandemia.

No Brasil, Santa Catarina virou referência e assumiu a liderança em taxas de doação de órgãos, chegando a ultrapassar o país ibérico em 2021 por meio do programa SC Transplantes. Nos últimos 18 anos, o estado teve as melhores taxas do país por 14 vezes. Nos outros quatro anos, ocupou a vice-liderança.

"Fomos adaptando um modelo de gestão para um estado brasileiro que funcionou perfeitamente. Há anos dividimos com o Paraná, que adotou nosso estilo, os melhores resultados do Brasil", afirma Andrade. Antes, a maioria dos pacientes que aguardavam um transplante eram transferidos para outras regiões.

Por esse trabalho, Joel de Andrade foi o vencedor na categoria Saúde do Prêmio Espírito Público, entregue em novembro do ano passado no Rio de Janeiro.

O servidor público passou três meses em um dos melhores hospitais de Madri e ressalta as várias ferramentas educacionais daquele sistema que o inspiraram.

"Uma das principais que a gente trouxe e implantou em 2010 foi o Curso de Comunicação de Notícias em Situações Críticas, que ensina os profissionais de saúde a conversar com as famílias no momento em que eles vão dar a pior de todas notícias, a morte. Mostra como ter empatia e acolhimento."

O médico conta que a partir daí descobriu que não procediam as teorias que as famílias eram contra a doação dos órgãos por desconhecerem o processo.

"Se elas não são bem tratadas num momento crítico como esse, esquece, eles vão rejeitar a doação. Só nessa abordagem mais acolhedora, já tivemos uma mudança drástica nos números de Santa Catarina."

Para Andrade, faz toda a diferença que os profissionais que atuem no hospital onde um paciente está internado em estado grave, e criem laços de confiança com os familiares, sejam aqueles que vão compreender qual o momento certo para conversar sobre a doação de órgãos.

A maioria das equipes de busca de doadores são funcionários da UTI em Santa Catarina. Quando o paciente é diagnosticado com morte encefálica, diz Andrade, já há um contato que se iniciou quando a pessoa estava viva. Os profissionais não vão ao hospital ver o doador, estão ali no processo assistencial

"Se o interesse primário é obter a doação de órgãos, o profissional fracassa. Essa atitude cria uma impressão que tudo ali está direcionado a obter esse consentimento."

Andrade dá um exemplo. Ele explica que se a mãe da pessoa falecida diz: "O Pedro é um rapaz bacana, está cursando faculdade", ele está vivo em sua mente, porque ela está conjugando o verbo no presente. Se ela passa a falar dele no passado, demonstra estar mais aberta a doar os órgãos.

"Uma das habilidades básicas que a gente transmite nesse momento é entender em que fase o familiar está. Tem que usar o remédio do tempo para a ficha cair. Muitas vezes pedir os órgãos é queimar a largada."

Outro braço do programa é formar uma rede de coordenadores e funcionários responsáveis pela busca de órgãos. No estado, já são mais de 2.000 pessoas treinadas.

"Ninguém conseguiu botar de pé uma rede assim. Fazemos várias reuniões por ano para ter mais pessoas treinadas. Caso alguém saia, acaba levando a semente para outros lugares, formando uma massa crítica."

Uma das vertentes que também chamou sua atenção em Madri foram as auditorias, que lá acontecem em hospitais que recebem doação, para identificar sua eficácia.

No Brasil, ele afirma, não há um sistema de controle para saber qual o total de doadores finais e o número de mortes encefálicas. "É esse tipo de informação tão importante que a auditoria traz."

Outra lição aprendida e usada na prática foi a priorização da educação no lugar da propaganda. "Muitos acham que resolve [investir em campanhas para diminuir a rejeição das famílias], mas não resolve. Não se mostram efetivas em nenhum lugar do mundo. A educação, sim."

Um paciente saudável diagnosticado com morte encefálica, após rigorosa avaliação de ao menos três médicos e exames, pode doar ossos, tendões, peles, tecidos e órgãos, ajudando centenas de pessoas.