Médicos alertam que o descaso às regras de ouro no carnaval pode custar caro ao Rio

Rodrigo de Souza
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Não teve apelo a bom senso, ameaça de multa nem uma estatística que aponta para mais de 31 mil mortos por Covid-19 no Estado do Rio capazes de demover as milhares de pessoas que se aglomeraram em festas e bares na noite de anteontem e na noite de ontem. O início do feriadão foi marcado por desrespeito às regras sanitárias. O receio dos médicos é que o descuido excessivo com o isolamento durante a folia tenha um efeito similar ao das festas de fim de ano, que acabaram por reacelerar a pandemia.

— A quantidade de imunizados é mínima. Essas pessoas não estão respeitando a única coisa que temos certeza de que reduz o ritmo de contaminação: o distanciamento — diz Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do estado: — Quanto mais o vírus se multiplicar na população, maior é o risco de fazer circular também essas novas cepas. Não se pode vacilar. É só olhar o que aconteceu com Portugal, que passou bem pelo início da pandemia, mas piorou muito após um relaxamento no fim de ano

Da Lapa, reduto boêmio da cidade, à Rua Dias Ferreira, palco das noitadas durante a pandemia, passando pelo Complexo da Maré, festas atraíram multidões sem máscaras nem distanciamento social. A prefeitura até que tentou. Equipes da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop), da Guarda Municipal e do Instituto de Vigilância Sanitária, com o apoio da Polícia Militar, interditaram sete estabelecimentos e aplicaram nove multas. No Jockey Club, na Gávea, uma festa foi interrompida, e os fiscais recolheram os equipamentos de som. O mesmo aconteceu num baile de carnaval, na Rua do Riachuelo, no Centro, e na quadra da Unidos da Tijuca, no Santo Cristo, onde os agentes chegaram antes mesmo de a música começar a tocar. Eles estão atuando de acordo denúncias feitas ao 1746 e monitoram também imagens das câmeras de trânsito.

Mas não foi suficiente. Na Dias Ferreira, por exemplo, por volta das 23h de sexta havia tanta gente nas calçadas e na rua que os carros tinham dificuldade para passar. O Leblon foi foco da força-tarefa montada pela prefeitura para exigir o cumprimento das regras de ouro no carnaval, mas a equipe do EXTRA viu apenas uma patrulha da Guarda Municipal parada no início da via.

— Venho aqui toda semana e está cada vez mais cheio. A rua agora parece lotada de estrangeiros. Há pontos que já viraram “covideiros”, como o fim da rua, no cruzamento com a Ataulfo de Paiva — diz um morador do bairro, que não quis se identificar.

As aglomerações na noite de anteontem se estendiam para dentro dos restaurantes, demarcados por um cercado. Em frente ao Bar Jobi, foliões maquiados e usando adereços se aglomeravam.

— É difícil controlar. As pessoas compram bebidas no camelô e vêm beber aqui na frente. Depois, a Guarda Municipal chega e multa pela ausência do distanciamento social. Já tomamos multa hoje (sexta) — diz Manoel Rocha, dono do estabelecimento.

O desrespeito não está restrito ao Leblon. Por volta da meia-noite, quiosques na Pedra do Leme estavam apinhados e não havia distanciamento entre as mesas, apesar de a maior parte dos clientes estar com máscaras. Em frente aos estabelecimentos, porém, o cenário era outro. Ao redor de coolers e caixas de som, grupos se divertiam sem proteção.

— Não temos poder sobre a aglomeração na mureta — alega Edinaldo Lima, dono do quiosque Sabores da Orla.

Segundo o comerciante, patrulhas da Guarda Municipal vão à Pedra do Leme diariamente, mas não conseguem impedir a muvuca.

Do outro lado da cidade, na Maré, um show do cantor Belo num Ciep no Parque União varou a noite. Na manhã de sábado, uma multidão ainda dançava sem máscara e distanciamento social. A assessoria de Belo disse que os proto sanitários foram cumpridos. Na Barra, na sexta-feira, a Av. Olegário Maciel estava lotada Frequentadores se aglomeravam em frente a bares e restaurantes.

O prefeito Eduardo Paes disse que aguarda novas doses da vacina até amanhã, e, com isso, espera manter a programação prevista no calendário. A declaração foi dada na inauguração de pista de atletismo da Vila Olímpica Oscar Schmidt, em Santa Cruz. O prefeito ainda falou sobre os casos de aglomeração em diferentes bairros na madrugada de sábado e disse que tem no estoque doses suficientes para garantir a vacinação até terça-feira, se não chegar novo lote:

— Chegando mais vacinas, a gente segue com a programação normal.

Ele afirmou que a prefeitura está tomando medidas em relação à realização de eventos:

— Se as pessoas não tiverem o mínimo de consciência, fica muito difícil. Empatia e amor ao próximo é o que a gente pede. Ninguém está feliz por não estar brincando no carnaval, mas é um momento que as pessoas têm que ter bom senso. Vamos continuar fiscalizando, mas é importante a conscientização das pessoas.