Médicos brasileiros defendem vacina de Oxford para idosos apesar de países europeus terem desaconselhado uso

Rafael Garcia
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A queda-de-braço entre países europeus sobre a recomendação de uso da vacina Oxford/AstraZeneca contra Covid-19 para pessoas acima de 65 anos não deve afetar seu uso no Brasil. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o produto é seguro, e sua eficácia já está demonstrada, então o melhor que idosos têm a fazer, quando tiverem aplicação agendada, é se vacinar.

O questionamento com relação à vacina emergiu quando autoridades alemãs decidirem não recomendar o produto para esse subgrupo. A justificativa é que não há informações suficientes sobre sua eficácia nessa faixa etária, que representou só 10% do ensaio clínico.

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A decisão da Alemanha foi seguida por França, Suécia, Polônia, Bélgica e Espanha, apesar de a EMA, agência reguladora da União Europeia, endossar a recomendação. O governo britânico defendeu ontem o uso da vacina, citando o último estudo divulgado sobre o imunizante (leia abaixo).

— Está absolutamente claro que a vacina da Oxford não somente funciona, mas funciona bem —disse o ministro da Saúde do Reino Unido, Matt Hancock.

Segundo a SBIm, o questionamento sobre o número menor de pacientes idosos nos testes também se aplicaria à vacina Coronavac, mas em ambos os casos a recomendação é idosos aceitarem o imunizante no Brasil.

— Nossa posição é que as duas vacinas são seguras e eficazes, e elas devem ser utilizadas para todas as pessoas acima de 18 anos, inclusive os idosos — diz Juarez Cunha, presidente da entidade.

— Aqui o cenário é diferente do da Europa, que pode ter a opção de aplicar em idosos uma vacina que tenha tido performance melhor, ou que tenha tido um número maior de voluntários testados nessa faixa etária. Nós não temos essa opção — completou.

A recomendação de uso para as duas vacinas foi mantida também pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. A entidade endossa os termos de registro da vacina de Oxford pela Anvisa e pela EMA (agência da União Europeia), mesmo reconhecendo que ainda seja necessário coletar dados mais específicos de eficácia para idosos.

Subgrupos em questão

A comparação que desfavorece a vacina de Oxford em relação a outras é que a parcela de voluntários acima de 65 anos foi maior nos testes de produtos da Pfizer (20%) e da Moderna (25%).

A diferença não abalou a confiança de médicos da área. A Sociedade Brasileira de Infectologia não se manifestou ainda, mas alguns médicos saíram em defesa.

Professor titular da UFRJ, o infectologista Mauro Schechter distribuiu uma mensagem a colegas e amigos:

— Para todas as vacinas, há poucos dados em pessoas acima de 65 ou abaixo de 18. Simplesmente porque éassim que são feitos todos os estudos. Por motivos legais, éticos e de segurança, não se inclui menores e idosos no começo — explica o médico.

"A Alemanha decidiu não usar em maiores de 65 por haver poucos dados clínicos e apenas fez extrapolações de alguns dados (para justificar a decisão",escreveu. “Pelos mesmos motivos, e com os mesmos dados, o Reino Unido decidiu o oposto. Eu tomei a vacina de Oxford. Se pudesse escolher, seria essa que teria tomado mesmo. Tenho 68 anos. Os alemães diriam que sou idiota. Os britânicos, que sou inteligente."

Segundo Schechter, é prerrogativa da agências regulatórias traçar a linha da cautela onde acham apropriado, mas quando faltam informações é preciso tomar decisões arbitrárias. Elas poderiam, por exemplo, vetar uso da vacina em pacientes de insuficiência renal, não incluídas no estudo, mas não o fizeram.

— Numa situação de emergência, eu não acho razoável fazer isso. Numa situação não emergencial, é discutível — disse o infectologista ao GLOBO. — Se pensarmos, por exemplo, que a vacina da Pfizer só teve 4% dos voluntários de teste com mais de 75 anos, não há dados suficientes sobre esse subgrupo. Mas a Alemanha está liberando a vacina para essa faixa etária mesmo assim.

Novas informações

A divisão brasileira da AstraZeneca também se pronunciou sobre o caso.

"Os relatos que apontam que a eficácia da vacina AstraZeneca/Oxford é baixa em adultos com mais de 65 anos não retratam dados mais recentes ou da totalidade já avaliada. A eficácia nesta faixa etária é garantida pelos resultados dos estudos atuais, que esperamos serem publicados pela Agência Europeia de Medicamentos nos próximos dias”, informou, em nota.

A companhia farmacêutica destacou também o bom desempenho da vacina em prevenir casos graves de Covid-19, mostrados já no primeiro estudo preliminar de eficácia. "A publicação de novembro de 2020 no 'The Lancet' demonstrou que os idosos mostraram fortes respostas imunológicas à vacina, com 100% do público alvo gerando anticorpos específicos após a segunda dose", afirmou.

Redução de 67% na transmissão do vírus

A Universidade de Oxford divulgou que sua vacina bloqueia a transmissão do vírus em 67%, o que pode contribuir decisivamente para frear o ritmo da pandemia. É o primeiro estudo que traz evidências da capacidade de um imunizante contra a Covid-19 de reduzir a transmissão do Sars-CoV-2.

Os pesquisadores monitoraram a carga viral dos voluntários com testes RT-PCR. Uma pessoa sem sinais do vírus nas vias aéreas, ainda que infectadas pela Covid-19, não é capaz de disseminar a doença.

Se a transmissibilidade for de fato reduzida, as medidas de distanciamento social poderiam ser relaxadas mais cedo, antes mesmo de ser atingida a imunidade do rebanho.

Porém, em razão da falta de estudos que apontem a eficácia de vacinas na prevenção da transmissão do novo coronavírus, os cientistas têm alertado para a necessidade de que a população imunizada mantenha o isolamento social até que a cadeia de transmissão do vírus seja substancialmente controlada ou neutralizada.

Os dados apresentados pela Oxford ainda dependem de revisões por pares. A vacina foi projetada em um regime de duas doses, mas o mesmo estudo revelou que a fórmula oferece proteção robusta e bloqueia a transmissão em quase 70% dos casos.

Oxford também anunciou que a eficácia geral da vacina aumenta para 82% com um espaçamento de três meses entre as dosagens em voluntários de 18 a 55 anos, referendando o intervalo ampliado pelo Reino Unido e adotado pelo Brasil. E que nenhuma das 12.408 pessoas vacinadas com uma única dose da vacina foi hospitalizada com Covid-19 até 22 dias após a imunização.