Médicos denunciam ao CFM falta de testes, máscaras e até de sabão para combater a Covid-19

Leandro Prazeres e Paula Ferreira
Profissionais da saúde protestam em Manaus contra falta de equipamentos de proteção individual no combate à Covid-19.

BRASÍLIA - Pesquisa inédita realizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) registrou 2,1 mil denúncias de médicos que atuam na linha frente do combate ao novo coronavírus que relatam da falta de exames para detectar a doença à ausência de equipamentos de proteção como máscaras e aventais.

Alguns profissionais denunciaram até a falta de sabão para higienização. Segundo o órgão, os pesquisadores identificaram que nos locais onde há mais denúncias, a probabilidade de que o número de casos e mortes causados pela doença também seja maior.

A pesquisa foi realizada via internet com médicos de todo o país entre os dias 30 de março e 6 de maio. No total, 1.563 profissionais registraram denúncias em uma plataforma disponibilizada pelo CFM.As regiões com mais relatos foram: Sudeste (44%), Nordeste (28%), Sul (12%), Centro-Oeste (8%) e Norte (7), com os estados de São Paulo (21,8%), Rio de Janeiro (11,3%) e Minas Gerais (8,7%) liderando o ranking.

Entre os pontos mais denunciados pelos médicos estão: falta de equipamentos de proteção individual como máscaras, luvas e aventais (38%), falta de insumos como exames para detecção da doença e medicamentos (18,9%), carência de recursos humanos como médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem (13,7%), a falta de material para higienização como sabonete líquido e desinfetantes (13,5%), falhas no processo de triagem (11%) e dificuldade de acesso a leitos tanto de UTI como de enfermaria para os doentes (4,8%).

Na avaliação do presidente do CFM, Mauro Ribeiro, a pesquisa aponta para uma correlação entre a quantidade de denúncias em estado e a quantidade de mortes e casos da doença.

- Os resultados permitem inferir uma associação estatística entre a quantidade de denúncias apresentadas pelos médicos e o número de óbitos e de novos casos de COVID-19 notificados em cada um dos estados. Isto significa que quanto maior o número de denúncias, maior a probabilidade de casos existentes e, consequentemente, óbitos - afirma Ribeiro.

Na opinião do diretor de fiscalização do órgão, Emmanuel Fortes Cavalcante, os dados apontam para a precarização a qual o sistema de saúde vem sendo submetido ao longo dos anos. Ele chama atenção para a falta de itens básicos para impedir a transmissão do vírus.

- O cenário identificado pela pesquisa é pior do que havíamos projetado. Acompanhamos toda a parte de construção da estratégia (de enfrentamento a covid-19) e ela previa uma série de ações que vão atrasando. Os hospitais de campanha estão atrasados, já deveriam estar prontos e isso faz falta. Quando a gente constata que está faltando água, sabão, toalha de papel, isso é sério, porque o abastecimento desses materiais não foi afetado pelo consumo. Isso tudo demonstra uma precarização do sistema - afirmou Cavalcante.

O CFM entregará o relatório às autoridades, incluindo o Ministério da Saúde e também o Ministério Público, solicitando atuação efetiva para mitigar o problema. Na opinião de Cavalcante, a falta de equipamentos pode acabar agravando esse quadro ao expor profissionais de saúde ao risco.

- Em relação às equipes que assistem os doentes, imagine se tivermos um desfalque constante, vai terminar faltando gente, vai faltar pessoa para tratar e cuidar dos doentes. Toda a estrutura está comprometida e a gente precisa lutar para que essa situação seja revertida - disse Cavalcante.

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil tem 188.974 casos acumulados de Covid-19 e 13.149 óbitos.

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