Médicos denunciam maquiagem antes da visita de Teich a hospital federal do Rio

ANA LUIZA ALBUQUERQUE

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - "Isso é desrespeitoso com o pobre do paciente, é assassinato. Eu estou chocada com o que estou vendo aqui", desabafou uma médica do Hospital Federal de Bonsucesso a colegas, por meio de um aplicativo de troca de mensagens.

No último dia 10, ela estava de plantão no setor de anestesiologia da unidade, localizada no Rio de Janeiro. Por acaso, de passagem por outro setor, precisou imediatamente intubar um paciente da Covid-19 em estado grave, que não havia sido socorrido.

A unidade sofre com a insuficiência de profissionais e, por isso, não abriu sequer metade dos leitos prometidos para pacientes do novo coronavírus. No dia 9, o então ministro da Saúde, Nelson Teich, havia visitado o hospital.

Funcionários denunciam que, antes da chegada de Teich, pacientes foram levados às pressas para a unidade, com o objetivo de disfarçar os leitos ociosos.

"Olha só, não adianta abrir o hospital sem ter médico, fazer uma maquiagem [...] Encontrei um paciente saturando 79 [baixa oxigenação sanguínea], grave, com insuficiência renal aguda. Não tem leito no CTI, não tem médico, não tem nada", afirmou a médica em uma mensagem de voz aos colegas, após intubar o paciente.

Em março, o HFB (Hospital Federal de Bonsucesso) foi anunciado pelo Ministério da Saúde no Rio de Janeiro como unidade de referência no tratamento de pacientes do novo coronavírus.

Um dos prédios do hospital chegou a ser esvaziado para receber os doentes. A expectativa era de que 170 leitos fossem abertos, com a possibilidade de aumentar essa oferta à medida que a pandemia se agravasse.

Na prática, no entanto, o hospital acumula leitos ociosos, que não foram abertos por falta de profissionais para operá-los. No dia 30 de abril, a Justiça Federal determinou o afastamento da direção do HFB por omissão no enfrentamento ao vírus.

No despacho, a juíza Carmen de Arruda ressaltou que apenas 17 leitos estavam ocupados por pacientes da Covid-19 e que havia 30 leitos de UTI prontos, mas vazios. Há cerca de dez dias, o TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região) suspendeu a liminar de Arruda.

No dia 8, um dia antes da visita de Teich, cerca de 20 pacientes do novo coronavírus foram transferidos do Hospital Federal Cardoso Fontes para o HFB, segundo relatos de funcionários de ambas unidades.

Os profissionais afirmam que houve uma tentativa de disfarçar que o hospital de Bonsucesso estava funcionando muito abaixo de sua capacidade.

A reportagem teve acesso a trocas de mensagens entre médicos do hospital, que denunciam ter havido uma manipulação para dar ares de normalidade ao atendimento. Os nomes dos profissionais citados na reportagem foram trocados para preservá-los.

Em uma das mensagens, o cirurgião Lucas afirma que as enfermarias foram abertas sem suporte "para bater continência para o ministro e a direção não cair". Ele diz que os cirurgiões foram obrigados a assumir o setor, sem suporte dos médicos clínicos e sem vagas na UTI.

"Jogaram paciente lá sem médico. Esses pacientes complicam de uma hora para a outra. Colocaram dois por enfermaria, transferidos do Cardoso Fontes, para fazer média com o ministro e maquiaram a situação para a direção sobreviver. Armaram essa farsa e quem paga é o paciente."

Em outra mensagem, a médica Júlia diz que ela e uma colega ficaram responsáveis por um setor inteiro e ameaça parar o atendimento. "Se ficarmos sozinhas a noite toda, não vamos atender. Com respaldo do Cremerj [Conselho Regional de Medicina]."

No dia seguinte, Júlia afirma que decidiu se demitir e que, assim, não estará mais disponível para os plantões aos sábados. Ela também diz que foi ameaçada por outros funcionários que queriam transferir pacientes para as enfermarias antes da visita de Teich.

"Fomos bombardeados de funções para liberar logo os pacientes para subir para a enfermaria, pois o ministro estava chegando às 11h. O Marcelo, que 'se apresentou' como chefe do NIR [Núcleo Interno de Regulação], colocou essa pressão na gente", relata.

"Enfim, liberamos as prescrições (sem tempo de olhar cada paciente com calma e fazer possíveis ajustes). Nesse meio tempo, uma paciente que subiu descompensou [ficou em estado grave], e mais de dois enfermeiros vieram nos pedir para subir para examiná-la. [...] Sendo assim: a paciente descompensou e não tinha nenhum médico de dia assistindo a ela."

Outra médica que relatou ameaças também anunciou que se desligaria do hospital. Em uma das mensagens, um médico afirma que o grande problema é a "politicagem".

"Abrir leito só porque alguém de algum cargo político do hospital pediu pode apostar que está assinando atestado de óbito de muito doente [...] Cabe aos superiores não abrir vaga. Não tem profissional para atender é igual a não ter vaga. Inadmissível o que fizeram com a gente e com as colegas do plantão de ontem", diz.

Após a visita, Teich anunciou nas redes sociais que 42 leitos haviam sido liberados no hospital. Procurado, o HFB disse que conta com 65 pacientes Covid-19, mas não informou quantos ocupam leitos intensivos. O número representa menos da metade dos leitos prometidos em março.

Segundo informações da direção do hospital à Justiça Federal, 2.015 profissionais precisariam ser contratados para abrir os leitos vazios. Nas últimas semanas, alguns funcionários foram contratados por meio da RioSaúde, empresa pública de saúde vinculada à SMS (Secretaria Municipal de Saúde).

A assessoria de imprensa do HFB, no entanto, não respondeu quantos profissionais foram admitidos para dar conta dos leitos abertos recentemente. De acordo com fontes do hospital, menos de 20 médicos teriam sido contratados.

Outra queixa dos funcionários do HFB, em especial os enfermeiros e auxiliares de enfermagem, diz respeito à falta de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) adequados. Não há equipamentos em número suficiente e os capotes distribuídos aos profissionais não são impermeáveis.

Funcionários ressaltaram que, durante a visita, Teich e seus acompanhantes utilizaram EPIs de primeira linha, inclusive um óculos de proteção, que não são ofertados a profissionais que estão na linha de frente.

Segundo enfermeiros e técnicos, a CCIH (Comissão de Controle de Infecção Hospitalar) da unidade orientou os funcionários a utilizar máscaras cirúrgicas nas áreas próximas às salas onde estão internados os pacientes Covid-19, afirmando que não haveria necessidade de usar a N-95, de maior filtragem.

"Chegamos à conclusão de que a vida do senhor ministro da Saúde e da comitiva da direção do HFB é mais importante que a de tantos profissionais que estão na linha de frente. Outra conclusão é que os EPIs que até hoje utilizamos não nos concedem proteção", diz texto dos funcionários.

Em nota, a direção do HFB afirmou que já foram investidos mais de R$ 2,3 milhões em EPIs. Também disse que recebeu do Ministério da Saúde 180 litros de álcool 70% e cerca de 180 mil equipamentos de proteção.

A reportagem não obteve resposta a respeito de diversos questionamentos, como sobre o número de leitos de UTI abertos, a quantidade de profissionais contratados por meio da RioSaúde, e a razão para a transferência dos pacientes Covid-19 do Hospital Cardoso Fontes.

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