Médicos do hospital paulista Emílio Ribas contestam gestão após serem pegos de surpresa por mudanças

Giuliana de Toledo
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Edilson Dantas / Agência O Globo

SÃO PAULO — Médicos do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, hospital referência no atendimento da Covid-19 na rede pública de São Paulo, relatam terem sido pegos de surpresa por uma mudança nos últimos dias de 2020. A notícia de que o 8º andar do edifício será o quinto dele a receber serviços de uma empresa terceirizada, contratada pelo governo estadual para ajudar no atendimento de UTI e enfermaria a pacientes com coronavírus, abriu uma discussão entre parte do corpo clínico e a direção.

— Agora, dos sete andares do hospital, quatro e meio estão com a SPDM — diz ao GLOBO a infectologista Marta Ramalho, que trabalha há mais de 30 anos no Emílio Ribas, citando a sigla da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, organização social (OS) que atua em diversos serviços de saúde pelo país. Na pandemia, a entidade filantrópica, além do Emílio Ribas, já foi contratada, por exemplo, para o hospital de campanha do Pacaembu, criado pela prefeitura.

O descontentamento de Ramalho, que teme que a expansão dos terceirizados signifique uma futura privatização do hospital, viralizou entre colegas após um “desabafo”, como explica, escrito em um grupo de WhatsApp. Para Eder Gatti, diretor da Associação dos Médicos do Instituto Emílio Ribas, a mensagem se espalhou rapidamente por conter questionamentos compartilhados por outros profissionais da instituição.

— Não são feitos concursos públicos desde 2014, por isso o quadro do Emílio Ribas não foi renovado. Quando entrou a Covid, precisamos abrir leitos da noite para o dia e não tínhamos profissionais para isso. Entendemos que por conta da Covid a terapia intensiva tenha que ser terceirizada, mas precisamos de uma medida corretiva a médio prazo — analisa o infectologista, que trabalha no pronto-socorro.

Luiz Carlos Pereira Júnior, diretor do hospital, afirma que a reposição de vagas por meio de concursos públicos já foi pedida à Secretaria da Saúde e que não há qualquer plano de privatização do local. Segundo ele, os andares ocupados pela SPDM refletem uma situação temporária necessária durante a pandemia, “e não um sucateamento”.

— Já pedimos em novembro [de 2020] para a coordenadoria a reposição de funcionários exonerados, aposentados, falecidos, pensando no que será o hospital a partir de abril ou maio [de 2021], quando acreditamos que vamos poder respirar com mais tranquilidade — conta Pereira Júnior.

Ainda que o contrato com a OS possa valer até 31 de dezembro de 2021, conforme publicado no Diário Oficial, os serviços devem ser encerrados antes, diz Pereira, a depender do cenário da pandemia.

— A condição urgente da pandemia exigiu que fôssemos ágeis, e você só consegue isso com contratos terceirizados. Nós passamos de 12 para 60 leitos de UTI em 40 dias — justifica ele, que diz que R$ 70 milhões já foram investidos em serviços, equipamentos e insumos para o Emílio Ribas enfrentar a emergência sanitária. Outros R$ 34 milhões foram recebidos para concluir uma reforma no edifício, iniciada há seis anos. A entrega da obra estava inicialmente prevista para 2016.

Resultados

A qualidade dos atendimentos dos terceirizados também tem sido um ponto de discussão entre a chefia e a Associação dos Médicos. O grupo já entregou uma solicitação, ainda não atendida, para ver dados que comparem as UTIs sob gestão direta e sob gestão da OS. Segundo Gatti, assim seria possível conhecer se as taxas de alta e letalidade, por exemplo, são semelhantes.

Já para Pereira, não faz sentido “dizer que morre mais ou menos em uma determinada equipe”.

— Existe um padrão de trabalho, com protocolos institucionais. A SPDM não é um hospital. O que existe é o hospital Emílio Ribas. Eles seguem os protocolos da instituição — defende Pereira Júnior. — Não dá pra estabelecer diferença de resultados. Estamos atentos a todos os resultados e os analisamos atentamente. Vários indicadores são mapeados em todas as unidades, sem distinção de regime trabalhista.

Entre os médicos terceirizados, as especialidades não seguem o que seria habitual no hospital, focado em infectologia. Essa "descaracterização", como define Ramalho, prejudica também a formação dos médicos residentes. Por estarem em formação como infectologistas, não podem aprender com o trabalho de colegas de outras áreas. Na prática, conta a médica, não há animosidade entre os profissionais, mas o trabalho tem sido feito com distanciamento entre os dois grupos, o do “Emílio raiz” e o dos terceirizados.

Pereira reconhece que a situação dos residentes não é ideal, mas afirma que também é transitória.

— Claro que isso traz desconforto para formação do residente, mas estamos vivenciando um momento histórico — diz o diretor.

Na USP

O fim de ano também trouxe incertezas em torno de contratações no Hospital Universitário (HU) da USP. No final de dezembro, o pronto-socorro do local, que atende pelo SUS a população da região oeste da capital paulista, se viu na iminência de perder sete médicos. Eles foram avisados que seus contratos, feitos via Fundação Faculdade de Medicina, acabariam junto com o ano de 2020.

Essa situação deixaria diversas lacunas na escala de janeiro, o que poderia levar ao fechamento de serviços por falta de médicos, conta o infectologista Gerson Salvador, que trabalha no local. A direção do HU, no entanto, conseguiu que os contratos fossem prorrogados até fevereiro. Novos editais para substituir os profissionais começaram a receber inscrições na quarta-feira (6).

Em nota enviada à reportagem, a assessoria de comunicação do hospital informa que “a Universidade de São Paulo está organizada e tomando todas as providências necessárias para que não ocorram quaisquer prejuízos no atendimento atualmente realizado”.