México, por décadas destino e lar de milhares de exilados políticos

Por Sofia MISELEM
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León Trotsky e sua esposa, Natalia Sedova, em 1º de janeiro de 1937, no México

Fiel a sua tradição de receber exilados políticos - do revolucionário russo León Trotsky a esquerdistas sul-americanos como a viúva de Salvador Allende, passando por republicanos espanhóis, entre eles intelectuais como o cineasta Luis Buñuel -, o México recebeu o boliviano Evo Morales na terça-feira (13).

O político boliviano, que renunciou à Presidência no domingo sob pressão das Forças Armadas, chegou ao México nesta terça. Há décadas, o México tem sido refúgio e lar de milhares de perseguidos e exilados políticos, com alguns rostos conhecidos e uma multidão de anônimos.

O embaixador mexicano aposentado Agustín Gutiérrez Canet explica para a AFP que o asilo a Morales se justificado pelas convenções interamericanas firmadas pelo México.

"O fundamental para concedê-lo é que a pessoa seja perseguida por razões de natureza política que ponham em risco sua vida, sua liberdade, ou sua integridade pessoal", explica, acrescentando que o caso de Morales foi de "urgência".

- Custo político? -

Da oposição mexicana, o conservador Partido Ação Nacional (PAN) condena o asilo a Morales. Já o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que em suas sete décadas de poder recebeu milhares de perseguidos políticos, permanece em silêncio.

"Trata-se de um Ditador, reelecionista! É persona non grata no México", tuitou o ex-presidente Vicente Fox (2000-2006), do PAN.

A escritora mexicana Elena Poniatowska, Prêmio Cervantes 2013 e ligada ao presidente Andrés Manuel López Obrador, lançou a polêmica com um tuíte no sábado: "Por que os presidentes da República querem se eternizar no poder? Por que Evo Morales insiste em acreditar que não há ninguém além dele?".

Gutiérrez Canet considera que conceder asilo a Morales não terá custo político para López Obrador.

"Pode haver opiniões distintas, mas cada um reflete uma afiliação política de esquerda, ou de direita. O importante é que o asilo político não pode estar sujeito a considerações ideológicas", afirmou.

- Desde Sandino -

Embora León Trotsky seja o caso mais notável entre os primeiros a se beneficiarem do asilo mexicano, para Gutiérrez Canet, o rebelde nicaraguense César Augusto Sandino "foi o primeiro político" acolhido pelo México. Decepcionou-se em 1930, ao não receber o apoio prometido do governo a sua revolta contra os americanos.

Após ser expulso da União Soviética por Josef Stálin em 1929, Trotsky peregrinou por Turquia, Noruega e França, chegando ao México em 1937.

"Foi o muralista Diego Rivera (companheiro de Frida Kahlo) que pediu ao presidente Lázaro Cárdenas (1934-1940) que lhe desse asilo, mas sabemos as consequências do que aconteceu. A proteção mexicana não funcionou e foi vítima de Ramón Mercader", seu assassino, em 1940, relembra.

Cárdenas também é reconhecido por asilar espanhóis após a vitória de Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola. O governo republicano no exílio se estabeleceu no México de 1939 a 1946.

Mais de 20 mil espanhóis desembarcaram no país. Entre eles, estavam políticos, renomados intelectuais, empresários, anônimos e os 456 "Meninos de Morelia", como são chamados os menores que chegaram ao estado de Michoacán para refazer sua vida. Muitos nunca mais tiveram notícias de seus pais.

O poeta espanhol León Felipe era um habitué dos cafés da boemia mexicana, enquanto Luis Buñuel se naturalizou mexicano. Seu memorável filme "Os esquecidos" foi rodado na capital mexicana.

Em 1955, os irmãos Fidel e Raúl Castro se exilaram no México, de onde promoveram seu desembarque em Cuba a bordo do "Granma".

As ofertas de refúgio mexicanas se intensificaram nos 1970, quando se sucederam golpes de Estado e ditaduras militares na América do Sul.

A saída de Hortensia Bussi após o golpe de 11 de setembro de 1973 contra Salvador Allende, no Chile, foi dramática. Refugiada na embaixada mexicana, cujos serviços de água e luz foram cortados pelos golpistas, o México teceu um delicado, mas firme trabalho diplomático para obter o salvo-conduto e tirar a família Allende e vários de seus colaboradores do país.

Temendo ser derrubado, o avião mexicano saiu do espaço aéreo chileno em 15 de setembro. Nesta data, celebra-se, no México, o tradicional "grito de independência", com o soar do sino do Palácio Nacional.

O embaixador mexicano Gonzalo Martínez Corbalá relatava, emocionado, como apareceu, no avião, um pequeno sino e ali lançou, aplaudido pelos passageiros, o "grito".

Seguiram-se outros latino-americanos, sobretudo, argentinos e uruguaios. Nos anos 1980, é a vez da onda de centro-americanos, que fogem da guerra civil e da perseguição, como a ativista guatemalteca Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz.

Marta de Cea, promotora cultural argentina de 74 anos, chegou ao México em 1976, após ser sequestrada pela ditadura. Entrou no território como turista, mas as autoridades mexicanas tinham claro o entendimento que tentava salvar sua vida.

"O Ministério do Interior sabia da nossa situação. Nos ajudaram muito. Continuo aqui passados mais de 40 anos. Me tornei cidadã mexicana, aqui formei um lar. Minhas filhas são mexicanas. Sou muito agradecida a este país", resume ela, com a voz embargada pela emoção.