México e EUA querem relançar luta antidrogas após fracassada ofensiva militar

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México e Estados Unidos vão lançar um novo acordo de cooperação antidrogas em face da fracassada ofensiva militar implantada há 13 anos, durante visita do secretário de Estado americano, Antony Blinken, à Cidade do México nesta sexta-feira (8).

O novo acordo substitui a Iniciativa Mérida, encerrada pelo presidente de esquerda Andrés Manuel López Obrador. Segundo ele, o país não quer mais armas, nem helicópteros, para subjugar os poderosos cartéis.

"Depois de 13 anos da Iniciativa Mérida, é hora de uma nova abordagem para nossa cooperação em segurança", disse Blinken ao iniciar o primeiro Diálogo de Segurança de Alto Nível.

"Adeus ao Plano Mérida, Bem-vindo Entendimento Bicentenário", completou, por sua vez, o chanceler mexicano, Marcelo Ebrard.

"Temos que fazer mais para acabar com o tráfico de armas, entorpecentes e o tráfico de pessoas, fortalecer a segurança fronteiriça e portuária, desmantelar os sistemas financeiros que sustentam o crime organizado, erradicar a impunidade e responsabilizar os violadores de direitos humanos", acrescentou.

No cargo desde 2018, López Obrador pede investimentos em comunidades carentes expostas ao crime no México e na América Central, uma política que também seria uma forma de conter a crescente migração em condição ilegal para os Estados Unidos através do seu país.

Um total de 652 migrantes centro-americanos, mais da metade menores, foram detidos na noite de quinta-feira em Tamaulipas, na fronteira com os Estados Unidos.

- "Não será fácil" -

No âmbito da Iniciativa Mérida, Washington desembolsou US$ 3,3 bilhões em assistência militar e serviços de consultoria.

Mas López Obrador assegura que o plano fracassou em seu objetivo de desmantelar as organizações criminosas e, ao contrário, fez disparar a violência.

Desde 2006, o México, país de 126 milhões de habitantes, acumulou mais de 300.000 assassinatos, a maioria atribuídos ao crime organizado, e cerca de 90.000 desaparecidos.

Os Estados Unidos garantem, no entanto, que a Iniciativa Mérida fortaleceu a cooperação, o profissionalismo e a transparência das agências mexicanas de aplicação da lei.

"O objetivo de forjar uma nova estratégia comum não será fácil", disse à AFP o presidente do "think tank" Inter-American Dialogue, Michael Shifter, para quem a Iniciativa Mérida estava "morta".

"Se medido em função da redução do tráfico de drogas e da violência no México, ou do fluxo de armas dos Estados Unidos, claramente fracassou", avaliou.

- Atacar a raiz -

De fato, no começo de agosto, o governo mexicano processou nove grandes fabricantes e dois distribuidores de armas por comércio "negligente e ilícito" que incentiva o tráfico de drogas e a violência em seu território.

O México afirma que entre 70% e 90% das armas ilegais apreendidas são procedentes dos Estados Unidos.

"Vamos nos concentrais mais intensamente do que antes na raiz e no núcleo das forças que nos ameaçam, abordando as razões subjacentes pelas quais continuam existindo e crescendo", afirmou o secretário americano de Segurança Nacional, Alejando Mayorkas.

A nova abordagem reforça, no entanto, que será mantida a perseguição aos criminosos.

A queda de grandes chefões como Joaquín "El Chapo" Guzmán provocou uma fragmentação dos grandes cartéis em múltiplas quadrilhas que dependem agora de uma "carteira criminosa mais diversa", destaca o centro de pesquisas Insight Crime.

O crime organizado não só aproveita os mais de 3.000 km de fronteira para fornecer drogas ao maior mercado consumidor do mundo, como também está envolvido no tráfico de armas e de pessoas, roubo de combustível, sequestro, extorsão, lavagem de dinheiro e corrupção de autoridades.

"As organizações criminosas estão (...) aproveitando as novas tecnologias. Portanto, devemos ser igualmente criativos e ágeis", afirmou Blinken.

- Fechando fissuras -

Os esforços conjuntos foram afetados pela pandemia da covid-19 e por episódios como a captura nos Estados Unidos, em outubro de 2020, do general Salvador Cienfuegos, ex-ministro da Defesa mexicano, por supostos vínculos com o tráfico de drogas.

Após um acordo incomum, Washington deportou Cienfuegos ao México e entregou supostas provas contra ele para um eventual julgamento, mas o Ministério Público mexicano as indeferiu em meio às acusações de López Obrador de que a DEA (na sigla em inglês) havia fabricado as provas.

Posteriormente, o governo promoveu uma reforma que limitou a atuação de agentes estrangeiros no México.

Cauteloso ante o discurso pró-legalização das drogas, López Obrador acredita que os Estados Unidos poderiam apoiar seus programas de desenvolvimento.

Embora as tensões orçamentárias em Washington tenham atrapalhado essa meta, o México desempenha um papel fundamental na contenção da crise migratória que complica a vida de Biden. López Obrador poderia tirar proveito dessa situação em outras questões, diz Shifter.

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