Múcio diz que chefe do Batalhão da Guarda Presidencial será punido caso seja provada omissão para conter invasão de golpistas no Planalto

O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou que o comandante do Batalhão da Guarda Presidencial do Exército, coronel Paulo Jorge Fernandes da Hora, poderá ser punido pelo Exército caso seja provado que ele não agiu corretamente para conter golpistas que invadiram o Palácio do Planalto durante os atos de 8 de janeiro. Um vídeo gravado no interior do palácio mostra Hora discutindo com agentes da tropa de choque da PM-DF enquanto golpistas depredavam as sedes dos Três Poderes.

— Esse próprio vídeo eu entreguei, porque mandaram para mim, e está sendo investigado. Se for provado, por que uns dizem que ele estava reclamando de procedimento, outros dizem que ele era culpado. A minha preocupação, e a do presidente também, é que nós não partamos para punir quem não merece, mas punir quem merece. Se for provado, ele será condenado.

Segundo o ministro, porém, é preciso evitar condenações precipitadas. Para Múcio, o principal erro foi ter permitido que os ônibus dos manifestantes golpistas desembarcassem em frente ao Quartel-General na véspera dos atos. Na ocasião, o Exército já estava sob comando do general Júlio César Arruda, demitido no sábado após desconfiança de Lula. Em seu lugar foi nomeado o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva.

— Se você perguntar qual foi o erro, foi permitir que as pessoas que vieram nos 130 ônibus para Brasília pudessem entrar no acampamento. Se ficasse do lado de fora, se tivesse ficado numa praça qualquer, o problema é da polícia do GDF. Como entrou no território do Exército, parece que aqueles 200 se multiplicaram e viraram 5 mil.

Múcio ainda afirmou que estava com dificuldade de tratar a revogação da designação do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, para comandar o 1º Batalhão de Ações e Comandos, unidade de Operações Especiais. Cid foi escolhido para o posto em maio, durante a gestão anterior, mas só o assumiria em fevereiro.

Segundo Múcio, há um "espírito" e um "ambiente político muito forte". O ministro afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exigiu uma solução para o caso nas ligações que antecederam a troca do comando do Exército.

— Eu estava com dificuldades de tratar esse assunto (troca do Cid) no comando do Exército, com muita dificuldades, há um espírito de corpo muito forte, há ambiente político também muito forte. Quando foi 6h40, o presidente antes de viajar para Roraima, ligou outra vez, 6h40, do sábado e disse 'o que é que você vai fazer com esse negócio? Eu quero que você resolva. Vamos ver como você vai resolver isso' — afirmou.

No sábado, Lula demitiu o comandante do Exército general Júlio César de Arruda. Múcio já havia afirmado que pesou para a decisão uma "fratura de confiança" na relação com o Exército.

Como o GLOBO mostrou, Lula quis demitir o general devido ao comportamento do militar em relação aos acampamentos golpistas diante do Quartel General do Exército, em Brasília. O presidente já havia criticado o que chamou de conivência do Exército com os terroristas que invadiram o Palácio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo integrantes do governo, Arruda teria sido resistente à tentativa de pacificação da relação entre o presidente e o Exército.

A situação envolvendo o Coronel Cid agravou o incômodo com Arruda. Ele já havia recebido do Planalto uma sinalização de que esperava que a situação fosse resolvida.

— Não era só do Cid. Eram outras coisas, a questão dos acampamentos, como se comportou de pronto no dia 8. Foi uma série de coisinhas que foram acontecendo. Gosto muito do general Arruda, de quem me tornei amigo, lamentei bastante. Mas tem certas decisões que a gente tem que tomar. E tenho absoluta certeza que foi a decisão acertada, foi o que nós fizemos, o presidente ficou satisfeito e nós estamos aí começando uma nova etapa — afirmou Múcio sobre a troca de comando.

Múcio, no entanto, afirmou que torce para que o general Tomás faça "aquilo que o presidente deseja que faça". O ministro pontuou que é importante que nasça um "clima de confiança e que é "importante que essa iniciativa seja do Exército.

— Estou torcendo para que o que o general Tomas vá dizer ao presidente que vai fazer seja aquilo que o presidente deseja que faça. A gente precisa que agora, para que nasça esse clima de confiança, de que o outro saiba o que vai se fazer, é muito importante que essa iniciativa seja do Exército.

Segundo Múcio, Tomás tomou à frente para decidir o desfecho do caso Cid e se comprometeu a combinar com o o presidente e com o ministro as providências cabíveis ao caso.

— Primeiro que a gente precisa ter acesso a isso, o que é que há. Presidente foi o primeiro a dizer 'olha, essa história de condenar só por condenar, eu já fui vítima disso'. Vamos averiguar o que tem, se nós vamos ter acesso a esse inquérito, ou nessas denúncias, porque não tem nem inquérito. E o general Tomás pediu para que ele tomasse à frente para decidir o que é que vai fazer. Mas que tomará as providências e combinará comigo e com o presidente.

Na véspera da demissão, Lula se reuniu com Múcio e os comandantes das Forças no Palácio do Planalto para tratar de investimentos na área da Defesa. Múcio relatou à Globo News que a conversa foi "ótima", mas que não sentia o presidente "motivado" pela falta de confiança.

— Foi uma conversa ótima, mas eu não senti o presidente motivado. A coisa da falta de confiança, depois daquele episódio, não havia conversa que fizesse ele se entusiasmar. Ele fazendo discurso da falta de confiança na questão dos militares, isso era um assunto redundante, que eu senti que não estávamos conseguindo virar a página.

Múcio ainda afirmou que Lula teria pontuado as insatisfações durante conversa com o novo comandante do Exército general Tomás Miguel Ribeiro Paiva. Em resposta, ele teria pedido um “crédito de confiança” para colocar “as coisas no lugar”.

— Ele disse ‘olha: faltou isso, a questão dos acampamentos, aquilo eu não gostei’. Falou uma série de coisas e o general disse que precisava de um crédito de confiança para que a gente coloque as coisas no lugar. Está sendo dado esse crédito de confiança, com votos para que tudo volte ao normal.