Múcio diz que novo comandante do Exército tem "costuras a fazer" e que "agora" coisas estão arrumadas

Ministro da Defesa, José Múcio, durante entrevista coletiva no Palácio do Planalto

Por Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - Após se encontrar com o novo comandante do Exército, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou nesta segunda-feira que o general Tomás Paiva tem "algumas costuras a fazer", mas se mostrou otimista ao destacar que "agora" as coisas estão sendo arrumadas.

"Foi ótimo (o encontro), uma conversa demorada. Ele (o novo comandante) está animado. É seu primeiro dia, foi se reunir lá com os comandados dentro das suas dificuldades e vamos ver o que vai acontecer, se Deus quiser, vai dar certo", disse.

"Ele prometeu servir ao país no comando do Exército. Está entusiasmado. Evidentemente que existem algumas costuras internas para fazer, a coisa foi muito rápida, mas nós tínhamos que fazer o que foi feito", reforçou ele, em conversa com jornalistas após a reunião.

Múcio tomou café da manhã com Tomás Paiva, que assumiu o cargo neste final de semana após a troca do ex-comandante da Força, o general Júlio César Arruda.

O ministro da Defesa afirmou não ter dado nenhuma orientação ao novo comandante sobre como lidar com as tropas. "Não, ele sabe, melhor que eu, quem sou eu para ensinar ele como lidar com a tropa. Tem liderança, é amigo do general Arruda com quem eu falei agora pela manhã, desejei sucesso na cirurgia dele. As coisas estão tranquilas", disse.

Múcio justificou novamente a troca no comando do Exército. Segundo ele, houve uma "quebra de confiança" após os atos de 8 de janeiro e os acampamentos nas imediações de instalações militares.

"Desde a questão dos acampamentos, dia 8, na relação houve uma quebra de confiança de maneira que fica muito difícil de trabalhar quando as pessoas ficam sob suspeita, se vai ou não tomar a providência. Mas está tudo em paz, está tudo calmo, final de semana evidentemente de muito trabalho, mas acho que as coisas agora estão arrumadas", afirmou.

Investigações oficiais já indicam, com base em depoimentos, que teria havido resistência de militares em desativar acampamentos como o do QG do Exército em Brasília, de onde partiram envolvidos nos atos de invasão e destruição das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também já levantou publicamente suspeitas sobre a atuação leniente das Forças Armadas na prevenção dos atos violentos.

PUNIÇÕES

Em linha com o habitual tom cordial, Múcio não quis opinar se as investigações dos atos golpistas vão ganhar força a partir de agora, após a mudança no comando do Exército. Preferiu falar em punição em casos comprovados.

"Não digo se vão ganhar força ou se não vão ganhar força, a substituição não foi por causa disso. Acho que essas coisas terão de ser esclarecidas. Ninguém pode ser condenado previamente sem que as coisas sejam detectadas. O direito da dúvida tem que ser dado de maneira que as coisas vão se acalmar", disse.

Questionado sobre como Lula está diante das investigações dos golpistas, o ministro reafirmou que é preciso apurar.

"Tem que ser apurado, quem for culpado vai pagar, quem não for, evidentemente temos que despolitizar as coisas. Quem patrocinou os atos, quem quebrou, que teve intenção de vandalismo, de golpe, tudo isso a Justiça vai tratar", disse.

"Primeiro, tem que saber se são ou não são. Em sendo, tem que se providenciar, mas a gente não pode no calor da emoção estar atacando as pessoas que não tem culpa", destacou ele, em outro momento, ao ser questionado sobre a suposta permanência de golpistas e militares dentro desses atos.