Música ativa diferentes áreas do cérebro e desenvolve habilidades

Priscilla Aguiar Litwak
Banda. Julie Vernier no vocal; Amin, na guitarra; Nihman, na bateria; e Aliyah, no teclado

RIO - Rock, pop, jazz, samba, funk, bossa nova. Independentemente do gênero, a música tem o poder de ativar o nosso cérebro de forma global — como se praticamente todas as áreas conversassem entre si — e seu estudo desenvolve uma série de habilidades, das mais racionais ao desenvolvimento da inteligência emocional. De acordo com a doutora em neurociências, musicista e especialista em neurociência da música Julie Wein, são tantos benefícios que é difícil enumerá-los. Mas ela destaca melhora de audição, memória, habilidades motoras, linguísticas, matemáticas e interação social.

Segundo Julie, pesquisas apontam que músicos têm uma maior agilidade de comunicação entre os dois lados do cérebro e facilidade de fixar novas conexões cerebrais.

— A música ativa os dois hemisférios do nosso cérebro, mas isso de que o lado direito é criativo e o esquerdo é racional é um pouco lenda. Essa divisão não é exatamente assim tão clara. A criatividade depende da comunicação entre os dois hemisférios. A música tem a capacidade de ativar o nosso cérebro de uma forma geral, e eu gosto de dizer que a educação musical é um exercício muito completo para o nosso cérebro — diz.

Sobre a consolidação da memória, uma das habilidades desenvolvidas pela música, a pesquisadora dá o exemplo de uma pessoa que tem Alzheimer e não se lembra mais do próprio filho, mas se recorda de uma canção que ouvia na infância.

— É como se ela ficasse em uma área protegida e é uma das últimas regiões a serem atingidas pela doença — explica.

Julie ressalta que a audição é uma das primeiras habilidades do ser humano, o que também pode ajudar a explicar o poder da música em desenvolver competências pessoais e sociais.

— Há estudos que mostram que o feto entende melhor a voz da mãe cantada em vez de falada, e que a voz falada é interpretada como um tipo de música. Para mim, a música é uma característica inata ao ser humano. Outros impactos também são observados em diversos estudos que mostram que, além de propiciar hormônios do prazer, a música pode melhorar o sistema imunológico — atesta a especialista.

Benefícios dos acordes na prática

Xará da especialista em neurociências, a fisioterapeuta francesa e moradora da Zona Sul Julie Vernier comprova esses benefícios na prática. Na casa dela, a família toda estuda música: ela, o marido e os três filhos. Matriculados na School of Rock, que foi inaugurada em outubro do ano passado, em Ipanema, eles ensaiam juntos e formam quase uma banda completa. Julie, no vocal; o marido na bateria; e os filhos, Amin Adoudou, de 13 anos, na guitarra; Nihman,de 11, bateria; e Aliyah, de 5, no teclado.

— Eu percebo que eles têm mais responsabilidade, mais concentração, também têm o espírito coletivo, a criatividade, e isso se reflete na escola regular. E como eu também estudo, sei que está diretamente ligado com o que a gente vem aprendendo com a música — conta.

Eugênio Pimenta, um dos sócios da unidade, ressalta que o objetivo principal da escola são o desenvolvimento pessoal e a integração social.

— É claro que se a criança ou o adulto tem um sonho de se tornar um músico profissional, queremos que esse desejo seja realizado e damos todas as condições para isso. Mas nosso foco principal é o de desenvolver habilidades — afirma Pimenta.

O pianista Antonio Adolfo, à frente da Centro Musical de mesmo nome, com unidades no Leblon e em Botafogo, conta que criou uma metodologia própria que também visa ao aprimoramento de competências. Referência na área, a escola em 2020 completa 35 anos de inauguração.

— Eu tive o privilégio de ter contato com a música desde que nasci, de ter estudado com grandes músicos e ter tido experiências profissionais incríveis com grandes nomes no Brasil e no exterior e decidi criar um método que une um pouco de toda a minha vivência ao longo desses anos. Começou com algumas aulas, e depois resolvemos criar a escola, hoje administrada pelas minhas filhas, que são excelentes musicistas. E minhas netas estão indo pelo mesmo caminho. Percebo que mais do que músicos profissionais, estamos conseguindo formar pessoas realizadas — diz.

O músico Fred Ferraz, dono da Guitar Club, em Ipanema, reforça que o aprendizado musical torna-se um recurso para a vida prática dos alunos, no sentido de que muitos conceitos e vivências nas aulas e oficinas têm aplicabilidade real nos ambientes empresariais e familiares.

— São pequenas doses de respeito, altruísmo, autoconfiança, recuperação da autoestima e valorização das relações sociais que serão capazes de trazer uma real modificação em nossa sociedade — diz Ferraz.

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)