Grupo Prisa quer crescer na América Latina após reduzir dívidas

Madri, 23 mar (EFE).- O grupo espanhol Prisa, proprietário dos jornais "El País" e "As", pretende se expandir no negócio de veículos de comunicação, tanto na Espanha como na América Latina, quando tiver deixado as dívidas em níveis "razoáveis" e estabilizado a estrutura de capital.

"Acredito firmemente na América Latina, em seu futuro econômico, político e cultural", ressaltou o presidente do grupo, Juan Luis Cebrián, em entrevista à Agência Efe.

Além de marcas globais com presença em múltiplos países, Prisa conta com empresas emblemáticas na América Latina, como "Caracol Radio", na Colômbia; "W Radio", no México; e o grupo "Ibero Americana Radio", no Chile. Cebrián garantiu que o grupo não cogita "em nenhum caso" retirar investimentos quando for concluída a venda de Santillana, a divisão de educação.

O presidente de Prisa revelou estar confiante que, com a negociação de Santillana - "que é um grande ativo" - e com "alguns esforços coordenados" de credores e acionistas, seja possível reduzir a dívida até níveis "relativamente baixos".

A dívida bancária total do grupo Prisa se situou em 1,486 bilhões de euros no fim do ano passado, 10,5% a menos que um ano antes. Em 2018, a empresa deverá quitar a segunda parte de um empréstimo que exigirá um pagamento de 956 milhões de euros.

Uma vez resolvido o problema da dívida, Prisa poderá se dedicar "a desenvolver o negócio de veículos de comunicação na Espanha e na América Latina com aquisições, fusões e desenvolvimentos orgânicos que agora estão limitados pela própria existência da dívida", explicou o mandatário.

Segundo Cebrián, a ideia é vender 100% de Santillana, divisão da qual Prisa tem uma participação de 75%, já que o outro acionista, o fundo Victoria Capital Partners, também quer se livrar da parte possui.

"O mais lógico é que os 100% de Santillana acabem em outras mãos", analisou Cebrián.

O grupo recebeu as ofertas não vinculantes "há algumas semanas" e espera as vinculantes "para finais de abril", confirmou o presidente. Sobre o dinheiro que Prisa deseja receber com esta operação, Cebrián disse que o grupo nunca divulgou números, mas que o objetivo é conseguir um preço que permita resolver o problema da dívida "em termos razoáveis" e que "não cogita fazer mais desinvestimentos em nenhum caso".

"Não só queremos manter tudo no que se refere a imprensa, rádio e televisão, mas inclusive aumentar esse perímetro no futuro uma vez que se tenha resolvido o problema da dívida e estabilizado o capital", explicou.

Cebrián relatou que o grupo conta com empresas fortes tanto no ramo de veículos de comunicação como no de educação, mas que não dispõe de capacidade financeira para investir no desenvolvimento de ambos. Quanto à reestruturação de capital, o mandatário disse que a estrutura atual "não permite contemplar o futuro com a estabilidade necessária".

De acordo com o dirigente, Prisa tem um free float (ações que são negociadas livremente no mercado) muito reduzido - cerca de 18% - e o capital está "muito concentrado em poucas mãos, mas ao mesmo tempo muito fragmentado", já que "não há nenhum grupo de referência".

O objetivo é contar com um "capital estável" que garanta o futuro do grupo e sua "continuidade histórica e cultural" e, ao mesmo tempo, com acionistas que queiram investir a curto e médio prazo com um interesse apenas financeiro.

Sobre uma eventual mudança no comando de Prisa, Cebrián comentou que alguns acionistas estão fazendo "muito barulho" em torno do assunto, "aplicando as táticas de costume desses investidores, que buscam soluções a curto prazo para seus interesses e não parecem preocupados com soluções a médio e longo prazo para o interesse do resto dos acionistas e da companhia".

O presidente do grupo lembrou que anunciou na Junta Geral de Acionistas que implementaria um plano de sucessão, que já foi definido pelo conselho de administração, embora ainda não tenha sido aplicado.

"Se não foi feito ainda é porque tenho a incumbência de resolver o problema da dívida e a estrutura de capital. Até onde eu sei, e tenho boas razões para saber, a maior parte do capital apoia a atual direção, independentemente se é previsível que haverá mudanças no futuro, que eu mesmo anunciei há mais de um ano", acrescentou.

Cebrián se mostrou convicto de que haverá processos de consolidação de grupos de veículos de comunicação tanto na América Latina como na Europa como consequência da revolução digital, concentrações que conviverão com o desaparecimento de empresas do setor e o nascimento de outras, que serão nativos digitais: "Todas as revoluções produzem vítimas", disse.

Sobre a posição do grupo Prisa na América Latina, Cebrián argumentou que a região tem um bônus demográfico, uma riqueza potencial formidável que a Europa não tem e uma grande criatividade". No entanto, detalhou que a América Latina "não é um todo" e que "alguns países estão fazendo melhor que outros". EFE