Machismo: como patrocinadores e repercussão mundial devem derrubar presidente de Tóquio-2020

Carol Knoploch
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Yoshiro Mori, presidente do Comitê Organizador dos Jogos de Tóquio, deve renunciar nesta sexta-feira após repercussão negativa a respeito de suas declarações sexistas e depreciativas às mulheres. Segundo o jornal "The Japan Times" é possível que ele seja substituído pelo ex-presidente da Associação Japonesa de Futebol e prefeito da Vila Olímpica, Saburo Kawabuchi.

A renúncia, segundo outro jornal local, "Hokkoku Shimbun", pode acontecer na reunião de membros da diretoria executiva e conselheiros do comitê.

Kawabuchi, de 84 anos, representou o Japão no futebol nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964 e ajudou o país a ser co-anfitrião da Copa do Mundo em 2002, juntamente com a Coreia do Sul.

— Já me decidi. Vou falar com as pessoas no dia 12 – disse Mori ao Hokkoku Shimbun.

No dia 3 de fevereiro, em uma reunião sobre a competição, Mori disse que as mulheres falam demais, são muito competitivas e que atrapalham o andamento das reuniões. Por isso, segundo ele, não seria interessante ter mais mulheres em cargos de chefia. Disse ainda que as mulheres que trabalham com ele, sabem o seu lugar. O conselho do comitê conta atualmente com 24 membros, cinco mulheres.

A polêmica sobre o ex-primeiro-ministro japonês, propenso a gafe, é mais um problema que os organizadores e o Comitê Olímpico Internacional (COI) enfrentam enquanto tentam realizar os Jogos adiados em meio à pandemia do novo coronavírus. A Olimpíada está prevista para 23 de julho.

Mori chegou a se desculpar pelas falas machistas no dia seguinte ao episódio mas garantiu que ficaria no cargo. Segundo a agência Reuters, no entanto, quando perguntado se ele realmente achava que mulheres falavam demais, Mori falou: “Eu não ouço muito as mulheres ultimamente, então eu não sei”.

Patrocinadores pressionam

Desde então, Mori sofre pressão para renunciar. Tanto por parte de seu partido no governo, como de patrocinadores dos Jogos e da própria população.

Inicialmente, o COI havia dito que o assunto estava encerrado após o pedido de desculpas público. Depois, com o quadro extremamente negativo mundo afora, se manifestou por nota dizendo que os comentários dele eram "absolutamente inapropriados e em contradição com o compromisso do COI e as reformas da Agenda 2020".

O jornal Japan Times publicou que as empresas patrocinadoras dos Jogos de Tóquio chegaram a se reunir com o comitê organizador para deixar claro o descontentamento com a situação e os riscos da parceria.

Os patrocinadores privados representam mais da metade dos investimentos no evento e são fundamentais diante do aumento de gastos pelo adiamento dos Jogos e pelo investimento nas medidas de contenção ao novo coronavírus.

Tenista número 3 do mundo, a japonesa Naomi Osaka chegou a comentar o assunto, ao anunciar uma pequena lesão que a fez desistir da semifinal de uma WTA 500 em Melbourne, preparatório para o Australian Open.

— Se eu acho que ele deveria renunciar? Eu acho que alguém que faz comentários como esse... Eles precisam ter mais conhecimento sobre o que estão falando, então eu acho que foi uma declaração muito ignorante — disse Aa tenista, uma das mais influentes do mundo.

Yane Marques, presidente da Comissão de Atletas do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e secretária executiva de esportes do Recife, disse que não acredita que nessa altura do campeonato, "no ano de 2021, ainda tenha que se comentar comportamentos machistas". Para a ex-atleta do pentatlo, Mori foi infeliz, deselegante e inoportuno.

— Nunca coube, e agora muito menos. Estamos ocupando os espaços que nos cabe por mérito. Aos poucos, estamos onde merecemos estar. Sua fala é preconceituosa, triste e injusta. Essas pessoas tem cada vez menos espaço na sociedade — disse Yane. — Já mostramos que temos competência e merecemos reconhecimento. Limitações, todos tem. Nós mulheres, cada uma em particular, temos limitações também. Não somos super heroínas e não queremos ser mais do que ninguém. Queremos o nosso espaço.

Pedidos de renúncia

No Japão, a pressão é enorme. De acordo com a Kyodo News, cerca de 60% da população japonesa quer a saída do dirigente do posto. Apenas 7% dos entrevistados acreditam que Mori está apto a chefiar o comitê.

Nesta segunda-feira o comitê organizador afirmou que, em cinco dias, 390 voluntários desistiram de trabalhar nos Jogos por causa do episódio. Foram recebidos cerca 350 ligações e 4.200 e-mails sobre o caso.

Ainda segundo a agência de notícias, nesta quarta-feira, políticas japonesas do Partido Democrático Constitucional no Japão se manifestaram em sessão na Câmara de Representantes contra Mori. Elas vestiram jaqueta branca e uma rosa na lapela. Membros dos partidos Comunista e do Partido Democrático para o Povo também participaram usando rosas brancas. O item faz referência ao movimento sufragista nos Estados Unidos, que lutou pelo direito das mulheres ao voto no final do século XIX e no início do século XX.

Tóquio, sede dos Jogos, tem uma prefeita. E Yuriko Koike além de constranger Mori, cancelou sua participação no encontro de hoje, do comitê organizador com Thomas Bach, presidente do COI.

— Não vou comparecer porque não seria uma mensagem positiva dada a situação atual. É extremamente triste. Como líder da cidade-sede, sinto muito pelo desconforto causado a vocês em um momento em que estamos tentando criar um clima para os Jogos de Tóquio enquanto lutamos contra o novo coronavírus — disse Koike a jornalistas locais.

Aline Silva, do wrestling, já classificada para os jogos, pediu a renúncia de Mori.

— Eu, como atleta, perco o brilho nos olhos por olimpíadas cada vez que alguma situação como essa é escancarada e encarada com naturalidade. Esse brilho poderia ser facilmente restaurado se o Comite Olimpico Internacional seguisse as premissas do olimpismo e, na minha opinião, não apoiasse um sexista como o Yoshiro Mori — afirmou a vice-campeã mundial — Quanto às pessoas que renunciaram em participar desse grande evento, como voluntários ou carregando a tocha, sinto tristeza, pois quem deveria renunciar é aquele que não está de acordo com a celebração.

Para Carol Gataz, umas das melhores jogadoras de vôlei do Brasil e que briga por uma vaga na seleção de José Roberto Guimarães, a renúncia de Mori é a melhor saída para o dirigente e para Tóquio-2020. A central, capitã do time do Minas, diz que não se trata de feminismo e sim, de respeito.

— É uma pena que um líder de uma organização tão importante tenha esse tipo de pensamento. Isso é inaceitável nos dias de hoje. Infelizmente, alguns ainda se apegam a comportamentos enraizados, ultrapassados, como o machismo. — criticou a jogadora, dona de cinco ouros em Grand Prix e três pratas em Mundiais, que completa: — Homens e mulheres têm papeis importantes na sociedade e de uma forma igual. Nós precisamos sempre nos envolver nessas discussões para que fique claro que não aceitamos mais esse tipo de comportamento. A renúncia é bem vinda e que assuma alguém mais adequado ao cargo para os dias atuais.

A esgrimista Bia Bulcão, bronze nos Jogos Pan-americanos de Lima, em 2019, e que busca vaga para Tóquio no Pré-Olímpico de esgrima, em abril, no Panamá, diz que Mori passa uma imagem negativa do Japão e que ele, com mais de 80 anos, poderia até estar acostumado a uma realidade diferente, mas que esta não existe mais. Comenta que ele deveria estar atualizado, uma vez que representa um país e o Comitê Organizador dos Jogos.

— Esse discurso é tão ultrapassado... Ele representa um país e um comitê que organiza a Olimpíada e a Paralimpíada, cujos valores são de igualdade. Por isso o que ele diz tem um peso e o que falou não combina com o momento atual, em que se busca igualdade no numero de atletas mulheres e homens nestas competições. Mesmo uma pessoa que já viveu muito, deveria repensar o que pensa e fala — comentou a primeira brasileira a estar entre as seis melhores do mundo no florete.

Os Jogos de Tóquio deverão ter 49% de mulheres. E a expectativa é que esse jogo vire em Paris-2024.

— Assim como os atletas estão concentrados em treinar para ir aos Jogos Olímpicos, ele deveria se concentrar em fazer o trabalho dele e não ficar julgando os outros — encerrou Bia.