'Machopopulismo' deu a Bolsonaro o que ele queria: manchete, atenção e engajamento

Brazil's President Jair Bolsonaro gestures during a campaign rally after a military parade to celebrate the bicentennial independence of Brazil in Brasilia, Brazil September 7, 2022. REUTERS/Ueslei Marcelino
Jair Bolsonaro durante desfile do Sete de Setembro. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Não espere outra coisa.

Este texto falará de Bolsonaro do começo ao fim.

É o que ele queria, e é o que estamos fazendo, sem ter a menor ideia de como não fazer.

Em uma eleição presidencial, é recomendável que os candidatos em campo tenham o mesmo espaço para divulgar suas ideias e propostas para as mazelas do país. E elas são muitas.

A cobertura dá o parâmetro para que a disputa ocorra em condições iguais de forças. A começar pela janela de exposição.

Mas um estrangeiro que acompanhasse o noticiário ontem e hoje imaginaria que o ato de campanha do dia Sete de Setembro, data do bicentenário da Independência, era na verdade a cobertura do dia da posse.

Bolsonaro, que há três anos transformou o ato cívico em festa particular, não foi o único candidato que falou. Outros postulantes se manifestaram sobre a data —alguns com medo de sair à rua porque os fãs do adversário estão cada vez mais virulentos e armados.

Mas as vozes foram abafadas. Em parte, como resultado de uma estratégia política; em parte, pela incapacidade da cobertura em identificar a estratégia e sair da armadilha.

Bolsonaro usou a data cívica para falar sobre o próprio pênis. Era preciso ver (e ouvir) para crer. E registrar. Os absurdos, afinal, não podem passar batidos.

Um cachorro que morde um homem não é notícia. O homem que morde o cachorro, sim.

Um presidente que fale sobre D. Pedro 1º no Dia da Independência não é notícia. O que performa virilidade ao lado da primeira-dama, sim.

Bolsonaro é o sujeito que inverte a razão e a máxima ao morder cachorro e o poste onde urinou.

As mastigadas podem produzir um pouco de tudo (fascínio, ojeriza, curiosidade mórbida), mas não indiferença.

É o que faz do presidente que está há dias preparando a própria festa como um grande ato de campanha um assunto monotemático do bicentenário –sobre a qual, vejam só, não produziu uma única linha de reflexão.

A festa, afinal, era dele e de seu narcisismo embalado em verde e amarelo. É sobre ele que falamos. Para o bem e para o mal. É ele que ocupa o topo das manchetes e dos trending topics fingindo que morde enquanto desvia nossa atenção.

Quem, afinal, quer discutir, em pleno feriado, sobre nível de endividamento, sistema de aposentadoria, teto de gastos, prioridades orçamentárias quando há no centro da roda, das capitais (a velha e a nova) e dos assuntos mais falados um presidente auto-congratulando o próprio pênis?

A obscenidade da fala, e dos coros obedientes da multidão, esconde a total ausência de ideias para o país, mas mobiliza o choque de quem aciona os pudores internos para acusar o horror —como se fôssemos aquela personagem pudica da Escolinha do Professor Raimundo.

Fazemos isso falando sobre ele. Dizemos tudo sem conseguir desviar o olhar e as atenções para a cena, a fala, o falo.

A estratégia é grosseira, rudimentar mesmo, mas é ao mesmo tempo altamente eficaz. E não é nem exatamente nova, como mostrou o historiador argentino Federico Finchelstein, autor do livro “Do Fascismo ao Populismo na História”, em entrevista à BBC Brasil.

Por mais chocante que seja, afirma o especialista, essa estratégia segue um padrão de tendência fascista e machopopulista, baseada na ideia de uma sociedade estruturada na supremacia masculina –e que expõe um senso particularmente reacionário de virilidade e na distinção entre gêneros. Esse é o bolsonarismo cuspido e escarrado.

Bolsonaro chegou até onde chegou –e leva multidões à rua como leva– não porque foi ignorado, mas porque recebeu atenções demais a cada absurdo que colocava na praça. A ideia de celebrar o próprio pênis em seu discurso no Dia da Independência foi um deles.

Não repercutir não é uma opção.

Repercutir é colocar o absurdo no centro da roda e fazer o jogo de seu estrategista.

Tem saída?

A pergunta está em aberto. Este é só mais um texto que falha miseravelmente em tirar o cidadão do centro da cena –e da pauta.