Maconha é: um mercado que floresce no mundo e é semente no Brasil

A Ultra420, primeira headshop brasileira, surgiu em São Paulo em 1994, ideia do empresário Alexandre Perroud (Yahoo Notícias/NAV Reportagens)

Troca de cartões 

TEXTO, FOTOS E VÍDEO: FELIPE BARBOSA E PEDRO BELO

“A gente tem um cultivo no Oregon”, disse um rapaz bem vestido, barba bem aparada, com pinta de empreendedor ao entregar um cartão de visitas a uma das mães de pacientes tratados com medicamentos feitos à base de Cannabis no apagar das luzes do evento “Ilegal: 5 anos depois”, que celebrou o quinto aniversário do lançamento do documentário dirigido por Tarso Araújo e Raphael Erichsen e os desdobramentos da luta de mães como Katiele Fischer e Margarete Brito pelo direito à saúde de suas filhas. 

MACONHA É: o remédio que fez ele deixar de ter uma convulsão a cada dez minutos

MACONHA É: ilegal... mas até quando?

A ocasião contou com uma exibição do filme, e foi precedida por pronunciamentos dos principais “players” do embrionário mercado de maconha medicinal brasileiro. Sim, plantio e venda de cannabis ainda são ilegais no país, mas o evento, que lotou o pequeno auditório do coworking Civi-co evidencia a existência de toda uma estrutura de empresários e investidores de olho no potencial financeiro do mercado medicinal da planta. 

A realização do evento na sede do Civi-co, um prédio de vidro transparente incrustado em um colorido beco no coração do descolado bairro paulistano de Pinheiros, já seria digna de nota. O espaço é uma aceleradora de organizações não-governamentais e startups de impacto social e foi co-fundado pela empresária e filantropa Patrícia Vilella Marino, esposa de um dos sócios do Banco Itaú - na ocasião, ela atuou como mestre de cerimônias e fez uma calorosa apresentação dos envolvidos e retratados no documentário. 

Cinco anos depois do lançamento do filme, o que se vê é um mercado pronto e equipado para decolar. Até um dos diretores do longa, o jornalista Tarso Araújo, já trabalha a Entourage Phytolab, empresa que pesquisa a criação de medicamentos fitoterápicos feitos com compostos da cannabis. 

 Em contraste, a proibição parece ser a única estratégia contemplada pelo atual governo federal, cuja falta de propostas para o setor demonstra um desinteresse em se debater a questão com a sociedade e em manter as coisas como estão. Em crescimento inversamente proporcional está a disseminação de informação sobre as possibilidades de tratamentos baseados em canabinoides para uma série de condições de saúde, algumas delas graves, como certos tipos de epilepsia e casos de dores crônicas.  Um potencial que explica a intensa troca de cartões entre os principais agentes do setor: militantes, membros de associações de cultivo, empreendedores, investidores, médicos e representantes de farmacêuticas. 

Mercado adulto e social 

O crescimento do mercado medicinal é bem recebido por pacientes e suas famílias, mas ao mesmo tempo assusta a velha guarda da militância pela legalização, grupo que há décadas é estigmatizado como a parcela de usuários “recreativos” da planta. 

“Qual maconheiro nunca sonhou em ter seu coffee shop?”, questiona William Lantelme, fundador do Growroom, fórum que há quase duas décadas é o principal ponto de encontro para troca de informações e experiências entre cultivadores, usuários e interessados. “Tem gente que gosta de pintar, de fazer música, tem gente que gosta de plantar maconha e de fumar um. É muito importante que tenha esse desenvolvimento para as pessoas verem que existe todo um mercado. E isso acaba se tornando mais um ponto para legalizar, gerar empregos, uma economia”, diz. 

Lantelme vê com preocupação a força do capital da indústria farmacêutica na apropriação da cannabis: “Mas também tem os aproveitadores, que é toda essa indústria da cannabis medicinal que vem vindo aí. A mim incomoda muito mais a indústria do que quem se aproveita da cultura canábica. Esses ‘aproveitadores’ da cultura, muitos deles estavam lá nas marchas, fumam, fazem parte de todo esse meio.” 

O uso do termo “recreativo” vem inclusive sendo questionado pelos integrantes da chamada cultura canábica, e sua substituição por termos como “uso social” ou “uso adulto” tem sido discutida. O fato é que há dinheiro girando em torno do consumo da erva proibida, assim como o consumo de álcool e tabaco movimentam no mundo indústrias bilionárias. 

Também não é novidade que, pelo menos nos últimos anos, o usuário não tem tido dificuldades para encontrar em padarias, tabacarias e bares os produtos periféricos para o consumo de cannabis: trituradores e “sedas”, como são chamados os papéis para enrolar cigarro, são os mais comuns. Mas além disso, é possível também encontrar vitrines expondo exclusivamente seus cachimbos, cinzeiros, e seus vasos de vidro coloridos, os bongs (antigamente denominados de “cachimbos d’água”). São as headshops, lojas especializadas na venda de parafernália para consumo principalmente de maconha.

A Ultra420, primeira headshop brasileira,  surgiu em São Paulo em 1994, ideia do empresário Alexandre Perroud, que viu ainda adolescente num intercâmbio para a Califórnia o potencial do mercado canábico. 

A Bem Bolado já exporta para os vizinhos Chile e Uruguai (Yahoo Notícias/NAV Reportagens)

O começo não foi dos mais fáceis. Alexandre conta que perdeu diversas cargas na alfândega. No período de oito meses, em 1997, diz ter recebido sete visitas da polícia. Uma das soluções encontradas foi passar a produzir os bongs e pipes por aqui. Hoje, a loja possui unidades franqueadas, vendas online e Alexandre comemora que as headshops estejam se espalhando, e vê como positiva a existência da concorrência, já que consegue vender os produtos que fabrica com a marca Ultra420.

“ Eu sonhava com esse momento. Quando comecei a fabricar os produtos, não adiantava chegar numa fábrica e pedir 10, 50, 100. Era mínimo 500. Eu tinha uma loja, como ia fazer? Hoje em dia eu fabrico meus produtos e consigo vender pra eles (outros headshops).”

Em outra área do mesmo mercado e inspirados também no mercado em expansão em outros continentes, a Bem Bolado Brasil surgiu com a ideia de fabricar sedas e hoje já está próxima de ter no catálogo 100 produtos. Desde o início, eles apostaram na brasilidade como marca registrada. Os produtos vêm ilustrados com cenários famosos de cidades brasileiras e desenhos feitos por artistas nacionais. Para reafirmar a postura, eles procuram fabricar tudo que for possível dentro do país.

“A gente só não produz o que não existe no Brasil. Fabricamos na China, Espanha e Polônia”, conta Fabrício Penafiel, fundador da empresa. “Por exemplo, o dichavador (equipamento para triturar as flores). A gente poderia produzir na China, seria muito mais barato e fácil. Só que não. A gente luta para fazer tudo no Brasil”.

A Bem Bolado já exporta para os vizinhos Chile e Uruguai, e, apesar do mercado brasileiro ainda ser pequeno, Fabrício observa uma rápida expansão - que poderia ser ainda maior não fossem as dificuldades iniciais para convencer os varejistas a vender os produtos e o estigma da planta. 

“São duas imagens que a gente tem: que a gente está numa floresta com um facão na mão. Não tem uma referência. A gente está fazendo um mercado. E é um mercado que, por mais que nossos produtos sejam legais, é canábico. A gente tem a imagem de ficar na beira do precipício. Mas acredito que, logo logo, vai ser um mercado muito mais livre, claro, e com leis bem feitas”.

Com os olhos no Brasil

A empresária Viviane Sedola, que foi uma das fundadoras da plataforma de financiamento coletivo Kickante, é criadora e CEO da startup Dr. Cannabis (Yahoo Notícias/NAV Reportagens)

Bom solo, boa incidência de luz solar, água em abundância, ventos. O Brasil tem todas as condições técnicas para produzir cannabis e cânhamo, variedade com baixas concentrações dos canabinóides, em escala industrial. Além de medicamentos e das flores para uso adulto, a cannabis é usada para a fabricação de fibras, alimentos, tecidos e papéis, entre outros produtos. 

Apesar de todas essas possibilidades de negócios, o Brasil segue fora do circuito. E os números do mercado global mostram que a decisão talvez devesse ser ao menos repensada: só em 2018, segundo relatório do Banco de Montreal, o mercado global de cannabis movimentou 18 bilhões de dólares. E se as previsões mais otimistas se concretizarem, como abertura de mais países a esse comércio e aumento da produtividade, o relatório aponta que o mercado poderia valer 194 bilhões de dólares em 2026.

A empresária Viviane Sedola, que foi uma das fundadoras da plataforma de financiamento coletivo Kickante, é criadora e CEO da startup Dr. Cannabis, que, além de atuar na distribuição de conteúdo sobre as aplicações terapêuticas da planta, faz a ponte entre pacientes, médicos prescritores e empresas internacionais que produzem os medicamentos. 

“A gente não ter o cultivo no Brasil é um absurdo. Falta produto no mundo. O Brasil é agro, a gente tem tudo pra ser o grande produtor e exportador de cannabis pro mundo e rentabilizar em torno disso, mas hoje essa possibilidade está sendo ignorada”, afirma Sedola, formada em Relações Públicas, e com passagens pelo grupo de Comunicação CDI e Casas Bahia. “Por que tamanha proteção? Tudo isso é por conta do estigma que paira ainda sobre a planta.”

A cannabis mora ao lado

Na América do Sul, Uruguai, Argentina, Chile, Peru e Colômbia já regulamentaram de alguma forma o plantio e venda de cannabis e seus subprodutos. O primeiro, inclusive, foi pioneiro na regulamentação do uso adulto da planta, e os resultados ainda estão sendo estudados. William Lantelme, que vive em Montevidéu, vê alguns problemas no modelo uruguaio, como o surgimento de um mercado paralelo para turistas, mas destaca pontos positivos na iniciativa. “É um modelo democrático porque existem três possibilidades para obter: pode fazer o cultivo em casa, participar de uma associação ou comprar na farmácia”.

 Outro vizinho que se destaca é a Colômbia, que aprovou leis mais claras sobre o tema em 2016.  Graças às  condições climáticas favoráveis - e semelhantes às do Brasil - consegue alta produtividade da planta e busca se posicionar entre os principais exportadores do mundo.

  “A Colômbia permite o autocultivo para uso adulto ou medicinal desde 1996, e agora está recebendo as maiores empresas do mundo todo querendo cultivar lá porque criaram um conjunto de licenças que permite isso”, comenta Viviane Sedola. 

Califórnia: mercado gigante e com dificuldades de acabar com a ilegalidade

A oferta no mercado ilegal ainda é maior do que no legalizado - 76% das cidades californianas ainda não autorizaram a criação de lojas para venda de maconha (Yahoo Notícias/NAV Reportagens)

O estado americano da Califórnia é considerado hoje o principal mercado de cannabis do mundo. Um ano após a legalização do uso adulto da maconha - o estado já permitia o uso medicinal há mais de duas décadas e ampliou para o uso adulto em 2018 -, a expectativa é que o mercado atinja em 2019 o valor recorde de 3,1 bilhões de dólares em vendas legais de maconha, de acordo com projeção dos institutos de análises financeiras Arkview Market Research e BDS Analytics divulgada no início deste semestre. “Qualquer mercado do mundo estaria em êxtase com uma taxa de crescimento de 23%”, ponderou ao jornal Los Angeles Times o diretor-administrativo da BDS Analytics, Tom Adams. 

Apesar dos números promissores para o mercado legal, eles são ainda mais impressionantes para o mercado ilegal em 2019: a estimativa é que movimente 8,7 bilhões de dólares, quase o triplo do mercado legal. Mas por que, apesar da regulamentação do uso recreativo, o mercado ilegal ainda cresce na Califórnia?

De acordo com estudos de mercado, a legislação estadual ainda é confusa, os processos são rigorosos e a obtenção da licença é demorada, o que fez com que muitos vendedores se mantivessem na ilegalidade. A grama de cannabis legal é, em média, 77% mais cara do que na ilegalidade, o que estimula até vendedores do varejo a obterem o produto no mercado ilegal, aumentando os lucros.

Para o skatista e empresário Bob Burnquist, fundador da empresa de medicamentos fitoterápicos Farmaleaf, que em breve entrará no mercado, a legalização da cannabis em âmbito federal facilitaria o plantio e a comercialização. Segundo Bob, a maneira que a Califórnia regulamentou a questão ainda deixou na legislação muitas “zonas cinzentas” que dificultam a entrada de pequenos produtores e acabam favorecendo investidores que podem esperar a obtenção de licença. “Fica difícil competir com quem está ilegal. Às vezes o cara começa a investir, vem a regulamentação e fala que vai demorar mais seis meses. Chega nos seis meses, você vai começar a comercializar e eles vêm e falam que mudou, vai levar mais quatro meses. Como é que você consegue administrar isso dentro de uma projeção de negócio sem quebrar? Só tendo bastante dinheiro pra colocar por trás.”

O decacampeão mundial de skate aponta o mercado do vizinho Canadá como modelo a ser seguido: “você consegue entrar em farmácias, consegue o produto sem problemas, não existe nenhum preconceito, é uma coisa meio que natural. É uma forma muito mais aberta, ampla e direta de se lidar (com a cannabis)”

Além disso, a oferta no mercado ilegal ainda é maior do que no legalizado - 76% das cidades californianas ainda não autorizaram a criação de lojas para venda de maconha. Apenas em Los Angeles, onde há comércio regulamentado, a estimativa é que existam dez vendedores ilegais para cada vendedor legal. De acordo com o Los Angeles Times, o estado tem 583 lojas licenciadas para a venda de cannabis e 263 empresas de delivery de maconha. 

A reportagem conversou com duas brasileiras que trabalharam em uma fazenda ilegal de cultivo de cannabis na região do Big Sur, na Califórnia, e confirmam o aumento dos valores pagos  aos trabalhadores do mercado ilegal, contrariando a ideia de que essa fatia do mercado encolheria com a legalização. O ano de 2019 foi o segundo delas participando da colheita, “bucking” (processo de corte das folhas e galhos) e “trimming” (aparo fino das flores).

Em 2018, primeiro ano da regulamentação da cannabis na Califórnia, os fazendeiros ilegais pagavam cerca de 75 dólares por libra (aproximadamente 453g) de cannabis “trimmada”. Neste ano, contrariando as expectativas dos trabalhadores das colheitas, que esperavam valores mais baixos, os pagamentos subiram: 85 dólares por libra “trimmada”. Para o bucking, o preço também aumentou: de 10 dólares a libra em 2018, para 15 dólares em 2019.

Em um prazo de cinco anos, entretanto, a expectativa dos analistas dos institutos de pesquisa é que o mercado legal supere o ilegal. Isso ocorreria com a criação de legislação e processos mais claros sobre o assunto e a possibilidade de a Califórnia vender sua produção a outros estados. A estimativa é que em 2024 as vendas legais atinjam valores em torno de 7,2 bilhões de dólares, embora a cannabis comercializada ilegalmente continue movimentando cerca de 6,4 bilhões de dólares.