Maconha medicinal: Com teste de DNA para identificar doenças, pacientes terão tratamento mais eficaz

O tratamento com derivados da maconha tem aumentado no Brasil. Visto como essencial quando usado como "primeira opção", em relação ao uso de outros fármacos, dois farmacêuticos brasileiros abrem neste mês uma nova clínica especializada em pacientes que fazem uso de canabinóides, com uma novidade: um exame de DNA capaz de detectar as patologias de cada paciente, além de determinar a dosagem e o tipo exato de cannabis necessário para tratar as necessidades individuais de cada organismo.

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Bruna Moraes, de 39 anos, é graduanda do último ano de Farmácia e mãe de três crianças no espectro autista, foi a primeira pessoa a conseguir um habeas corpus, sem a presença de um advogado, para manter o cultivo de 30 pés de maconha em casa. Luta essa para que pudesse extrair quantidade suficiente do óleo para dar vida digna a Mateus, hoje com 12 anos, Rebeca, 7, e Isaque, 5.

Fundadora da Associação Humanitária Canábica do Brasil, Bruna criou neste ano a Farma Autismo, ao lado do sócio Leandro Farias, de 32 anos, farmacêutico sanitarista da Fiocruz e fundador do Movimento Chega de Descaso, uma associação sem fins lucrativos, que desde orienta e presta apoio à população desassistida pelo setor público ou privado da saúde.

O projeto já está em funcionamento e acompanha, atualmente, 25 pacientes, incluindo crianças e idosos. O que faltava era um consultório fixo e, a partir desse mês, ele será inaugurado no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. Apesar de o nome incluir o Autismo, pacientes com outras doenças que fazem uso do óleo a partir da maconha — que não é fornecido pela clínica — também são acompanhados por eles, como pacientes com Alzheimer e fibromialgia.

Tratamento mais eficaz

Bruna explica que o acompanhamento de pacientes que fazem tratamento a partir de canabinóides — compostos químicos presentes na Cannabis — envolve várias mudanças. Uma delas começa por uma reeducação alimentar, sem a presença de guloseimas repletas de corantes e conservantes, para propiciar uma qualidade de vida maior:

— Na prática (o consumo desses alimentos) pode aumentar sintomas de dores, crises, agressões, irritabilidade em autistas, convulsões, além de atrapalhar na concentração. Por isso ensinamos mães a fazerem comidas caseiras.

E se o objetivo é aumentar a eficácia do tratamento, a Farma Autismo vai recorrer a um exame de DNA, em que os genes de cada indivíduo podem ser identificados e, a partir disso, doenças serão constatadas pela presença de biomarcadores — que são moléculas específicas associadas a um determinado quadro patológico — para maior exatidão nas dosagens:

— Estamos sendo pioneiros nesse trabalho farmacológico clínico porque, associado ao teste de DNA, temos a precisão de diagnóstico e quais os canabinóides necessários para cada demanda, que responde a 100% da melhora do paciente — explica Bruna.

Para isso, a Farma Autismo conta com uma parceria. Ao custo de cerca de R$ 1.800, o exame é feito no Brasil e enviado aos Estados Unidos, onde é acoplado a um banco de dados.

— Cada corpo é único e esse exame tem o diferencial da medicina de precisão, que traz mais segurança para o paciente e para o médico. O teste analisa 28 genes e 108 polimorfismos, detectando do bruxismo à esquizofrenia, e ajuda na questão da adaptabilidade do corpo aos fitocanabinóides que existem — explicou Sadao Oshiro, CEO da The Quantic Hub, representante de empresa de mapeamento genético focado no sistema endocanabinóide no Brasil.

Sobre o custo do exame, Bruna conta que a intenção é que ele seja barateado. Já em relação ao atendimento, Bruna explicou que é preciso avaliar a necessidade de cada paciente. — O custo não chega a ser alto, porque nosso atendimento é por hora e geralmente os pacientes demandam 1, 2 ou três horas por mês — explica.

Vida melhor

Pacientes que seguem o tratamento com canabinóides são, para além do autismo, pacientes com epilepsia, Parkinson, Síndrome de Drazet, pacientes oncológicos, entre outros. O histórico de boa parte deles é o que se chama de "poli-farmácia", que é aquele que faz uso de dezenas e dezenas de comprimidos diariamente.

A solução é o desmame desses pacientes, o que pode ser um processo difícil pelo nível de dependência do organismo e os possíveis efeitos colaterais. Mas o resultado é positivo:

— (Com a Cannabis) Sendo a primeira opção o organismo do paciente receberá os canabinóides e todos os seus sistemas promoverão a homeostasia — afirma o pesquisador Leandro Farias, que ainda ressalta quais efeitos positivos dos remédios à base da maconha:

— (São) Ansiolíticos, imunossupressores, anti-inflamatórios, bactericidas, fungicidas, antivirais, hipotensores, broncodilatadores, neuroprotetores, estimuladores do apetite, analgésicos, sedativos, antieméticos, anticonvulsivos e antitumorígenos.

Os relatos de Bruna são de autistas que começam a verbalizar após o começo do tratamento com cannabis, pacientes com Alzheimer que passam a se lembrar de pessoas de quem já não se recordavam mais, entre outros.

— Eu gosto muito de falar de uma paciente de 60 anos que vivia acamada há dez anos com fibromialgia, que desencadeou em depressão. Hoje ela vai ao mercado, vai em uma festa, faz caminhada e quando vejo esse resultado, eu fico muito motivada — relata Bruna Moraes. — Quando chega um paciente como esses que sentem muitas dores, eles tomam de 20 a 30 medicamentos diferentes e, com esse tratamento, conseguimos tirar os fármacos sem necessidade, deixando apenas aqueles para controlar a pressão arterial, por exemplo — completa.

Família

Mãe de três crianças no espectro autista, Bruna não tinha condições de arcar com o custo da importação dos remédios para os filhos, que era somado à burocracia da Anvisa para liberá-los. Por isso começou a cultivar maconha em casa, mesmo com o risco de ser presa.

Em 2020 foi ao Fórum Regional da Barra da Tijuca, na Zona Oeste carioca, e apelou ao juizado criminal para poder prosseguir com o tratamento das crianças à base de cannabis medicinal. E conseguiu: é a primeira pessoa a conseguir um habeas corpus, sem a presença de um advogado, para manter o cultivo de 30 pés de maconha em casa.

Mãe de Mateus, de 12 anos, Rebeca, 7, e Isaque, 5, Bruna relata que os três saíram do grau severo, com o tratamento à base de canabinóides.

— Não há cura, mas estamos perto disso. Em uma escala de zero a dez, eles estão no nível nove — conta.

Apesar disso, Bruna diz que também fará o teste de DNA de sua nova clínica neles:

— Como cientista, além de mãe, eu quero atingir 100% de precisão (tratamento e diagnóstico). Então meus filhos vão fazer esse teste de DNA, inclusive eu e meu sócio. — relata.

Com qualidade de vida, as crianças têm planos para o futuro, segundo a mãe:

— Rebeca quer fazer Medicina. O Isaque, o caçula, quer ser do skate e do parkour, então ele escala tudo em casa. Mas também têm gostos exóticos, ninguém quer cachorro em casa: o caçula adora panda, mas também quer um ouriço; a Rebeca quer uma Floppa (um gato famoso na internet, que virou meme); e o Matheus quer um gato egípcio.

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