Macron perderá maioria na Assembleia Nacional, mostram projeções

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O segundo turno das eleições parlamentares francesas deste domingo provou-se catastrófico para o recém-reeleito presidente Emmanuel Macron, que perderá a maioria absoluta na Assembleia Nacional. Segundo as projeções, a aliança de esquerda Nova União Popular Ecológica e Social (Nupes) será a segunda força política no país, mas a grande surpresa foi o desempenho da extrema direita. O grupo teve não só seu melhor desempenho histórico, mas deve ver seus deputados pularem de oito para 89.

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Segundo as projeções do Ipsos-Sopra-Steria, a coalizão Juntos, do centro-direitista Macron, deve fazer 224 cadeiras, bem menos que as 289 necessárias para manter a maioria absoluta com que governou pelos últimos cinco anos e forçando-o a negociar com a oposição para implementar sua agenda. Apenas a República em Marcha, partido de Macron, havia conquistado 313 cadeiras em 2017 — chegando a 360 parlamentares se somados os 47 assentos da sigla aliada MoDem.

— Se esses resultados se confirmarem, estaremos muito distantes do que esperávamos — disse o ministro das Contas Públicas Gabriel Attal, ex-porta-voz do governo. — Não há maioria absoluta para nenhum outro partido, contudo, então é uma situação inédita na vida política e parlamentar que nos exigirá superar nossas certezas e nossas divisões.

A Nupes, liderada por Jean-Luc Melénchon, do partido França Insubmissa, deve eleger 149 deputados, agrupando as principais forças de esquerda do país após uma ascensão meteórica nos últimos meses. O resultado, segundo o político da esquerda radical, significa uma "derrota total" de Macron:

— Minha mensagem nesta noite é de luta — disse ele, que não se candidatou para deputado e que, portanto, não terá uma cadeira na nova Assembleia. — Nem por um momento sequer vamos desistir de governar este país (...). Seremos uma oposição firme, mas com respeito às instituições.

Confirmando o que especialistas têm chamado de "tripolarização" da política francesa, a ultradireitista Reunião Nacional (RN), de Marine Le Pen, que disputou o segundo turno da eleição presidencial de abril com Macron, surge como a terceira força. Os 89 assentos projetados pelo Ipsos darão à extrema direita sua primeira bancada parlamentar em 36 anos — o resultado é também mais que o dobro do recorde anterior de 35 deputados, em 1986.

— Apesar de uma votação injusta e inadequada, o povo decidiu enviar um grupo parlamentar muito poderoso à Assembleia, que se torna um pouco mais nacional — disse Le Pen a apoiadores pouco após o anúncio das projeções, referindo-se ao sistema eleitoral distrital em dois turnos no pleito legislativo, que costumava desfavorecer a direita radical. — Conseguimos nossos três objetivos: transformar Emmanuel Macron em um presidente minoritário, continuar com a necessária reorganização política, e constituir um grupo de oposição decisivo contra os destruidores que vem de cima, os macronistas, e de baixo, a extrema esquerda.

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No modelo francês, um partido ou coalizão que tiver mais de 15 deputados pode formar um “grupo parlamentar”. Agora, a sigla reinventada por Le Pen nos últimos anos terá mais tempo de fala e mais poderes no plenário, como o de convocar um recesso e apresentar moções de censura. Terá também maior acesso a dinheiro público, ponto importante para uma legenda que acumula mais de € 20 milhões (R$ 107 milhões) em dívidas.

O "tsunami azul" foi, segundo o atual presidente da RN, Jordan Bardella, uma "conquista histórica" — ascensão que coincide com o que tem sido chamado de “colapso da direita republicana”, com maior aceitação de discursos contra a imigração e retóricas eurocéticas. A direita tradicional, com Os Republicanos e a União dos Democratas e Independentes, deve conquistar 78 assentos, 22 a menos que atualmente.

O partido perderá o posto de maior grupo de oposição, sendo renegada à quarta força política. O desempenho, ainda assim, é melhor do que as pesquisas indicavam na última semana e evita uma repetição do desastroso pleito presidencial de abril, do qual a candidata Valérie Pécresse saiu com 4,8% dos votos.

As eleições legislativas deste domingo confirmaram também a tradição de baixa participação: cerca de 54% dos franceses optaram por não votar. O número é menor que os 57,36% registrados nas eleições legislativas de 2017, mas superior ao registrado no primeiro turno, confirmando previsões. Na semana passada, 52,51% dos franceses aptos não foram às urnas, um recorde para a etapa inicial do pleito durante a V República, em vigor desde 1958.

O parlamento fragmentado resultante do pleito, chamado informalmente de "terceiro turno" das eleições da França, faz com que Macron seja o primeiro presidente francês em 20 anos a não conseguir uma maioria absoluta na Assembleia Nacional. Agora, não poderá mais depender exclusivamente da sigla formada pelo seu República em Marcha (que será renomeado Renascimento) e pelos partidos de centro-direita Agir, Horizons e MoDem.

O presidente francês precisa da Assembleia Nacional para cumprir seus objetivos de política interna, aprovar gastos e fazer alterações na Constituição. Uma das pautas prioritárias de Macron é sua há muito prometida reforma de Providência, com o aumento da idade mínima da aposentadora, de 62 para 65 anos. Para aprová-la, precisará forjar coalizões ou alianças temporárias.

A tendência é que o governo faça acenos para a sigla de Pécresse, buscando acordos com a direita tradicional. E, mesmo assim, as bancadas de ambos os partidos juntos não devem lhe dar uma margem muito folgada.

Se o resultado permite ao presidente manter o controle de setores estratégicos como Defesa e política externa, terá problemas em outras áreas. Macron já tinha anunciado que integrantes de seu Gabinete que não fossem reeleitos precisariam ser substituídos. Até agora, a ministra de Saúde, Brigitte Bourguignon, e a ministra da Transição Ecológica, Amélie de Montchalin, foram derrotadas.

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