Macron elogia o modelo social francês, mas avisa: “devemos trabalhar mais”

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AFP - LUDOVIC MARIN
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Em entrevista nesta quinta-feira (14), a primeira após a sua reeleição em abril, o presidente francês, Emmanuel Macron, apontou as prioridades do seu segundo e último mandato. O presidente espera terminar seu governo com uma França "mais independente", vencer a batalha pelo clima e alcançar igualdade de chances para todos. Falando dos jardins do palácio presidencial, após ter participado do tradicional desfile militar na avenida Champs-Élysées, o chefe de Estado defendeu uma “nação mais forte e justa”, mas disse que a população terá que trabalhar mais tempo para poder se aposentar.

O chefe de Estado respondeu perguntas das jornalistas Caroline Roux, do sistema de televisão pública France Televisions, e Anne-Claire Coudray, da emissora privada TF1. A entrevista no dia da festa nacional é uma tradição respeitada por praticamente todos os presidentes franceses há mais de quatro décadas, mas esta é apenas a segunda fez que Macron se submete ao ritual.

A entrevista televisiva foi a primeira vez em que ele se dirigiu aos franceses depois das eleições legislativas de junho, em que seu partido perdeu a maioria absoluta na Assembleia Nacional. Questionado sobre esse contexto político desfavorável para aprovação das reformas prometidas durante a campanha, Macron disse não ter medo de que seus projetos sejam bloqueados no Parlamento porque “acredita no espírito de responsabilidade dos deputados”.

Ele também afirmou estar disposto a usar referendos para ouvir a população e garantir “uma democracia viva”. O fato de não ter mais de se preocupar com a reeleição lhe permite “ser mais exigente [consigo mesmo] e engajado a serviço do país”.

Reforma do sistema de aposentadoria

Uma das principais batalhas de seu governo será a reforma das aposentadorias, que ele pretende implementar a partir de meados de 2023. Para isso, Macron diz estar disposto a negociar um projeto junto com os parlamentares.

“Como me engajei, devemos aumentar a saída para a aposentadoria progressivamente aos 65 anos, até 2030”. Apesar da oposição de parte da sociedade, “devemos trabalhar mais e mais tempo” reafirmou o presidente, que justificou a medida como a única opção para manter um modelo social generoso, com saúde e educação gratuitos, sem aumentar impostos.

Macron aposta no crescimento da economia por meio do trabalho. O objetivo, afirmou, é chegar a uma taxa de desemprego de 5%. Atualmente, 7% dos franceses não têm trabalho e o presidente destacou que muitos setores da economia precisam contratar.

O presidente incitou uma “mobilização da nação” para avançar numa reforma do trabalho. “Durante décadas, conhecemos o desemprego de massa e o que eu quero é o pleno emprego. Isso muda tudo”, afirmou. “A solidariedade é paga por todos, mas não há modelo social sem trabalho para pagar. Somos os mais generosos do mundo e se queremos progresso social e transição energética, temos de trabalhar”, disse, ao anunciar mudanças nos programas de benefícios a desempregados. Além de acompanhamento profissional para quem está fora do mercado, Macron também prometeu investir na qualificação de jovens para que a formação corresponda às necessidades da nação.

Economia de guerra

A guerra na Ucrânia, que pesa sobre o crescimento do país e alimenta a inflação sobre os preços da energia e dos alimentos, também foi lembrada. Macron disse que a Europa deve estar preparada para um conflito longo e o corte completo no fornecimento de gás russo. “A Rússia utiliza a energia e a alimentação como armas de guerra”, destacou o presidente, alertando que o “começo do outono [no hemisfério norte] será duro”, principalmente para os países europeus que dependem muito do gás russo.

O presidente lembrou que menos de 20% do gás utilizado na França vêm da Rússia. “Continuaremos a buscar outros fornecedores, como Argélia, Catar, Noruega e Estados Unidos”, citou. “A guerra vai durar, mas a França pode ajudar a Ucrânia a se defender, sem entrar no conflito e sem fazer uma terceira guerra mundial”, acrescentou.

“Temos um Exército forte, o primeiro da Europa e o mais reativo”, citou, dizendo estar orgulhoso do desfile de 14 de julho. Macron defendeu aumentar o orçamento da defesa progressivamente e insistiu numa resposta Europeia para a questão da segurança. Ele citou a urgência de melhorar a indústria bélica francesa, sem deixar de lado os investimentos ciberespaço e a luta contra o terrorismo.

Urgência climática

Para responder à necessidade climática, num momento em que a França enfrenta uma forte onda de calor e de incêndios, o presidente citou a importância de “proteger a agricultura, os idosos e acelerar a transformação energética”.

Parte da resposta está “nas usinas nucleares e um modelo energético que não depende dos combustíveis fósseis”, citou, prometendo novos investimentos em energia eólica em alto mar. O presidente também confirmou a continuidade do bloqueio dos preços da energia até o fim do ano.

Emmanuel Macron pediu uma mobilização geral para a economia de energia, começando pelo exemplo da administração pública. “Devemos entrar numa lógica de sobriedade e evitar desperdícios”, afirmou, citando “um corte de gastos desnecessários com iluminação”, por exemplo. O chefe de Estado disse que um programa de medidas nesse sentido será apresentado nos próximos meses e que até o Palácio do Eliseu, sede da presidência, passará por reformas para usar menos energia.

Uber Files

Por fim, Macron falou sobre as críticas que recebeu nos últimos dias por ter facilitado a entrada da plataforma de transportes Uber na França, quando ainda era ministro da Economia. “Defendi essa abertura do mercado e faria de novo”, disse, mesmo confrontado ao modelo social da empresa de transporte acusada de não respeitar os trabalhadores.

Uma investigação baseada em milhares de documentos internos da empresa americana de motoristas particulares revelada pelo jornal Le Monde concluiu que havia um "acordo" secreto entre a empresa e Emmanuel Macron, quando ele era ministro do presidente François Hollande (2014-2016). “Precisávamos de transporte e de emprego. Não tenho temperamento para ser influenciado e nada comprova que isso aconteceu”, finalizou.

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