Macron inicia 2º mandato na França sob pressão para mudar mais do que o nome do partido

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MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - O presidente reeleito da França, Emmanuel Macron, 44, começa neste sábado (7) seu segundo mandato, com a promessa de que os próximos cinco anos não serão uma continuidade, mas um novo método de governar, com mais conciliação, para que seja possível implementar seu projeto de país "humanista, republicano, verde e social". A posse acontece no Palácio do Eliseu, às 11h de Paris (6h em Brasília).

As diretrizes que Macron vislumbra para sua nova Presidência foram esboçadas em seu discurso da vitória, no dia 24 de abril, quando derrotou a ultradireitista Marine Le Pen, com 58,5% dos votos. Desde então ele não fez declarações em atos públicos, quase foi atingido por um tomate no primeiro reencontro com a população e se tornou o principal alvo das manifestações do Dia do Trabalho.

Fechado no palácio, se concentrou nas tratativas para a composição do governo e para a eleição legislativa de junho, decisiva para que seu programa possa avançar, e nas conversas sobre a Guerra da Ucrânia. Por enquanto, a única certeza de renovação é no nome do seu partido, A República em Marcha, que passa a ser chamado de Renascimento - com o compromisso da cúpula de que a ação não ficará restrita à embalagem.

Segundo analistas, o silêncio pós-eleição é sinal de que Macron reconhece estar navegando em águas agitadas. "Não há um contexto em que é possível propor reformas muito significativas. É muito diferente de cinco anos atrás", diz o cientista político Bruno Cautrès, pesquisador da Sciences Po.

"Macron teve uma vitória muito clara, mas, ao mesmo tempo, com muitos pontos de interrogação. Não sabemos exatamente para onde ele quer ir com esse segundo mandato. Ok, ele disse que não será uma continuação, mas não se sabe o que isso significa exatamente."

Mesmo em relação a uma de suas propostas mais evidenciadas na campanha, a reforma da Previdência, há incertezas. No primeiro turno, Macron foi taxativo de que era preciso aumentar progressivamente, nos próximos anos, a idade mínima de aposentadoria de 62 para 65 anos. Na segunda rodada, admitiu a possibilidade de rever o corte para 64.

Outra hesitação se dá em relação à formação do governo. Há pouca clareza sobre quem pode ser o primeiro-ministro no lugar de Jean Castex, do partido do presidente. Macron sinalizou que procura alguém comprometido com questões sociais e ecológicas, numa tentativa de direcionar o perfil do governo para a esquerda - ele começou seu primeiro mandato como "centrista radical" e hoje pende para a centro-direita com uma agenda reformista liberal.

Segundo a imprensa francesa, duas mulheres teriam sido sondadas e negaram a oferta. Em 2017, o nome do premiê foi confirmado um dia após a posse. Nesta semana, o porta-voz de Macron disse que a equipe atual pode permanecer no cargo até o limite máximo oficial, a próxima sexta (13).

A composição do governo passa pelo primeiro grande desafio deste mandato: as eleições legislativas, em 12 e 19 de junho. Pelas regras do pleito e pelo histórico dos últimos 20 anos, a tendência é a coalizão em torno do presidente conquistar maioria absoluta e poder aprovar projetos sem depender das demais forças. A Assembleia Nacional tem 577 assentos, e o número-chave é 289. Há cinco anos, a sigla de Macron elegeu 308 nomes.

Agora, porém, o resultado é mais imprevisível. "Se conseguir uma maioria relativa, Macron vai precisar abrir a coalizão para outros partidos", afirma Cautrès. "E não sabemos que efeito a aliança significativa entre partidos de esquerda vai ter na mobilização do eleitor."

Na última semana, o ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon, liderou a formação de uma espécie de frente única incluindo verdes, comunistas e socialistas --juntos, os candidatos dessas siglas tiveram 30% dos votos no primeiro turno presidencial. A intenção do político é capitalizar seu terceiro lugar na disputa pelo Eliseu de forma a obter maioria absoluta na Assembleia e forçar sua nomeação como primeiro-ministro. O feito é considerado improvável, mas pode interferir nos planos de Macron.

Atento à movimentação, seu partido anunciou uma chapa, nesta quinta (5), com outras duas legendas de centro: MoDem, aliado desde 2017, e o recém-criado Horizontes, do ex-premiê Edouard Philippe.

Depois da disputa legislativa, dois desafios surgem como urgentes para Macron, embora com tempos diferentes. A curto prazo, responder à preocupação dos franceses com o custo de vida. A longo, convencer 30 milhões de eleitores que não votaram nele ou nem sequer foram às urnas no segundo turno.

Um caminho para ambos passa pela necessidade de recalibrar o modo de governar, considerado arrogante e distante da vida real da população. "Teremos que fazer com que ele perceba que não será possível continuar a decidir tudo sozinho. Ele tem um exercício de poder muito solitário. Vamos trabalhar para que nos ouça mais", disse à Folha a eurodeputada Marie Toussaint, dos Verdes.

Principal tema da campanha presidencial, o poder de compra continua sendo corroído pela inflação, que registrou nova alta em abril, atingindo 5,4% na taxa anual. Macron já liberou um pacote de medidas de EUR 25 bilhões, para amenizar a alta dos preços da energia, e sofre pressão de sindicatos para aumentar salários --uma das propostas da chapa de esquerda é subir o salário mínimo de EUR 1.250 para EUR 1.400.

O pleito vem especialmente da área da saúde, que sofre com a falta de profissionais após dois anos de pandemia, e da educação. Na campanha, Macron chegou a afirmar a professores que remunerações maiores serão direcionadas a quem assumir mais funções --o que despertou a ira da categoria.

Segundo economistas, a capacidade de gastos do governo passa pela reforma das aposentadorias, uma medida impopular e abandonada no primeiro mandato, mas vista como essencial. Na União Europeia, a França é um dos países que mais gastam em pensões e onde a população costuma sair do mercado de trabalho mais cedo. As manifestações dos Coletes Amarelos, no pré-pandemia, e o último 1º de Maio, com atos violentos, indicam que a tarefa não deverá ser tranquila.

Enfatizada ao longo da campanha do segundo turno e também em seu discurso da vitória, a meta de transformar a França em uma "grande nação verde" é envolta em percalços - a começar pelos resultados do primeiro mandato. Em 2020, a França foi o único país da UE a não cumprir a meta de energia renovável. E, no ano passado, o Estado foi condenado pela Justiça por não respeitar compromissos climáticos, como o corte de 40% da emissão de gás até 2030.

"O que ele propôs em busca de votos, como dobrar a taxa de redução das emissões de gás, não pode nem ser considerado promessa eleitoral. É algo recomendado pelos cientistas para respeitar o Acordo de Paris, uma lei internacional, e ordenado pela Justiça", diz Toussaint. "É ótimo que tenha dito que vai fazer, mas é algo que ele tem de fazer."

Um dos desafios nessa área é lidar com o setor agrícola, responsável por um quinto das emissões e relevante na economia e na cultura do país --e no qual Le Pen conquistou bons resultados

No cenário internacional, Macron, para continuar levando adiante seu projeto de "Europa soberana", precisa se aproximar do vizinho Olaf Scholz, premiê da Alemanha no cargo há menos de seis meses. Os dois lideram os países mais fortes da UE e protagonizam conversas envolvendo a Guerra da Ucrânia.

Por isso, já na segunda-feira (9), 48 horas após sua posse e no simbólico Dia da Europa - sob a sombra de um discurso de Vladimir Putin no Dia da Vitória em Moscou -, ele viaja a Berlim. É uma forma de reciprocidade ao gesto de Scholz, que visitou Paris logo após sua posse, mas também o indicativo de que Macron sabe que não tem tempo a perder.

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