Macron tenta aliviar tensão com mundo muçulmano, mas denuncia 'manipulações'

Jérôme RIVET
·2 minuto de leitura
O presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, em Paris, em 29 de outubro de 2020

Macron tenta aliviar tensão com mundo muçulmano, mas denuncia 'manipulações'

O presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu, em Paris, em 29 de outubro de 2020

O presidente francês, Emmanuel Macron, tentou acalmar a ira do mundo muçulmano contra a França com uma entrevista neste sábado (31) para a Al Jazeera, na qual disse entender que os muçulmanos possam se sentir "chocados" com as caricaturas de Maomé, mas denunciou "manipulações".

"Meu papel consiste em tentar acalmar as coisas", mas também em "proteger" a liberdade de expressão na França, explicou o presidente durante uma entrevista de quase uma hora, difundida pela emissora catariana, que tem grande audiência e influência no Oriente Próximo e no Magreb.

Macron lamentou os "mal-entendidos" e as muitas "manipulações" de suas declarações sobre as caricaturas de Maomé, realizadas "frequentemente por dirigentes políticos e religiosos" que, segundo ele, foram os impulsionadores dos protestos e boicotes a produtos franceses em vários países muçulmanos, como Catar, Paquistão e Mali.

"As reações do mundo muçulmano se deveram a muitas mentiras e ao fato de que as pessoas entenderam que eu sou favorável a estas caricaturas", afirmou o presidente sobre a origem desta campanha antifrancesa, que chamou de "indigna" e "inadmissível". 

As manifestações começaram em reação às declarações de Macron, nas quais ele defendeu que as caricaturas de Maomé continuassem sendo publicadas no semanário satírico Charlie Hebdo, depois que em 16 de outubro um jovem jihadista checheno decapitou o professor francês Samuel Paty por ter mostrado estes mesmos desenhos durante uma aula sobre liberdade de expressão.

- Defender a liberdade de expressão -

"Entendo que alguém possa se sentir chocado pelas caricaturas, mas não aceitarei jamais que se justifique a violência. Considero que nossa vocação consiste em proteger nossas liberdades e direitos", afirmou Macron.

"Sou favorável a que possamos escrever, pensar e desenhar livremente no meu país porque acho que é importante, representa um direito e nossas liberdades", acrescentou.

Esta entrevista à Al Jazeera foi gravada na sexta-feira, um dia depois do atentado em uma basílica em Nice, no qual um tunisiano de 21 anos matou três pessoas - entre elas uma brasileira - com uma faca.

Em reação a este ataque no sudeste da França, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, defendeu na sexta a liberdade de expressão, mas considerou que não é "isenta de limites" e não deveria "ferir de forma arbitrária e inútil" certas comunidades.

As interpretações mais estritas e conservadoras do islã proíbem qualquer representação do profeta Maomé.

Um dos dirigentes muçulmanos mais críticos a Macron foi o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que pôs em dúvida a "saúde mental" de seu colega francês e também disse que empreenderia ações após ter sido tema de uma caricatura da revista Charlie Hebdo.

Após ser perguntado sobre suas relações com Erdogan, o dirigente francês disse que deseja que "as coisas se acalmem", mas que "o presidente turco deve respeitar a França, a União Europeia e seus valores". 

ib-jri/jg/lb/eb/jz/mvv