Madeira ilegal: Bolsonaro recua e evita lista de países, mas fala em 'ilícito' de empresas, sem citá-las

Gustavo Maia
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BRASÍLIA — Dois dias depois de prometer que divulgaria os nomes de países que importam madeira extraída de forma ilegal do Brasil, durante cúpula virtual dos Brics, o presidente Jair Bolsonaro dedicou toda a sua transmissão ao vivo na internet desta quinta-feira ao assunto, mas recuou e não apontou a lista de destinatários do material brasileiro. Ele disse que não acusaria nenhum país de cometer ou ser conivente com crimes e focou suas críticas nos ilícitos de empresas, mas não citou nenhuma delas.

— O assunto hoje aqui basicamente vai se resumir na questão de exploração de madeira legal e ilegal, e quais empresas de quais países é que importam essa madeira nossa. A gente não vai acusar nenhum país aqui de cometer nenhum crime ou ser conivente de um crime, mas empresas que poderiam estar nos ajudando a combater esse ilícito, que interessa para nós qualquer ajuda nesse sentido — anunciou o presidente no início da live.

De acordo com o que Bolsonaro havia afirmado na terça-feira, alguns desses países são os mesmos que criticam o Brasil pelo desmatamento. Esse rastreamento seria possível com uma tecnologia adotada pela Polícia Federal que mostra o "DNA" da madeira, permitindo a localização de sua origem. Na noite de quarta, ele reafirmou, em conversa com apoiadores na chegada ao Palácio da Alvorada, que iria "mostrar os países que nos acusam de desmatar, mas que importa madeira clandestinamente nossa".

— Quem quiser saber a verdade, como é que esse país é roubado e acusado de cometer crimes, vai tomar conhecimento amanhã — comentou o presidente na ocaisão.

Na live, ele citou um projeto em tramitação no Reino Unido — sem acusar o país de comprar madeira ilegal —que proíbe a venda de commodities por parte de empresas que importem esse material de países que realizam o desmatamento, como o Brasil. E argumentou que este seria uma medida para afetar o país comercialmente, por conta da força do agronegócio brasileiro.

— Então é um grande jogo que existe entre alguns países do mundo, em especial para nos atingir, porque nós somos realmente uma potência no agronegócio, nos commodities que vêm do campos. E eles querem exatamente é diminuir a concorrência nossa, com toda a certeza facilitando outros comércios ou até mesmo o comércio interno desses commodities — afirmou.

Ele apontou ainda que o Reino Unido sediará a Cúpula das Nações Unidas sobre mudanças climáticas no ano que vem e disse que "vai ser feito política em cima disso, com o objetivo, em grande parte, de atingir o Brasil, porque o Brasil é o país que mais sofre com isso".

Bolsonaro então declarou que tem como "esses países colaborarem conosco" e reclamou que as críticas são "potencializadas". Ao lado do delegado e superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, e do ministro da Justiça e da Segurança Pública, André Mendonça, o presidente comentou que a Amazônia é uma "imensidão, maior que Europa Ocidental toda junta, então não é fácil você tomar conta de tudo aquilo".

O delegado Saraiva argumentou que a grande causa do desmatamento na região é a fraude nos processos administrativos que foram gerados "lá atrás", citando 2018 como o ano que bateu todos os recordes.

— É importante salientar que esses processos eles levam a uma confusão porque, na medida que eles são fraudados, o sujeito se declara como agricultor, mas ele não é agricultor. Ele está simplesmente grilando aquela terra para gerar um documento e aí ele poder esquentar uma madeira retirada, por exemplo, de terra indígena — disse o superintendente da PF.

Para o ministro da Justiça, André Mendonça, quem lucra de verdade com a madeira ilegal é "quem está com a empresa em outros países se enriquecendo de um produto que é valiosíssimo comprando por preço vil". Ele comparou a situação --de madeiras como a do Ipê serem vendidas pelo preço de madeira compensada-- a compra de uma Ferrari pelo de um Corolla.

— Então assim como nós devemos, se alguém está oferecendo uma Ferrari a preço de Corolla pra nós, ainda que a documentação esteja ali aparentemente legal, ora, eu não sou inocente para saber que aquele não é o preço de uma Ferrari. Então, por exemplo, no Código Penal, existe o crime de receptação. Quem compra um bem por valor vil é responsável por pelo menos desconfiar. E num caso como esse, onde estão tirando riquezas que demoram 400 mil anos para nós recompormos, esses países precisam se unir a nós não apenas no discurso, não apenas dizendo que mandam um pouco de recurso, mas impedindo que esse material entre e seja comercializado também nesses outros contextos internacionais — declarou Mendonça.

França e acordo com União Europeia

Depois que o delegado da PF foi questionado durante a live quanta madeira ilegal do Brasil a França recebe, e se esquivar da pergunta, Bolsonaro disse ter entendido o porquê da indagação e comentou que o país europeu atrapalha a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia, fechado no ano passado.

— A França é um concorrente nosso em commodities. O grande problema nosso para a gente avançar no acordo a União Europeia com o Mercosul é exatamente na França. Nós estamos fazendo o possível, mas a França, em defesa própria, nos atrapalha no tocante a isso daí.

Em outro momento da transmissão, ele reclamou da "acusação constante em cima do Brasil" por questões ambientais e disse que elas visam "obviamente nos enfraquecer comercialmente".

— A intenção é sempre nos deixar isolados naquilo que nós temos na nossa economia que é o mais pujante, que é a locomotiva da nossa economia, o agronegócio. Então essa preocupação tem que existir, e esse trabalho [da Polícia Federal] já começou há algum tempo, resolvemos externar para exatamente demonstrar o que estamos fazendo e o que outros países possam fazer para a gente ajudar com que essa extração ilegal de madeira cada vez mais deixe de existir na região amazônica.