Madeireiros cercam posto policial e queimam ponte após apreensão de escavadeiras em reserva de MT; vídeo

Uma equipe de fiscalização ambiental foi cercada, hostilizada, agredida e ameaçada por madeireiros e grileiros após serem flagrados extraindo madeira ilegalmente na Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, entre os municípios de Aripuanã e Colniza, em Mato Grosso, local com os últimos remanescentes contínuos de floresta no estado. O cerco ocorreu no momento em que os servidores públicos tentavam realizar o boletim de ocorrência no Núcleo da Polícia Militar, situado no Distrito de Guariba, nesta quarta-feira.

Amazônia Legal: Servidores da Funai e do Meio Ambiente de MT são alvos de ameaças e emboscadas por desmatadores de reserva

Fiscais ambientais relataram ao GLOBO terem feito uma operação a partir de uma estrada que estava sendo construída na reserva extrativista e que ligaria a uma outra Unidade de Conservação, a Guariba, localizada no Amazonas. Um tenente-coronel da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) interveio no conflito e conseguiu apaziguar os ânimos dos invasores, que ameaçam colocar fogo e apedrejar as viaturas .

— A Sema fez uma operação lá e encontrou muita extração ilegal de madeira e muita grilagem — disse um servidor, ao GLOBO. — Nesse trajeto, em Mato Grosso, quase divisa com a Amazônia, a fiscalização encontrou uma [escavadeira] PC e um trator usado para extração ilegal de madeira — acrescentou.

A escavadeira vinha sendo usada para abrir a estrada dentro da área de conservação. A região é alvo da cobiça de grileiros e madeireiros. Em dezembro do ano passado, a Polícia Federal, a Polícia Civil de Mato Grosso e o Ministério Público Federal abriram uma investigação para apurar a extração ilegal de madeira na Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt e nas quatro unidades de conservação no seu entorno.

As investigações mapearam a existência de uma organização criminosa. Estima-se que até 90% da renda da cidade venham do desmate ilegal, e há a suspeita de que os invasores estão abrindo estradas até a Bolívia, para o tráfico de drogas.

— Eles [madeireiros e grileiros] estavam na Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, a menos de 3 km da terra indígena, já na divisa de Mato Grosso com o Amazonas — relatou um outro servidor que participou da operação. Os fiscais ambientais pediram anonimato para evitar represálias.

Cerco aos policiais

Os servidores chegaram a queimar um trator e uma escavadeira , usados para extração ilegal de madeira. Após a abordagem, os fiscais detiveram dois envolvidos e os levaram para o Núcleo da Polícia Militar, no Distrito de Guariba, onde seria feito o boletim de ocorrência. Os demais correram para dentro da mata ao avistarem a aproximação dos agentes.

Quando os fiscais chegaram às instalações policiais, os servidores se viram cercados por cerca de 80 pessoas entre grileiros, madeireiros e outros apoiadores.

— Nós fomos cercados por uma quantidade considerável de pessoas querendo falar conosco. Aí nos deslocamos para a base da PM, o lugar mais seguro da região, para negociar com essas pessoas. Diante de um clima tenso, de um quadro que poderia deixar alguém ferido, no enfrentamento com os policiais, a gente optou em não conduzir essas pessoas [para Colniza] e registrar os fatos [posteriormente] na delegacia — contou um fiscal.

Os suspeitos de crime ambiental foram, então, liberados.

Emboscada

A equipe que fez a fiscalização ambiental foi alvo de uma emboscada quando deixava o Núcleo da Polícia Militar, no Distrito de Guariba. Os servidores se depararam com uma ponte queimada por madeireiros e grileiros, em uma estrada que dava acesso à rodovia MT-206, por onde os fiscais chegariam à base da Fundação Nacional do Índio (Funai).

— Armaram emboscada para a gente, atearam fogo em uma ponte que dá na MT-206, que dá acesso à uma base da Funai para a gente não passar, e cometerem algum delito contra os servidores da Sema — denunciou um servidor público.

Os fiscais descrevem o clima na região como tenso e de extrema hostilidade contra as ações do Estado.

O desmatamento na reserva de 2019 a 2021 aumentou 124%, em relação aos três anos anteriores, e evidenciou as atividades ilegais em Colniza, município marcado por homicídios ligados a conflitos fundiários. Ameaças e emboscadas foram feitas contra agentes da Secretaria de Meio Ambiente do estado e funcionários da Funai responsáveis pela Terra Indígena Kawahiva do Rio Pardo. Indígenas isolados vivem na área, que fica sobreposta à reserva.

— Há muitas emboscadas com pregos nas estradas para furar os pneus dos carros da Secretaria do Meio Ambiente. Conseguimos fazer operações somente com a ajuda do Batalhão Ambiental e do Bope da PM, quando não com o Exército — disse Maurren Lazzaretti, secretária de Meio Ambiente de Mato Grosso, em recente reportagem do GLOBO.

— A Sema é vista como inimigo número um, e a constância de crimes ambientais é direto. Para qualquer ação fiscalizatória existe uma resistência muito grande — diz um servidor.

Em nota, a Sema diz que "todos os autos de infração lavrados serão encaminhados ao Ministério Público do Estado (MPE)". A pasta também informou que a reserva extrativista é utilizada para a retirada de itens como castanha e seringa.

"Não é permitido o desmate dentro da Unidade de Conservação, que faz parte do Bioma Amazônia", diz o comunicado.

A Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso informou, também por meio de nota, que "acompanha a adoção das medidas legais necessárias à identificação e responsabilização dos autores das agressões e ameaças aos agentes públicos".

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