Mãe de jovem lésbica, jornalista abre canal para ajudar pais a aceitarem filhos

Giorgia Cavicchioli
A jornalista Tatiana Ferraz e sua família. Foto: Arquivo Pessoal
A jornalista Tatiana Ferraz e sua família. Foto: Arquivo Pessoal

Mãe de um menino e de uma menina, a jornalista Tatiana Ferraz recebeu a notícia que sua filha era lésbica quando a menina tinha 13 anos e disse para ela que sentia que estava apaixonada por uma menina.

Tatiana diz que o “choque” em relação à notícia não demorou mais de 30 segundos e que, desde então, ela e o marido acolhem e até ajudam a filha na vida amorosa dela.

Porém, a reação da família de Tatiana foi diferente de muitas famílias de pessoas LGBTI+. Isso ficava evidente quando a jornalista, que também é professora universitária, ouvia histórias de alunos que não eram aceitos pela família. Pensando nisso, ela teve a ideia de abrir um canal no YouTube para ajudar pais e mães de jovens que são homossexuais.

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Tratando o assunto de forma leve, o canal “Relaxa, Mãe!” tem mais de dois mil inscritos no YouTube. “Eu sempre tento passar a ideia de que não é um “defeito” ser gay. Há outras coisas com que mães e pais precisam se preocupar, como caráter, ética... o que um filho faz entre quatro paredes não define quem ele é”, afirma Tatiana.

Leia a entrevista completa:

De onde veio a ideia de fazer o canal?

Tatiana Ferraz: Como professora universitária, esse assunto sempre vinha nas conversas... e eu ficava assustada com a quantidade de meninos e meninas frustrados por não poderem conversar sobre orientação sexual com os pais. E como eu sempre falava que isso era muito normal para mim, eles brincavam dizendo que eu deveria "conversar com a mãe deles". Até que um dia eu publiquei na internet um texto, no dia das mães, sobre esse assunto. Nele eu falava do meu desejo como mãe de homossexual: eu queria apenas que isso não fosse motivo de espanto, que fosse a coisa mais normal do mundo eu chegar na casa de alguém com a filha de mãos dadas com outra mulher. Eu sempre tento passar a ideia de que não é um “defeito” ser gay. Há outras coisas com que mães e pais precisam se preocupar, como caráter, ética... o que um filho faz entre quatro paredes não define quem ele é.

Qual sua intenção com o canal?

Tatiana: Apenas ajudar pessoas. Na medida do possível, tento responder a todos os que me escrevem. Geralmente são mães que perderam o chão ao saberem a orientação sexual dos filhos. Eu, sem dar uma de psicóloga mas somente de amiga, tento passar experiências minhas que provam que isso não tem nada de mais.

O que sua filha achou quando você falou que iria fazer um canal? Ela gostou?

Tatiana: Sim, gostou muito. Até incentivou. Tem algumas frases dela que eu até chego a postar na página do face. Tipo: Uma vez ela me escreveu: “Mãe, vou levar minha namorada hoje em casa pra você conhecer. Por favor, comporte-se como uma pessoa normal!” (risos). Foi uma brincadeira, porque ela sabe que eu sou faladeira, escandalosa, e posso deixar a pessoa não tão à vontade. E isso nada tem a ver com sexualidade.

Como você pensa nas pautas para o canal? Quais assuntos acha importante abordar?

Tatiana: Eu tenho pouco tempo, e tenho mais escrito textos no face do que publicado videos. Mas eu penso que já falei demais de mim e da minha filha. Quero agora entrevistar outras mães, outras famílias que também lidam de boas com esse assunto. É esse o meu objetivo: mostrar para famílias de gays que somos apenas famílias, como outras quaisquer. Temos histórias, damos risadas, falamos do namoro dos filhos, reclamamos das noras…

O que você recebe de retorno das famílias que assistem ao canal? Elas dizem que ajudou na vida delas?

Tatiana: Eu até fico envaidecida porque me agradecem muito, me elogiam muito. E não só as mães. Muitos jovens gays escrevem dizendo que os conteúdos aquecem o coração deles. Também há uma boa parte que diz "Eu queria tanto que a minha mãe fosse assim". Esse tipo de frase me corta o coração. Não consigo imaginar que mães e pais estejam perdendo tempo de ficar com os filhos apenas pelo fato de eles namorarem pessoas do mesmo sexo.

E com você? Como foi e é a sua experiência com sua filha?

Tatiana: Eu tive um "choque" que durou 30 segundos (risos). Na hora pensei que talvez ela fosse sofrer, que seria muito "diferente", mas em seguida me veio o pensamento de que o importante é que ela seja feliz. E meu marido, o pai dela, agiu exatamente da mesma forma. Aliás, ele é tão fofo que chega a comprar presentes para as namoradas da Lucília e chegou a ir com ela na Casa das Alianças comprar um par para oficializar um "pedido de namoro" da filha. Não é demais? Um pai ajudando a filha a escolher a aliança que vai oferecer para a namorada?

Veja um vídeo do canal: