Mãe de Kathlen rebate PM sobre tiroteio: 'Quem foi recebida a tiros foi minha filha'

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Jaqueline de Oliveira Lopes, mãe de Kathlen Romeu, afirmou que partiu da PM (Polícia Militar) o tiro que matou a jovem grávida em uma ação policial no Complexo do Lins de Vasconcelos, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. 

"Foi a polícia que matou a minha filha. Foi a PM que tirou a minha vida, o meu sonho (...). Essa historinha que é contada há anos na televisão que foi troca de tiros, que a polícia foi recebida a tiros. Quem foi recebida a tiros foi minha filha, minha única filha", relatou Jaqueline, na manhã desta quarta-feira (9) no IML (Instituto Médico-Legal).

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Kathlen estava grávida de 4 meses e foi atingida por um tiro no braço e que atravessou seu tórax. A jovem foi levada para o Hospital municipal Salgado Filho, no Méier, mas não resistiu. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) investiga a morte de Kathlen.

A mãe da designer de interiores confirmou que deixou recentemente a comunidade após 40 anos morando no Lins de Vasconcelos. Nesse período, segundo ela, foram diversos os casos e relatos de violência policial contra moradores da periferia.

"Mora no morro quem precisa, gente do bem mora no morro porque precisa. Eu saí (do morro) tem um mês, e são 40 anos morando na comunidade. E tudo é falta de respeito. A polícia já entrou na minha casa, tá. Eles acham que todo mundo é parente de bandido, que qualquer vizinho é bandido. Não é assim que funciona. Parem de matar a gente."

Madrinha de Kathlen afirma que PM voltou ao local para retirar cápsulas de balas

Ao Yahoo Notícias, Monique Messias, madrinha da vítima, contou que moradores da comunidade viram a PM retornar ao local do crime para retirar cápsulas de balas do chão, na intenção de ocultar os responsáveis pela morte da modelo.

“Já que a história repercutiu tanto, vamos ver se conseguimos justiça de verdade”, afirmou, dizendo acreditar que a jovem foi baleada pela Polícia.

A avó de Kathlen, segundo Monique, já havia alertado a respeito de operações na comunidade do Lins nos dias anteriores, afirmando que a área estaria perigosa. O crime ocorreu na esquina da rua onde Monique mora, entre as ruas Araujo Leitão e Sargento Jupir.

Ainda sobre a tarde de ontem, Monique contou que Kathlen caiu nos braços da avó, e que esta foi impedida pela PM de seguir na viatura junto da neta.

“A Kathlen era diferenciada na comunidade, a mãe dela lutou sozinha, desde pequena. As duas lutaram demais até conquistar o espaço dela”, conta.

Quase 700 mulheres foram baleadas desde 2017 no RJ

De 2017 para cá, quase 700 mulheres foram baleadas na Região Metropolitana do Rio. O levantamento consta na plataforma de dados Fogo Cruzado, e contabiliza tanto as vítimas baleadas em operação quanto as de homicídios.

Ao todo, foram 681 mulheres atingidas por disparos de arma de fogo, das quais 258 morreram. De 2017 para cá, 15 vítimas baleadas estavam grávidas; oito morreram.

Não só Kathlen - relembre outros casos de mulheres atingidas:

  • Karolayne Nunes de Oliveira, 19, foi morta durante um tiroteio no Complexo do Alemão, em janeiro de 2018 e estava grávida de 5 meses.

  • Dandara Damasceno de Souza, 21, foi atingida por um tiro no rosto na Vila Vintém, em março de 2018. Ela foi socorrida ao Hospital Municipal Albert Schweitzer, em Realengo, mas já chegou ao hospital morta.

  • Maiara Oliveira da Silva, 20, grávida de 5 meses, foi baleada durante troca de tiros no Complexo da Maré, em outubro de 2020. A vítima perdeu o bebê.

Bebês também foram mortos em operações da polícia

Ainda de acordo com a plataforma do Fogo Cruzado, 10 bebês foram baleados quando ainda estavam na barriga da mãe. Somente um deles sobreviveu.

Em abril de 2019, uma grávida de 8 meses foi baleada na barriga em Costa Barros. A bala atingiu a cabeça do bebê.

Outro bebê também morreu antes de nascer em julho de 2017, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Claudineia dos Santos Melo, grávida de 39 semanas, foi baleada indo ao mercado, quando foi atingida.