Mães-órfãs lutam por memória, justiça e direitos humanos

Mães-órfãs se reuniram em Fortaleza no final de maio (Jéssica Gomes/Cedeca Ceará)
Mães-órfãs se reuniram em Fortaleza no final de maio (Jéssica Gomes/Cedeca Ceará)
  • Mães-órfãs pedem por justiça e memória

  • Encontro reuniu pessoas de 12 estados

  • Fim da violência policial esteve na pauta

O Encontro Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado reuniu entre os dias 17 e 20 de maio na cidade de Fortaleza pessoas de 12 Estados brasileiros que reivindicam o fim da violência policial e a reparação social de perdas humanas.

A quinta edição do evento realizou atos ecumênicos, mesas de debates, reunião ampliada na Assembleia Legislativa, entrega de carta com reivindicações ao governo e a II Travessia, uma passeata pelo centro da cidade. O evento já teve edições em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Goiânia e, dessa vez, ocorreu no Ceará.

Em Fortaleza, a Chacina do Curió deixou mães-órfãs, como é o caso de Suderli de Lima que integra o Movimento Mães e Familiares do Curió. "Essa luta começou com indignação. Além de matarem nossos filhos pelo braço armado do Estado, o próprio braço armado do Estado ainda culpabilizou nossos filhos. Eles inocentes nem sabem até hoje porque morreram. Então, iniciamos esse grupo para provar que nossos filhos em vida não deviam nada à polícia nem seja a quem for. Não tinham passagem nem nada. Só queriam viver e esse direito foi tirado deles", relata. A Chacina do Curió aconteceu em 2015 e é considerada a maior do Estado com 11 mortos e sete pessoas com sequelas permanentes.

Cícera Ivanilda é de Florianópolis e perdeu três filhos, um com quinze anos, outro com doze e o mais novo com sete. As mortes aconteceram em 2017, 2019 e 2020, o que levou à fundação do Movimento Naninho vive em nós. "Eu espero que a polícia pare de matar os inocentes. Pergunte primeiro. Tem que investigar primeiro. Não mate antes. Tem muita mãe que não tem uma estrutura legal. 'Mataram meu filho, e agora?' Eu mesma sou uma. Fiquei desestruturada. Mas Deus é muito bom e meu deu muita força nas pessoas para me ajudar. A gente briga nessa luta. A nossa luta é para que o filho dos outros não morra como o nosso morreu", declara.

Iza Jaqueline representou o Desencarcera Sergipe no encontro para reforçar a rede de movimentos, a busca por políticas públicas satisfatórias e a luta contra opressões. "Eles deixam de investir em educação para investir em segurança pública. A gente vê quem está às margens, quem está ainda recebendo essas mazelas. Então, criou-se uma rede de movimentos, em que a gente luta contra todas essas opressões que vêm acontecendo com o povo pobre preto",destaca. Para Jaqueline, as dores dessas mães têm que ser ouvidas, assim como a periferia e a população carcerária têm que ser percebidas de forma mais humana. Priscila Serra, fundadora do Coletivo de Familiares e Amigos Privados de Liberdade do Amazonas e articuladora do Desencarcera AM, luta contra a negligência e o terrorismo do Estado.

"Acabamos nos deparando com várias violações do Estado, como o genocídio da população negra e jovem periférica do nosso país. No Amazonas, a gente já teve a Chacina do Crespo, Chacina do Rio Abacaxi e a Chacina da Tabatinga, que foi no último ano. A gente vem trazendo várias lutas, lutas de luto por nossos familiares, por pessoas que a gente conhece, pessoas que vêm de baixo e todos sem exceção somos vítimas do terrorismo do Estado. A única coisa que a gente entende é que o Estado quer é tombar ou aprisionar e é isso que a gente luta contra. A gente precisa dizer que o alvo somos nós das periferias, das favelas de todo o país", constata.

Priscila considera importante ocupar o espaço com essas mães para evitar que novas perdas aconteçam. "Eu não quero enterrar ninguém meu, eu não quero que ninguém seja vítima, que o filho da minha vizinha, que o filho da minha amiga, que os meus netos sejam vítimas. Porque o que a gente fica assistindo é que são lutas de anos, desde 1993. E as chacinas só vêm se modernizando ", observa.

Outras mães da região Norte também se movimentam na luta por justiça, como é o caso de Arlete Roque, do Mães de Manaus. "O Estado deveria parar de ser genocida e de continuar a matar nossos filhos. E de matar nossas mães porque muitas das mães morrem junto com os filhos." O filho de Arlete sumiu em uma abordagem policial e o corpo até hoje não foi encontrado.

Eliana Valadares integra a Frente Estadual pelo Desencarceramento e a Associação de Mães e Familiares de Vítimas do Estado do Espírito Santo, militando por Direitos Humanos há mais de uma década. Em outubro de 2020, também perdeu um filho em abordagem policial. "Eu venho nessa luta com mães há muitos anos. Era apoiadora, simpatizante. A partir de 2020, eu vejo essa luta de outra forma. Hoje, eu tenho esse espinho na minha carne. O meu luto se transformou em luta", declara. Nessa luta, ela busca a não criminalização das periferias e julgamentos legítimos. "Muitas vezes, temos que provar que nossos jovens não são criminosos. Eles que são as vítimas. Quando entramos em um tribunal, além de sermos criminalizados, vemos nossos filhos, já em memória, já mortos, sendo criminalizados. Isso é a maior crueldade, a maior injustiça que o Brasil tem feito com as mães do território nacional brasileiro. Tenha mais empatia, tenha mais amor ao próximo. Olhe para nós da periferia, nós, negros, e enxerguem pessoas, enxerguem vidas! Tenham mais amor! Muitas das vezes, somos enxergados como bichos ou nem somos enxergados", exclama.

Luciana Pereira foi de Goiás ao Ceará para dar voz ao Mães de Maio do Cerrado. Ela teve um filho de dezesseis anos vitimado em um incêndio em maio de 2018. "Dez adolescentes foram queimados vivos dentro do Centro de Internação Provisória situado no 7° Batalhão da Polícia Militar de Goiás. Meu filho era um deles." O rapaz cumpria medidas socioeducativas e as causas do fogo não foram justificadas, desde então Luciana luta por respostas. "Eu queria saber o que tinha acontecido com meu filho, como esse incêndio começou, como ele teria começado, por que os socioeducadores não apagaram o fogo, não ligaram a água imediatamente e, infelizmente, essas respostas eu não obtive porque o Ministério Público do Estado de Goiás não aceitou a denúncia da polícia civil e arquivou o inquérito", conta. A cofundadora do coletivo goiano compartilha apoio e colabora com o acompanhamento psicológico de outras mães.

"Nenhuma mãe cria seu filho nem para ser preso nem para ser morto. O ciclo da vida é o ciclo de enterrar seus pais. Hoje é uma falta muito grande. Meu filho para mim era um menino. Não tinha barba, não deixou para mim nenhum neto. Eu não vou ser avó de um filho dele, entendeu?" Ela critica ainda a política de reinserção realizada com os jovens. "Meu filho foi apreendido para quê? Para reinserção. Porque teve a audiência e a juíza me disse que o Lucas ia cumprir uma medida socioprotetiva, medida protetiva cautelar para manter a integridade dele física, moral e emocional. E eu recebi o corpo do meu filho carbonizado. Não recebi nem meu filho inteiro", desabafa.

Sol Oliveira representou o Movimento Mães em Luto da Zona Leste de São Paulo no evento e recordou a perda do filho de vinte anos em março. "O policial mata com a bala e o Ministério Público mata também com a caneta quando pede o arquivamento de um caso que não há investigação alguma. A gente luta pela vida. Nada que fizermos, infelizmente, vai trazer nossos filhos de volta. Nossos filhos continuam vivos na nossa voz e coração. Nossa luta é para que outra mãe não venha sentir a mesma dor que a nossa", salienta. Ela também destaca sororidade com as mães de policiais vitimados.

"Quando um policial morre, eu sinto muito mesmo. Porque a dor da mãe dele vai ser igual a minha, não vai ser maior nem menor. A mesa dela sempre vai ter uma cadeira vazia, um prato vazio", reflete. Para Sol, a luta busca igualar direitos sociais. " Eu luto por direitos humanos, por igualdade, porque o jovem de classe alta tem o seu direito respeitado de ir e vir, de estar em uma balada. O policial não vai chegar jogando bomba nem atirando. Eu quero que os jovens de periferia tenham esse mesmo direito. O Estado é um monstro muito grande, mas, nós, mães, somos leoas. E ainda vamos parir uma periferia com todos os direitos respeitados", profetiza.

Irone Santiago, do Rio de Janeiro, integra o Coletivo de Mães da Maré e destaca o quanto o evento é solidário às mães que perderam filhos. Em fevereiro de 2015, a Operação GLO - Garantia da Lei e da Ordem - não matou, mas vitimou seu filho. "A nossa sociedade não ressocializa. Ela só quer prender, mas não ressocializa ninguém. Eu também sou mãe de vítima. Sou mãe de Victor Santiago. Quando o Exército Brasileiro ocupou a Favela da Maré, meu filho foi alvejado. Levou dois tiros de fuzil e ele se encontra paraplégico e amputado. O Estado tirou o direito dele de ir e vir.", relata. Para ela, o movimento fortalece a luta de diferentes vozes. "Transformamos tudo isso em luta. Hoje eu faço um trabalho social com a comunidade de explicar aos moradores os direitos que eles têm e que esses direitos não podem ser violados. A polícia não pode chegar com uma chave mestra, abrir nossas portas, roubar nossas coisas, matar. Eu preciso estar viva para viver", destaca.

Bruna Silva também integra o mesmo coletivo carioca e segue resgatando a memória do filho Marcos Vinicius, alvejado com a farda escolar aos catorze anos de idade, em 2018. "Meu filho me fez uma pergunta quando eu cheguei à UPA: 'Mãe, pelo amor de Deus, o que eu fiz com a polícia? Eles nao me viram com a roupa e o material de escola?' Então, eu tenho essa pergunta até hoje", confessa. A luta de Bruna busca um Estado democrático de direito para todos, educação, saúde, saneamento básico e justiça. "Enquanto a justiça for paga para ser cega, nós, mães, vamos estar aqui para ser o colírio dessa justiça. A gente quer uma justiça que enxergue esse genocídio do povo negro, pobre dessas favelas, dessas crianças. Que eles venham preservar a vida e o direito de ir e vir de cada cidadão brasileiro. Vidas importam. Nossos filhos têm mãe. Nossos mortos têm voz. Estamos na luta, por justiça e memória", declara.

Sandra Gomes reforça a luta carioca e nacional, participando do Mães do Jacarezinho. "Eu perdi o meu filho Mateus Gomes na Chacina do Jacarezinho, onde teve 27 mortos e meu filho era um deles. Meu filho foi executado sentado em uma cadeira. E, naquele momento, eu não consegui entender. Depois de cinco meses eu me levanto com essa luta porque eu acho que precisava dar voz ao meu filho e precisava gritar pro Estado que eu precisava de resposta. A partir daquele momento, eu me juntei com essas outras 26 mulheres e formamos um coletivo que hoje busca justiça e reparação do Estado", conta.

O movimento já conquistou indiciamentos policiais e inocentamentos de vítimas. "Eu consegui o inocentamento do meu filho. Porém, eu aceito o inocentamento do meu filho, só não aceito que foi bala perdida. Porque o Estado me impôs aceitar que meu filho estava no lugar errado na hora errada. Meu filho não estava no lugar errado na hora errada porque ele é cria daquele território. Então, quem estava errado naquele momento era o Governo do Estado do Rio de Janeiro que colocou os policiais lá dentro na pandemia", pontua. Sandra segue a luta por reparações e respostas sobre a morte do filho atingido por dois tiros de fuzis pelas costas. "Hoje, a minha luta é por reparação. O Estado só inocentou, mas ele tem que pedir desculpas para mim e para minhas netas. Meu filho deixou duas filhas. Eu preciso dar respostas para essas meninas", diz.

Na terça(24), mais uma operação policial aconteceu no Rio de Janeiro, desta vez na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, deixando ao menos 22 mortos e sete feridos. Agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal procuravam chefes do Comando Vermelho que estariam escondidos na comunidade e deflagaram a considerada terceira maior chacina carioca.

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