Magic Paula: ‘As más gestões mataram gerações do basquete’

Há pouco mais de um ano, Maria Paula Gonçalves da Silva, a Magic Paula, tornou-se a primeira mulher vice-presidente da história da Confederação Brasileira de Basquete (CBB), entidade que sobrevive com a ajuda de aparelhos após décadas de más gestões. A ex-atleta está no olho de um furacão e, ao mesmo tempo, bem longe dele. Com 60 anos recém-completados, ela decidiu “viver de maneira mais tranquila” em Santo André, um vilarejo com menos de mil moradores no município de Santa Cruz Cabrália, próximo a Porto Seguro, na Bahia. Pela internet — ferramenta que também usou para falar com O GLOBO sobre a maturidade e o trabalho —, ela tenta resgatar o brio do basquete nacional.

Como se sente aos 60 anos?

Sempre lidei com a idade de maneira muito tranquila. Nunca me incomodou, e acho que não vai. É preciso ter tranquilidade para lidar com as mudanças do corpo e do rosto e com as marcas. Eu tenho zero problema com isso.

Você está igual...

Mais ou menos. Depende de como se leva a vida. O tempo pode e deve nos fazer seres humanos melhores. Hoje, lido com mais facilidade com coisas que antes me incomodavam. Para me tirar do centro, tem de ser algo forte. Não quero adoecer por ter me estressado com coisas sem importância.

Como consegue trabalhar tão bem essa questão?

Temos aquela coisa de construir o futuro e depois se aposentar. Esse período pode acontecer quando não há mais agilidade e ímpeto com a vida. Não queria que fosse com 70 ou 90 anos. Me dei o direito de viver de maneira mais tranquila, buscando o que me faz bem. Durmo e acordo cedo. É optar, escolher e viver com dignidade. Sempre tive dificuldade com peso, mesmo enquanto atleta, e continuo. Então, hoje, a atividade física me dá bem estar. Digo isso porque não vivo do meu corpo e rosto. Hoje, ninguém está feliz com o que tem.

Por isso foi para a Bahia?

Vinha para cá, onde tenho casa desde 2014, a cada dois meses. Fui me encantando e, no ano passado, acabei ficando. A pandemia nos direcionou para um êxodo diferente, me perguntei por que a gente busca tanto a vida nas grandes cidades, que nos levam a consumir o que nem temos necessidade. Tantas roupas e sapatos... Não precisamos de muito.

O que gosta de fazer aí?

Faço hidroginástica no rio, ando de chinelo e me locomovo de bicicleta. Estou no meio da natureza, moro num condomínio com quintal. Cuido das plantas, gosto de pintar um negócio ou outro... Estou sempre fazendo algo.

Como concilia a vida na Bahia e o trabalho na CBB?

Quando fui convidada para ser vice do Guy (Peixoto), foi para estar perto das seleções brasileiras e tentar turbinar o basquete feminino. Isso me encantou. Não o cargo. E, desde o início, o combinado foi não sair da minha casa. Necessitando da minha presença, eu vou, mas nós coordenamos tudo online (Paula deve embarcar esta semana para a Argentina para acompanhar a AmeriCup, com a seleção sub-18). Somos muito disciplinados e a equipe que trabalha com a gente também. As tarefas podem ser cumpridas aqui ou lá. Isso depende do profissional que cada um é... Cheguei a um estágio da vida em que não queria mais o compromisso de estar lá (na sede da CBB) das 9h às 17h.

Você foi eleita justamente no Dia Internacional da Mulher. O desafio é maior para nós?

O esporte foi feito por homens para homens, mas a gente já galgou muito. Principalmente as atletas. Na gestão, estamos muito aquém. Isso acontece também porque a gente não se apresenta para alguns cargos. Às vezes, temos as oportunidades e medo de assumir.

Não tem receio de manchar sua imagem de atleta?

O único medo é sofrer com questões que não estão dentro da minha filosofia. Minha passagem meteórica pelo Ministério de Esportes, em 2003, foi mais ou menos isso. Comecei a ver coisas com as quais eu não concordava e achei melhor me retirar. Mas é o que eu digo: você só verá o tamanho do buraco se estiver próximo dele. Vivemos momentos difíceis, roteiros escabrosos de corrupção no esporte em geral. E não acredito que isso tenha acabado. Mas, enquanto eu estiver dentro do processo e podendo continuar, vou enfrentar o desafio. Não sei se em quatro anos a gente consegue mudar tanta coisa que fizeram ao basquete brasileiro.

Quando assumiu, você disse que a CBB enfrentava dívidas de mais de R$ 45 milhões, processos trabalhistas e cíveis e sofria com a falta de certidão negativa de débitos (o que impede parcerias com entes públicos). A entidade foi suspensa pela Fiba, e as seleções perderam torneios internacionais. Como se chegou a esse ponto?

A culpa é do próprio basquete, porque, quando se reelege alguém que não faz a coisa do jeito que tem de ser, é porque muita gente concordou com isso, certo? Para a gente que não tem certidão negativa de débito, a dificuldade de receber recursos inclui o privado. Hoje, as empresas têm compliance e, quando veem a situação da entidade, é natural que não queiram ser nossas parceiras. A gente passou a negociar e pagar essa dívida, muito em função da nova lei que permite que 20% da verba das Loterias sejam investidas no pagamento dessas pendências. Mas a verdade é que esse recurso, que recebemos via COB, é um terço do que necessitamos. Principalmente com a entrada do 3 x 3. Precisamos urgentemente ter resultados para receber também recursos por eles. O grande legado da nossa gestão seria conseguir essa certidão.

Pela segunda vez seguida, o Brasil não vai disputar o Mundial Feminino.

Somos uma seleção que precisa treinar, as jogadoras precisam estar juntas. Na minha época, para o Mundial da Austrália (o Brasil foi ouro), treinamos quatro meses. Mas, hoje, a Fiba permite que as atletas fiquem em seus clubes até quatro dias antes da competição. E, olha, a gente perdeu de dois pontos da Coreia do Sul, de seis da Sérvia e de 12 da Austrália. Se ganhasse da Coreia, a gente estava dentro. Bateu muito na trave.

Como se resolve isso?

Estou aqui de passagem e não posso ter essa cobrança após a terra ter sido arrasada por anos. Não dá para fazer mágica, mas dá para começar. O que quero é classificar para Paris-2024. Vamos fazer todo o possível para a gente não ficar de novo fora de uma Olimpíada.

E a seleção permanente que foi bandeira na eleição?

Temos duas realidades, de atletas que estão aí há algum tempo e que talvez estejam deixando a seleção, caso da Érika. Mas já temos uma nova geração. O investimento tem de ser feito nas jogadoras de 18, 19 anos. E a ideia de ter uma seleção permanente é para fortalecer esse grupo e obter resultado daqui a quatro, oito anos. Mas isso também exige investimento. A ideia é que elas estivessem no mesmo clube, com o desejo de ter um time jovem. Ainda não conseguimos mesmo com boas conversas com dois times. Também porque não será fácil trazê-las. A maioria atua nos EUA porque aqui não tinha competição, foram para lá por uma questão de sobrevivência. Se a gente não pode oferecer o melhor, que elas tenham o melhor em outro lugar. Pelo menos, voltarão falando inglês e formadas. Se vão virar jogadora é outra história. As más gestões mataram gerações do basquete. A gente sabe que temos uma comunidade que quer resultados imediatos, mas a gente tem de seguir fazendo o nosso trabalho. Muitas vezes o próprio basquete não torce pelo basquete...

Como assim?

Exemplo, a gente convoca uma seleção. Tenho recurso para treinar uma semana. Mas teríamos de treinar um mês. Se não, a outra seleção não se apresenta. Temos de nos adequar. Aí, os cornetas começam: "Mas como treinar só sete dias?". É mais fácil criticar do que ajudar. Eu falo que eu já fui pedra, já estive de fora. Hoje eu vejo que não é bem assim.

O que destacaria até agora em um ano de trabalho?

O fortalecimento da equipe da CBB com mulheres, a realização do Brasileiro no ano passado e a escolha de embaixadoras nos estados para nos ajudar a ter um diagnóstico de como estamos no Brasil. Além da ampliação do Adelante, projeto de capacitação do Neto (José Neto, técnico da seleção feminina) e da Adriana (Santos, coordenadora) com mais de 1.500 inscritos. É muito pouco perante o que ainda precisamos.

O que achou do skate, do surfe e da escalada em Tóquio-2020?

A gente que é das antigas acha meio estranho. Mas teve um poder altíssimo de levar a juventude a se movimentar. Esse tem sido um desafio grande. Tem questões nestas modalidades muito diferentes das tradicionais. Essa espontaneidade e essa coisa menos rígida que o esporte traz é bem bacana. Tem de ser mais leve. Se eu tivesse que repetir de novo (carreira como atleta), era isso que eu faria. Seria mais leve e me divertiria mais.

E qual a novidade sobre o filme que vai contar sua história e da Hortência?

O filme está em fase de captação e montagem do roteiro. A ideia é mostrar duas mulheres dos anos 90 que eram empoderadas e fizeram o que fizeram com o basquete feminino junto com outras mulheres incríveis. Lá atrás já teve gente que não dava bola para o que a torcida falava e ia atrás dos seus sonhos.

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