Maia diz que Guedes confirma Bolsonaro como mentiroso e que será adversário em pautas de costumes

Isabella Macedo
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Edilson Dantas / Agência O Globo

BRASÍLIA — Em mais um episódio de atrito entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o presidente Jair Bolsonaro, o deputado rebateu em plenário a afirmação do presidente e o chamou de mentiroso. Em uma transmissão em suas redes sociais ontem, Bolsonaro jogou em Maia a culpa por não haver um 13º pagamento para beneficiários do Bolsa Família no final do ano. O pagamento extra era uma promessa de campanha de Bolsonaro.

Maia citou uma entrevista do ministro da Economia, Paulo Guedes, na manhã de hoje para afirmar que o próprio governo desmente Bolsonaro e que a narrativa de que ele é o responsável por deixar medidas do governo perderem a validade são utilizadas por apoiadores do presidente nas redes, aos quais se referiu como “bolsominions”.

— Peguem as redes sociais dos extremistas, dos bolsominions, que você vai ver que está lá: “Rodrigo Maia derruba e caduca medida provisória do 13º do Bolsa Família e do BPC”. Então, é uma articulação conjunta para desqualificar e desmoralizar a imagem dos adversários do presidente da República. Mas hoje, o próprio ministro Paulo Guedes confirmou que o presidente é mentiroso, quando disse que de fato não há recursos para o 13º do Bolsa Família — disse Maia da tribuna da Câmara.

Na manhã de hoje, Guedes afirmou, em entrevista à imprensa, que não é possível conceder o 13º para o Bolsa Família porque precisa haver uma compensação e não há espaço para isso.

— Se eu, por dois anos, der o 13º, eu configuro uma despesa permanente, e tem que haver uma compensação com redução de outra despesa. Como isso não foi possível, pelo pandemônio da pandemia, eu sou obrigado, contra a minha vontade, a recomendar que não pode ser dado o esse 13º — disse.

Guedes afirmou que, se o valor for concedido, o Bolsonaro corre risco de sofrer impeachment.

Apesar da fala de Bolsonaro em suas redes ontem, a medida provisória (MP) a qual o presidente se referia foi assinada por ele prevendo o pagamento extra apenas em 2019. Durante a tramitação no Congresso, uma comissão mista alterou a MP para tornar o benefício permanente. Na época, o governo foi contra e pediu para que a MP não fosse a voto e perdesse a validade.

Após a declaração de Bolsonaro, Maia decidiu colocar na pauta de votações da Câmara de hoje a MP 1000, que até o fim do ano o auxílio-emergencial. Como a oposição tentava estender para 2021 a duração do auxílio-emergencial por meio da votação dessa MP, mas o governo é contra, o governo tentou convencer o presidente da Câmara a não votar o texto.

— O presidente não pediu pra criar o 13º permanente ontem? Está é a melhor MP pra resolver isso — disse Maia ao GLOBO na manhã de hoje, antes da sessão.

Apesar de incluir o texto na pauta de hoje, a chance de que ele seja votado é pequena. Além da obstrução apresentada pela base e falta de acordo em torno do texto, há ainda a MP que permite o ingresso do país na aliança internacional por vacinas contra Covid-19, a Covax Facility e outros mais de 20 texto na pauta, e não há consenso para todos os temas.

“Leal adversário"

Maia deixou a cadeira da presidência da Câmara para fazer o discurso rebatendo Bolsonaro. Além de chamar o presidente da República de mentiroso, Maia fez questão de destacar o trabalho do Congresso ao longo do ano e afirmou que precisava defender a Câmara e sua presidência.

Ele voltou a defender a aprovação das reformas tributária e administrativa e a urgência de analisar a PEC Emergencial. Maia também afirmou que manterá sua posição ao lado da democracia e que será um “leal adversário” do presidente na agenda de costumes.

— Eu fiz questão de fazer esse registro. Não é a primeira vez e tenho certeza que não será a última, porque continuarei no mesmo lugar que sempre estive. Do lado da democracia, contra a agenda de costumes que divide o Brasil, que radicaliza o Brasil, que gera ódio entre as pessoas. E como essa é a agenda do presidente, eu continuarei sendo um leal adversário do presidente da República naquilo que é ruim para o Brasil — disse Maia.

Ele completou seu discurso afirmando que será a favor das pautas que considera modernizadoras do estado brasileiro, desde que estejam dentro do limite do teto de gastos e da responsabilidade econômica.

— E serei um aliado do governo, e não do presidente, do governo, nas pautas que modernizam o Estado brasileiro. Respeitando o limite de gastos, já que nossa carga tributária é muito alta e a população não merece, mais uma vez, pagar a conta da incompetência e da falta de coragem do governo de enfrentar aquilo que prometeu, que é a reestruturação das despesas públicas, começando pela PEC Emergencial — completou Maia.