Maia repudia ataques de Bolsonaro a Dilma: ‘tortura é debochar da dor do outro’

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Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo

As declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ironizando a tortura e agressões sofridas pela ex-presidente Dilma Rouseff (PT) durante a ditadura militar, foram repudiadas por uma série de políticos, incluindo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ). Em postagem nesta terça-feira no Twitter, Maia disse que "tortura é debochar da dor do outro".

"Bolsonaro não tem dimensão humana. Tortura é debochar da dor do outro. Falo isso porque sou filho de um ex-exilado e torturado pela ditadura. Minha solidariedade a ex-presidente Dilma. Tenho diferenças com a ex-presidente, mas tenho a dimensão do respeito e da dignidade humana", postou.

Além de Maia, outros atores políticos, de diferentes lados do espectro ideológico, também se manifestaram, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em postagem em seu Twitter pessoal, FH afirmou que “brincar com a tortura dela — ou de qualquer pessoa — é inaceitável”.

O ex-presidente Lula também repudiou os ataques. Em postagem nas redes sociais, o petista disse “o Brasil perde um pouco de sua humanidade a cada vez que Jair Bolsonaro abre a boca”.

O vice-presidente nacional do PDT e ex-ministro Ciro Gomes também rechaçou as agressões sofridas por Dilma.

O deputado Baleia Rossi (MDB-SP), candidato à presidência da Câmara, também criticou Bolsonaro.

Em nota à imprensa, Dilma respondeu que o presidente "não se sensibiliza diante da dor de outros seres humanos" e "revela a índole própria de um torturador". Na década de 1970, Dilma ficou presa por três anos em razão de sua atuação contra a ditadura.

Na segunda-feira, em conversas com apoiadores na porta do Palácio do Alvorada, antes de embarcar para o Guarujá (SP), Bolsonaro ironizou a tortura sofrida pela ex-presidente da República Dilmar Rousseff, durante o período em que ela foi presa na década de 70, durante a Ditadura Militar.

Ele chegou a cobrar que lhe apresentassem um raio-x da petista para provar a fratura na mandíbula.

- Dizem que a Dilma foi torturada e fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio-X para a gente ver o calo ósseo. Olha que eu não sou médico, mas até hoje estou aguardando o raio-X - afirmou.

Dilma integrou organizações de esquerda que combateram a ditadura militar. Ela foi presa e torturada e chegou a receber indenizações dos governos de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, onde as torturas ocorreram.

Esta não é a primeira vez que o presidente faz declarações relacionadas às torturas sofridas por Dilma.

Durante a votação do processo de impeachment da ex-presidente, em abril de 2016, o então deputado usou seu discurso para exaltar o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou o DOI-Codi, órgão de repressão política da ditadura militar, entre 1970 e 1974. Na ocasião, chamou-o de "o pavor de Dilma Rousseff".

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, também criticou as declarações do presidente.

"Pense em um homem que no meio de uma onda de feminicídios debocha de um mulher presa e torturada. Esse sujeito existe e, pior, preside o Brasil", disse Santa Cruz nesta terça.

Em agosto de 2019, o advogado foi alvo de um episódio similar, envolvendo o assassinato de seu pai, durante a ditadura militar, quando tinha apenas dois anos de idade.

Ao comentar as investigações sobre seu agressor Adélio Bispo de Oliveira, presidente disse que o pai de Santa Cruz, desaparecido durante a ditadura militar, fazia parte do grupo "mais sanguinário" do movimento Ação Popular.

Não há uma versão oficial que explique o desaparecimento e a morte do pai do presidente da OAB. Na contramão do que diz Bolsonaro, um ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) disse em 2012 que incinerou dez corpos de militantes executados pelos militares em 1973. Cláudio Antônio Guerra, em depoimento ao livro "Memórias de uma guerra suja", mencionou o nome de Fernando Santa Cruz na lista dos corpos que queimou em uma usina em Campos (RJ).

Existe uma outra possibilidade, também documentada pelo relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), de que Santa Cruz tenha sido enterrado por militares em São Paulo.